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Acabar com a dependência do plástico produzido a partir do petróleo é um desafio global (Getty Images)
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Publicado em 24 de agosto de 2026 às 12h17.
Última atualização em 24 de agosto de 2026 às 12h21.
No mês de julho, o movimento é intenso nas praias da região Norte, com famílias aproveitando as férias escolares e o verão amazônico. Quando os banhistas vão embora, um problema flutua nas águas marrons do litoral, onde rio e oceano se encontram: sacolas plásticas, copos descartáveis, garrafas PET, embalagens de alimentos e uma infinidade de fragmentos de plástico.
Acabar com a dependência do plástico produzido a partir do petróleo é um desafio global, mas e se a resposta para resolver parte desse problema vier dos insumos da floresta? Pesquisadores da Amazônia desenvolvem protótipos de bioplásticos a partir de produtos da sociobiodiversidade amazônida.
No Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia (PPGCTEC) da Universidade do Estado do Pará (Uepa), a pesquisadora Ayla Marinho fez essa pergunta e desenvolveu um bioplástico produzido a partir de resíduos da castanha-do-pará.
Enquanto a indústria geralmente concentra seus esforços na amêndoa, Ayla decidiu olhar para aquilo que normalmente acaba virando resíduo: o tegumento, a fina casca que envolve a castanha.
Depois de coletado, o material passa por limpeza, secagem, moagem e peneiramento até formar micropartículas. Extremamente finas, elas são incorporadas a amidos de mandioca e milho, que funcionam como a matriz do material, formando um filme biodegradável semelhante ao plástico.
"O amido é a base. As micropartículas funcionam como um reforço estrutural, distribuindo as forças dentro do material e aumentando sua resistência", afirma.
O processo ainda é experimental. A mistura é preparada manualmente, aquecida a cerca de 90 graus, recebe glicerol para ganhar flexibilidade e permanece aproximadamente 24 horas em estufa até formar o bioplástico.
A pesquisa consumiu dois anos de trabalho, dezenas de formulações e incontáveis horas de laboratório, sob orientação de João Rodrigo Coimbra Nobre. O trabalho contou ainda com o apoio do Laboratório de Celulose da Amazônia, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), cuja coordenadora, Lina Bufalino, tem experiência com a produção de papel a partir da fibra do caroço do açaí e co-orientou a pesquisa de Ayla.
Os resultados permitem sonhar com um mundo com menos poluição plástica: algumas formulações degradaram mais de 50% em apenas 35 dias no solo, enquanto o lixo plástico pode demorar de 20 a 500 anos para se decompor.
Por causa dessa rápida biodegradação, elas são ideais para substituir o plástico em sacos de mudas, coberturas agrícolas e embalagens descartáveis.
“Aquele saco plástico preto que geralmente usam nas mudas acaba trazendo danos ao meio ambiente, porque quando a planta vai crescendo, o plástico se degrada no solo. O bioplástico resolveria esse impacto", ressalta.
No entanto, transformar o protótipo em produto comercial é outro desafio. No caso da experimentação da Uepa, segundo Ayla, ainda faltam testes mecânicos, térmicos e microbiológicos que comprovem a segurança e a resistência do material para diferentes aplicações.
Também seria necessário substituir o processo artesanal por equipamentos industriais capazes de produzir grandes volumes com qualidade constante.
Enquanto a região concentra biodiversidade e matérias-primas com potencial para bioeconomia, como mandioca, fibras vegetais e resíduos florestais, o mercado segue dominado pelo plástico fóssil.
Parte da explicação está no preço, explica a pesquisadora Natália de Miranda Grilli, integrante da Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano e da Liga das Mulheres pelo Oceano.
“O plástico convencional parece barato porque muitos custos ficam invisíveis. Eles não entram na conta do produto. Entram depois, na saúde pública, na limpeza urbana e na perda de biodiversidade", afirma.
Para reverter o cenário, a pesquisadora aponta caminhos como acabar com os subsídios diretos e indiretos à indústria fóssil, destinando os incentivos às alternativas sustentáveis.
“Hoje não se tem uma competição justa. Precisamos redesenhar os sistemas financeiros para sair desse ciclo vicioso", complementa.
Nesse sentido, Natália defende a cobrança de mais de quem polui e o direcionamento desses recursos para subsidiar inovação e alternativas sustentáveis.
“Por enquanto, o que temos é a privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos. Não pode mais valer a pena poluir”, argumenta.
Hoje, quase todos os plásticos convencionais usados no cotidiano são derivados de petróleo ou gás natural.
Sacolas de supermercado, embalagens de alimentos, utensílios descartáveis e garrafas fazem parte de uma cadeia petroquímica que segue em expansão.
À medida que cresce a pressão internacional para reduzir o uso de combustíveis fósseis na matriz energética, especialistas como Natália se preocupam com o fato de que, ainda assim, a indústria petrolífera aposte na produção de plásticos como forma de manter a demanda por petróleo.
“Dentro dos petroquímicos, o plástico é o que gera mais demanda e o que mais tem crescido. Essa é uma agenda estratégica para empresas e países que querem continuar dependendo dos combustíveis fósseis”, observa.
