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IPO do anel cancelado: por que a Oura adiou oferta para levantar US$ 2,2 bi na bolsa

Fabricante do anel que mede o sono desistiu da estreia na Nasdaq horas antes da precificação, em meio à alta dos juros e a uma ação coletiva nos EUA

Anel inteligente da Oura Ring: IPO adiado por incertezas (Divulgação/Divulgação)

Anel inteligente da Oura Ring: IPO adiado por incertezas (Divulgação/Divulgação)

Mitchel Diniz
Mitchel Diniz

Editor de Invest

Publicado em 30 de setembro de 2026 às 06h45.

Última atualização em 30 de setembro de 2026 às 06h48.

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  • • A Oura adiou o IPO na Nasdaq com o qual pretendia levantar até US$ 2,2 bilhões, horas antes da precificação.
  • • A empresa culpou a incerteza do mercado, pressionado pela alta dos juros dos títulos públicos, pelo temor de novas altas do Fed e pelas tensões geopolíticas.
  • • A Oura se junta a Holtec Nuclear e Bamboo Insurance, que também desistiram, por ora, de abrir capital nos Estados Unidos.
  • • A fabricante do anel responde a uma ação coletiva que questiona a promessa de 95% de precisão no monitoramento das fases do sono.

A Oura, fabricante finlandesa do anel inteligente que monitora sono adiou a oferta inicial de ações (IPO) com a qual pretendia levantar até US$ 2,2 bilhões na Nasdaq. Os papéis começariam a ser negociados nesta quarta-feira, 30.

A empresa atribuiu a decisão à incerteza no mercado de IPOs. Em comunicado, afirmou que a demanda pelos papéis era forte e que o negócio se fortaleceu desde o lançamento formal da oferta, em 21 de setembro. "Temos o luxo de escolher o nosso momento", disse o CEO Tom Hale, que prometeu seguir executando o plano da companhia enquanto isso.

A Oura e alguns de seus acionistas ofereciam 50 milhões de ações, com preço indicativo entre US$ 40 e US$ 44. No teto da faixa, a companhia seria avaliada em US$ 15,62 bilhões em base totalmente diluída. Na última rodada privada de captação, no ano passado, o valor de mercado estimado era de cerca de US$ 11 bilhões. A maior parte das ações seria vendida por fundos de venture capital que investiram na empresa, como Forerunner Ventures e Lifeline Ventures.

Demanda boa, mas não suficiente

Segundo as agências internacionais, a oferta recebeu cerca de quatro vezes mais pedidos do que o número de ações disponíveis. Para Lukas Muehlbauer, pesquisador da IPOX citado pela Reuters, o nível de procura foi "decente, mas não necessariamente avassalador para uma marca de consumo conhecida".

O pano de fundo pesou. Depois de um início de ano forte, o mercado de IPOs nos Estados Unidos perdeu fôlego com investidores reavaliando a sustentabilidade dos gastos bilionários em infraestrutura de inteligência artificial e os valuations elevados. A alta nos rendimentos dos títulos públicos, o temor de novas altas de juros pelo Federal Reserve e as tensões geopolíticas agravaram o quadro.

Samuel Kerr, chefe global de mercado de capitais da Mergermarket, afirmou à CNBC que o adiamento expõe os desafios dos emissores em um mercado cada vez mais turbulento. Segundo ele, a alta dos juros da dívida soberana tem levado investidores a exigir descontos maiores para compensar o aumento do custo de capital das empresas.

Oura se junta a Holtec e Bamboo na fila de adiamentos

A Oura é a mais recente de uma série de empresas que desistiram, por ora, de abrir capital nos Estados Unidos. No início de setembro, a Holtec Nuclear, de serviços de energia nuclear, retirou seu IPO citando o sentimento adverso no mercado de ações. A empresa mencionou custos de energia em alta, tensões comerciais, conflitos militares e o temor de inflação que levou os bancos centrais dos Estados Unidos, da Europa e do Japão a subir juros. A seguradora Bamboo Insurance, apoiada pela gestora CVC Capital Partners, também adiou sua estreia.

A oferta da Oura era vista como um teste para o apetite dos investidores por empresas de alto crescimento. Seria o primeiro IPO de porte nos Estados Unidos depois da tradicional pausa do verão americano e a primeira operação acima de US$ 1 bilhão desde a listagem da rede de sanduíches Jersey Mike's, em julho. O mercado também esperava que uma estreia bem-sucedida abrisse caminho para outras empresas de wearables de saúde, como a americana Whoop.

Muehlbauer, da IPOX, avalia que a janela para novas ofertas ficou mais seletiva, mas não fechou. Ele cita a Anthropic, que segue com planos para o que pode ser um dos maiores IPOs da história. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a estreia da empresa de inteligência artificial pode acontecer depois das eleições legislativas americanas, em novembro.

