Digitalizadas, favelas se descolam da elite e assumem protagonismo na luta contra a pobreza

Para Edu Lyra, CEO da Gerando Falcões, que acaba de ser eleito para o seleto grupo de Catalisadores da Bloomberg, há uma janela de oportunidades aberta. Aproveitá-la depende de protagonismo
Edu Lyra, CEO da Gerando Falcões: “A verdade é que ou o Brasil apostas nos pobres, ou será um país pequeno" (Leandro Fonseca/Exame)
Edu Lyra, CEO da Gerando Falcões: “A verdade é que ou o Brasil apostas nos pobres, ou será um país pequeno" (Leandro Fonseca/Exame)
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Rodrigo Caetano

Publicado em 04/08/2022 às 10:08.

Última atualização em 04/08/2022 às 16:47.

Edu Lyra, cofundador e CEO da Gerando Falcões, rede de 600 ONGs com atuação em favelas, segura o celular com a tela virada para a câmera. “A favela ganhou poder”, afirmou, apontando para o aparelho. O empresário, ativista e líder comunitário conversou com a EXAME, por videoconferência, assim que foi anunciado como um dos Catalisadores da Bloomberg New Economy, um seleto grupo de 28 líderes de 16 países escolhidos entre mais de 300 indicações. Três deles são brasileiros: Lyra, a cientista Anna Luísa Beserra, fundadora da startup Desenvolvimento Sustentável & Água Para Todos, e Taynaah Reis, CEO da fintech social Moeda Seeds Bank.

O reconhecimento da Bloomberg, que é referência no mercado financeiro, para ele, é resultado de um processo de empoderamento e independência das favelas, que assumiram, há algum tempo, o protagonismo na luta contra a pobreza – no caso, a própria. Há um portal aberto no espaço econômico que leva à superação da miséria e da desigualdade, afirma, mas só é possível acessá-lo da periferia. “O processo só será genuíno se for de dentro para fora”, explica. “A convocação virá da favela.”

A alusão ao celular, do início, mostrou o catalisador tecnológico dessa revolução. A tecnologia deu à periferia capacidade de desenvolver redes próprias e cortar intermediários. As ferramentas necessárias para o empreendedorismo ficaram acessíveis. O talento, e não o acesso a elas, se tornou determinante. Num movimento centrípeto, a favela se aproximou de eixos de produção cultural, abriu mercados, criou marcas e se afirmou como força econômica. Se antes a periferia dependia do centro para consumir, a partir dessa revolução, o centro passou a consumir a periferia.

O produtor cultural Kondzilla e a cantora e empresária Anitta são os maiores ícones desse processo, mas ele é mais amplo. “A favela é a grande startup do país”, afirma Lyra. “O Kond só precisou que alguém inventasse uma câmera. Ninguém entende mais de colaboração do que a favela, e é isso que estamos mostrando para o mundo hoje. Mudanças só se tornam resilientes quando são feitas de dentro para fora. Para isso, é preciso gerar oportunidades, que, no nosso caso, vieram com a tecnologia.”

Plataformas para repensar o espaço urbano

Este é o segundo ano que a Bloomberg divulga a lista de catalisadores. “Eles foram selecionados pelo impacto tangível que cada um já teve - e pelo que eles podem alcançar coletivamente no futuro como uma comunidade global dinâmica”, afirma Stephanie Flanders, editora executiva sênior de Economia e governo da Bloomberg e presidente editorial da New Economy. Os líderes irão se reunir em um fórum organizado pelo braço de inovação da companhia, em novembro, em Cingapura – o evento está na quinta edição.

Lyra esteve no fórum do ano passado, onde participou de debates sobre as cidades do futuro. A falta de infraestrutura, um problema endêmico das favelas, precisa ser abordada a partir de uma visão multidimensional. As questões físicas, como saneamento, mobilidade e acesso à internet, se conectam com aspectos humanos. “Quem conhece a favela é quem mora nela”, afirma. O objetivo dessa abordagem é criar espaços de convívio, que promovam o espírito colaborador das comunidades e uma sensação de segurança. “Quando as crianças vão para as ruas, os pais acompanham. O espaço é reconquistado e o crime, que precisa da escuridão, se reposiciona.”

Essas ideias estão sintetizadas no conceito de Favela 3D: digital, digna e desenvolvida. Em maio, a Gerando Falcões anunciou um programa pensado junto com a consultoria Accenture, chamado Favela Beta, que busca desenvolver esse tipo de solução e promover a colaboração entre empresas e comunidades. A proposta é gerar um ecossistema de desenvolvimento tecnológico, que fomente uma agenda de transformações a partir do protagonismo dos moradores desses territórios.

A favela venceu

“Temos centenas de milhares de vagas abertas em tecnologia no Brasil por falta de profissionais. Não faltam pessoas. Por que não capacitamos jovens moradores de favela, que estão nos grandes centros urbanos e têm qualificação, para preencher esses espaços?”, questiona Lyra. “A verdade é que ou o Brasil apostas nos pobres, ou será um país pequeno. Eu posso ter nascido preto e pobre, não por isso sou incapaz de entregar soluções para meus problemas. Nós, favelados, passamos muito tempo sem ser reconhecidos. Agora, conquistamos visibilidade e não dependemos mais da elite para construir o futuro.”

Segundo dados da empresa de pesquisas Data Favela, em 2019, as favelas movimentaram 120 bilhões de reais. Em 2021, o IBGE publicou uma pesquisa sobre a renda dos “aglomerados subnormais”, nome técnico criado pelo instituto para se referir às favelas. O valor é maior do que 20 das 27 unidades da federação. Estimativas mais recentes apontam que as favelas já movimentam 180 bilhões de reais. Foi Kondzilla que popularizou a frase “a favela venceu”. Ele disse que cunhou a expressão porque se sentiu menosprezado como empresário pela elite. Abandonou a ideia, mais tarde, pois ainda não dá para falar em vitória quando se olha para as vulnerabilidades desses territórios. O que dá para dizer é que a favela entrou no jogo, e vem forte.