Segundo ela, essa conexão ainda aparece de forma marginal nas negociações climáticas internacionais.
“Eu gostaria de ver mais interconexão entre as discussões de clima e as discussões sobre plástico. Hoje isso ainda está muito separado.”
Por isso, Natália lidera uma rede que defende que a poluição plástica seja um tópico considerado na construção do mapa do caminho para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis.
O grupo, de cerca de 30 a 40 cientistas brasileiros de diferentes áreas, como química, políticas públicas, microplásticos e saúde ambiental, enviou em abril uma proposta para a consulta pública da presidência da COP30.
Entre as recomendações dessa proposta estão a inclusão de metas relacionadas ao plástico nas NDCs dos países, a redução da produção de plástico virgem e uma regulamentação mais rígida sobre todo o ciclo de vida desses materiais.
Para Natália, a saída não é apenas substituir o plástico por outro material qualquer.
“A gente não pode cair na armadilha de achar que basta trocar a matéria-prima”, diz.
“Se você substitui um plástico fóssil por um material que continua gerando poluição química ou microplásticos, você não está necessariamente construindo uma sociedade mais justa ou mais sustentável”, conclui.
Bióloga de formação, Natália Grilli tem acompanhado as negociações do Tratado Global contra a Poluição Plástica desde a primeira reunião.
A proposta dessa negociação é abordar várias dimensões dessa questão, incluindo responsabilidade dos produtores, melhorias no design dos produtos e financiamento para ações como limpeza em áreas de maior acúmulo de plástico.
Contudo, os negociadores vivem um impasse para chegar a um acordo e ainda não há previsão de quando poderá sair, de fato, um tratado.
Enquanto isso, a pesquisadora reforça que estados e municípios não precisam esperar para agir; podem criar suas próprias regulamentações.
“Eu não acho que leis locais sejam um passo pequeno. Acho que são fundamentais”, reitera.
Dos nove estados da Amazônia Legal, apenas dois não apresentam atualmente legislações para proibição de sacolas plásticas usadas no comércio.
O Amazônia Vox fez um levantamento com base em sites oficiais dos governos estaduais e das assembleias legislativas, e constatou que o Acre não tem lei vigente sobre o tema e que Rondônia já teve a Lei n. 2.531/2011, que obrigava o uso de sacolas biodegradáveis, mas ela foi integralmente revogada três anos depois, pela Lei n. 3.452/2014.
De forma geral, as regulamentações vigentes na região proíbem ou restringem a distribuição de sacolas plásticas descartáveis no comércio, incentivando alternativas mais sustentáveis.
Há leis mais rigorosas e outras mais flexíveis. Por exemplo, o Mato Grosso exige sacolas ecológicas apenas em eventos, enquanto o Pará proíbe a distribuição de sacolas plásticas descartáveis em todo o comércio.
Natália Grilli adverte, no entanto, para os "falsos biodegradáveis".
Há estudos que mostram como esses materiais podem gerar impactos semelhantes aos plásticos convencionais, se não houver infraestrutura adequada de coleta e compostagem, e ainda reforçam uma falsa sensação de consumo sustentável.
Para o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), reduzir o consumo de itens descartáveis, incentivar produtos reutilizáveis e aprimorar a gestão de resíduos são estratégias mais eficazes do que confiar apenas na substituição por plásticos rotulados como biodegradáveis.
Ou seja, o ideal é começar pela pergunta mais básica: este produto é realmente necessário?
“A ideia seria produzir menos plásticos, mas plásticos de melhor qualidade, mais duráveis, mais seguros para a saúde e mais sustentáveis”, resume Natália.
Isso inclui eliminar substâncias tóxicas presentes em aditivos químicos, estabelecer critérios científicos globais para segurança e sustentabilidade e incentivar sistemas de reutilização.
No geral, as legislações na Amazônia deixam brechas, como a ausência de definições claras do que é biodegradável, além de não incluir políticas que garantam uma infraestrutura adequada para combater a poluição plástica.
Por exemplo, citam a reciclabilidade das sacolas, mas não asseguram um sistema de coleta seletiva.
Sem certificação, fiscalização e infraestrutura de compostagem, essas normas podem apenas trocar o tipo de resíduo, sem resolver o problema da poluição plástica, como analisa o advogado tributarista Ricardo Hübner, professor da Universidade Nilton Lins, em Manaus.
No Amazonas, a Lei Estadual nº 6.077/2022 proíbe a venda de sacolas plásticas descartáveis confeccionadas à base de polietileno, polipropileno e materiais similares para acondicionamento e transporte de mercadorias, permitindo apenas a distribuição ou a venda de sacolas biodegradáveis ou biocompostáveis.
Com base no cenário local, Ricardo estudou soluções tributárias para falhas de mercado e identificou lacunas na formulação dessas políticas.
Uma delas é que, em vez de simplesmente banir as sacolas plásticas ou oferecer alternativas, permitiu-se que os supermercados vendessem as sacolas plásticas ao consumidor em vez de fornecê-las gratuitamente.