Lucro, assinaturas e crescimento de 90%

A Oura afirma ser lucrativa e projeta crescimento de 90% na receita no ano fiscal de 2026. Nos nove meses encerrados em junho, faturou US$ 1,2 bilhão, alta de cerca de 75% em um ano, com lucro antes de impostos de US$ 107 milhões, excluindo despesas que não afetam o caixa. No ano passado, a empresa já projetava receita de US$ 1 bilhão.

O modelo de negócio combina a venda do anel, que custa entre US$ 400 e US$ 500 na versão mais recente, com uma assinatura de US$ 70 por ano para acesso completo aos dados. Segundo a companhia, o lançamento do Oura Ring 5 elevou a base de membros pagantes para 5,7 milhões.

A ação coletiva sobre o monitoramento de sono

Em agosto, a Oura se tornou alvo de uma proposta de ação coletiva nos Estados Unidos. O processo foi aberto epelo escritório Clarkson Law Firm na Justiça Federal do Distrito Norte da Califórnia, em San Francisco, em nome de Madison Surber, consumidora que pagou cerca de US$ 514 por um Oura Ring 4 em maio de 2025.

A ação acusa a empresa de enganar consumidores sobre a precisão do monitoramento de sono. O alvo são as peças de marketing que descrevem o anel como "construído para a precisão", a alegação de 79% de concordância com a polissonografia, exame de referência feito em laboratórios do sono, e, mais recentemente, a promessa de 95% de precisão na identificação das fases do sono em comparação com um laboratório clínico, divulgada na página do Oura Ring 5.

Segundo a petição, as fases do sono são definidas pela atividade cerebral, pelo movimento dos olhos e pelo tônus muscular, sinais captados por eletrodos no couro cabeludo e sensores perto dos olhos. O anel, argumentam os advogados, depende de estimativas geradas por inteligência artificial a partir de indicadores indiretos, como batimentos cardíacos, movimento e temperatura. A ação cita um estudo de 2025 que encontrou precisão de 53,18% na classificação das fases do sono pelo anel. O processo pede o reconhecimento da ação coletiva, ressarcimento aos compradores e mudanças na publicidade da empresa.

A Oura contesta as acusações e afirma que vai se defender na Justiça. Em nota, a empresa disse manter suas alegações de precisão e que seu método foi validado por estudos independentes comparados à polissonografia, embora o anel não seja um dispositivo médico nem substitua um exame clínico. A companhia não relacionou o adiamento do IPO ao processo. Nos tribunais americanos, ações semelhantes tiveram destinos variados. Um processo que questionava a medição de oxigênio no sangue do Apple Watch foi arquivado em 2023.

*com agências internacionais

Perguntas frequentes

Por que a Oura adiou o IPO?

A empresa atribuiu a decisão à incerteza no mercado de ofertas de ações nos Estados Unidos. Investidores estão mais seletivos com a alta dos juros dos títulos públicos, o temor de novas altas de juros pelo Federal Reserve, as tensões geopolíticas e a reavaliação dos gastos com inteligência artificial.

Quanto a Oura pretendia levantar na bolsa?

Até US$ 2,2 bilhões, com a venda de 50 milhões de ações a um preço entre US$ 40 e US$ 44. No teto da faixa, a empresa seria avaliada em US$ 15,62 bilhões em base totalmente diluída.

O IPO da Oura foi cancelado?

Não. A oferta foi adiada, sem nova data. O CEO, Tom Hale, afirmou que a empresa tem o luxo de escolher o momento de abrir capital.

Faltou demanda pelas ações?

Segundo relatos da imprensa internacional, a procura foi cerca de quatro vezes maior que o número de ações disponíveis. Para analistas, o nível foi razoável, mas não avassalador para uma marca de consumo conhecida.

Quais outras empresas adiaram IPOs nos Estados Unidos?

A Holtec Nuclear, de serviços de energia nuclear, retirou sua oferta no início de setembro, e a seguradora Bamboo Insurance, apoiada pela CVC Capital Partners, também adiou a estreia.

A Oura dá lucro?

Sim. A empresa afirma ser lucrativa e projeta alta de 90% na receita no ano fiscal de 2026. Nos nove meses encerrados em junho, faturou US$ 1,2 bilhão.

Como a Oura ganha dinheiro?

Com a venda do anel, que custa entre US$ 400 e US$ 500 na versão mais recente, e com uma assinatura de US$ 70 por ano para acesso completo aos dados. A base de membros pagantes é de 5,7 milhões.

Do que a Oura é acusada na ação coletiva?

O processo, aberto em agosto na Justiça Federal da Califórnia, acusa a empresa de enganar consumidores ao anunciar 95% de precisão na identificação das fases do sono. Os advogados argumentam que o anel não mede a atividade cerebral e citam um estudo que apontou precisão de 53,18%.

O que a Oura diz sobre o processo?

A empresa contesta as acusações, afirma que seus dados foram validados por estudos independentes e diz que vai se defender na Justiça. A Oura não relacionou o adiamento do IPO à ação.

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