Isso resultou em um aumento de preço, repassado ao consumidor, sem impedir que as pessoas continuassem consumindo o produto.
“As pessoas continuam consumindo as sacolas, ainda que tenham que pagar. Até porque a política aqui no estado foi implementada sem que tivesse sacolas reutilizáveis [ecobags] disponíveis para venda nos supermercados, a gente passou meses sem ter essa opção. O hábito não mudou, só o custo para os consumidores", critica.
Além disso, mesmo que se evite o uso de sacolas plásticas na saída do estabelecimento, ou seja, no momento de levar as compras, Ricardo recorda que o consumidor ainda acaba utilizando sacos plásticos descartáveis em outras etapas, como na seleção e pesagem de produtos hortifrúti.
Em países como Portugal, o fim desses sacos plásticos ultraleves está incluído nas políticas públicas.
O advogado defende que políticas tributárias podem acelerar essa transição.
Entre as possibilidades estão benefícios fiscais para fabricantes de embalagens biodegradáveis, redução de impostos sobre produtos reutilizáveis e criação de certificações ambientais que agreguem valor às empresas comprometidas com soluções sustentáveis.
"O objetivo não é arrecadar mais, mas tornar economicamente vantajoso produzir e consumir alternativas melhores", sintetiza.
No Pará, a Lei nº 8.902/2019 proíbe a distribuição gratuita de sacolas plásticas convencionais e determina que os estabelecimentos devem oferecer sacolas reutilizáveis/retornáveis compostas por mais de 51% de fontes renováveis.
Inicialmente, o comércio podia cobrar pela sacola, mas a Justiça barrou essa decisão. Hoje, as sacolas biodegradáveis são distribuídas gratuitamente.
Em nota, o Procon Pará informa que, atualmente, a fiscalização também prevê autuações em casos de estabelecimentos reincidentes.
O órgão destaca que a capital e a Região Metropolitana de Belém já apresentam maior adesão às normas e reforça que segue ampliando as ações de conscientização ambiental e fiscalização no interior do estado.
A socioambientalista e comunicóloga Mariana Guimarães, que vive em Belém (PA), faz parte da parcela de consumidores que carregam consigo ecobags, sacolas reutilizáveis produzidas com material durável, como algodão, e pequenas redes reutilizáveis para frutas e legumes.
“Comecei porque me dava muita angústia ver o tanto de plástico que a gente produz", lembra.
Há pelo menos cinco anos, evitar sacolas descartáveis se tornou um hábito em sua rotina.
Nem sempre é fácil lembrar de levar a própria bolsa, admite. Mas hoje, quando esquece, improvisa: usa a mochila, coloca os itens soltos no carrinho ou simplesmente recusa a embalagem.
“As frutas e verduras, se não estou com a minha 'redinha’, coloco direto no carrinho mesmo, já que em casa vou precisar lavar de qualquer forma", acrescenta.
Na própria família, o uso das ecobags se espalhou.
“Hoje a gente tem várias ‘sacolonas’ em casa e também as usamos para separar resíduos", diz.
No entanto, os bons gestos individuais encontram barreiras nos déficits estruturais da cidade.
“Belém tem um problema gravíssimo de destinação correta dos resíduos. Não tem coleta seletiva funcionando em muitos bairros. Então acaba havendo uma dependência dessas sacolas plásticas mesmo”.
Apesar de reconhecer a importância das escolhas de cada cidadão, ela reforça a importância de decisões globais, nacionais e locais para transformar de fato o mercado, desde um tratado para o combate à poluição plástica até um mapa do caminho para se afastar dos combustíveis fósseis e regulamentações mais rígidas nos países.
Vale recordar que, no momento, estão em tramitação no Senado Federal normas que impactam a indústria do plástico:
No ano passado, às vésperas da COP30, foi publicado o Decreto 12.644, de 2025, que instituiu a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico, visando a prevenção, redução e eliminação da poluição por plástico no oceano.
Enquanto as políticas são debatidas, Mariana segue fazendo sua parte.
Aliás, quando ela vai à praia, leva sua ecobag para evitar ser uma das responsáveis pelos resíduos que se espalham pelo mar.
“Eu concordo que não dá para colocar tudo nas costas do consumidor. Mas também sinto que não podemos esperar apenas uma grande solução estrutural e deixar de colocar em prática mudanças simples”, finaliza.
Glicerol: composto orgânico pertencente à função álcool. É geralmente usado como umectante e para conservar bebidas e alimentos tais como refrigerantes, balas, bolos e pastas de queijo.
Desde o início de 2026, a presidência da COP30 está mobilizando países e sociedade civil para construir um documento de implementação do mapa do caminho para longe dos combustíveis fósseis. A ideia é servir de um grande guia que traz o conjunto de ideias, soluções e aprendizados ao redor do mundo para servir de exemplo e auxiliar cada país a transicionar para longe dos combustíveis fósseis. Até o final de abril, mais de 400 propostas haviam sido submetidas.
*Reportagem produzida pela Amazônia Vox, acesse no site.