O remédio ficou mais barato. Agora falta o paciente ficar
ARTIGO: O preço trouxe milhares de brasileiros de volta ao tratamento da obesidade. O desafio agora é o abandono


Eduardo Rauen
Médico
Publicado em 3 de novembro de 2026 às 05:00.
RESUMO +
Após a farmacêutica EMS lançar a primeira semaglutida produzida no Brasil, em junho de 2026, as compras de medicamentos GLP-1 em agosto ficaram cerca de 50% acima da média de janeiro a maio, segundo o painel público da agência reguladora Anvisa. A receita da categoria permaneceu quase estável, enquanto o preço médio por caixa caiu cerca de 25%.
Em quatro meses, o tratamento da obesidade no Brasil mudou mais do que em quatro anos. A virada aparece nos dados públicos da Anvisa logo depois de junho, quando a EMS lançou a primeira semaglutida produzida no país. É um movimento que eu nunca tinha visto. Em agosto, o Brasil comprou cerca de uma vez e meia mais caixas de medicamentos da classe GLP-1 do que a média do início do ano. A receita da categoria ficou praticamente a mesma, e o preço médio por caixa caiu cerca de um quarto. O dinheiro que circula é o mesmo. O tratamento que ele compra é muito maior.
No consultório, esse número tem rosto. Ao longo dos últimos três anos, vi o motivo de abandono do tratamento mudar a cada fase do mercado. Primeiro foi o desconhecimento: pouca gente sabia o que essas medicações faziam. Depois veio a falta, com o desabastecimento das canetas importadas. Em seguida, o preço. Agora, pela primeira vez, o preço aparece no sentido contrário, como motivo para recomeçar. Na plataforma de cuidado contínuo que ajudei a fundar, mais da metade dos pacientes que tinham interrompido a semaglutida importada voltou ao tratamento.
Quem chega também mudou. O paciente que procura tratamento hoje é, em média, mais velho, chega com obesidade mais avançada e relata diabetes com mais frequência do que o de um ano atrás. Não é quem já estava tratado trocando de marca. É quem estava fora e entrou. Do ponto de vista de saúde pública, é a melhor notícia do ano.
Há um dado que me preocupa e me anima ao mesmo tempo. Cerca de um em cada três pacientes que chegam já tendo usado caneta relata ter usado tirzepatida sem marca, manipulada ou importada sem registro, sem nenhuma garantia do que havia dentro da seringa. É o paciente mais sensível a preço que eu conheço: três em cada quatro dizem que o critério para a próxima caneta é caber no orçamento. Muitos ainda estavam em uso quando procuraram ajuda. Para esse paciente, uma opção registrada e mais acessível é uma porta de saída do mercado paralelo. É a chance de trocar a seringa de origem duvidosa por uma prescrição, um médico e um acompanhamento.
Agora, o alerta. Preço resolve a entrada, não a permanência. Já escrevi aqui que a molécula faz metade do trabalho. A outra metade continua sendo a mesma: acompanhamento, mudança de comportamento e alguém olhando para o paciente entre uma consulta e outra. Remédio mais barato traz o paciente de volta, mas não garante que ele fique. Se a gente repetir o modelo de sempre (uma receita, uma consulta a cada seis meses e o paciente sozinho no intervalo), vamos assistir ao mesmo filme com mais figurantes: mais gente começando e mais gente desistindo.
O que me dá esperança é que quem está chegando parece entender isso. Nos primeiros meses, esses pacientes têm usado o acompanhamento mais do que a média: abrem o aplicativo, conversam com a equipe, voltam às consultas com a nutricionista. Ainda é cedo para falar de resultado, e eu não vou falar. O que dá para dizer é que a porta de entrada se abriu e que o paciente está disposto a ficar, se encontrar com quem ficar.
A obesidade é uma doença crônica. Ninguém trata hipertensão com uma aferição de pressão por semestre, e não faz sentido tratar obesidade com uma receita por semestre. O mercado fez a sua parte e baixou a barreira do preço. Falta a nossa parte: construir, em escala, um cuidado que acompanhe o paciente na mesma velocidade em que ele está chegando. A medicina da continuidade deixou de ser uma ideia. Virou uma urgência.
Fontes dos dados citados: painel público da Anvisa (agosto de 2026 comparado à média de janeiro a maio de 2026) e dados descritivos de atendimento de rotina da plataforma Liti Saúde, sem valores absolutos. Os dados de plataforma não constituem estudo clínico e não permitem atribuir causalidade a nenhum medicamento.
'Perguntas frequentes'
Como mudou o mercado de medicamentos GLP-1 no Brasil? +
Em agosto de 2026, o Brasil comprou cerca de uma vez e meia mais caixas de medicamentos GLP-1 do que a média de janeiro a maio, segundo o painel público da Anvisa. A receita da categoria ficou praticamente estável, enquanto o preço médio por caixa caiu cerca de 25%.
Quando a EMS lançou a semaglutida produzida no Brasil? +
A farmacêutica EMS lançou a primeira semaglutida produzida no Brasil em junho de 2026. O aumento das compras de medicamentos GLP-1 aparece nos dados públicos da Anvisa relativos aos meses seguintes.
Pacientes que abandonaram a semaglutida voltaram ao tratamento? +
Mais da metade dos pacientes da plataforma Liti Saúde que haviam interrompido a semaglutida importada voltou ao tratamento, segundo dados descritivos de atendimento de rotina. Esses dados não constituem estudo clínico nem permitem atribuir o retorno a algum medicamento.
Qual é o perfil dos novos pacientes que procuram tratamento para obesidade? +
Segundo os dados de atendimento relatados no artigo, os pacientes atuais são, em média, mais velhos, apresentam obesidade mais avançada e relatam diabetes com maior frequência do que os pacientes de um ano atrás. O texto afirma que são pessoas que estavam fora do tratamento, e não apenas pacientes que trocaram de marca.
Quantos pacientes relatam ter usado tirzepatida sem registro? +
Cerca de um em cada três pacientes da Liti Saúde que já haviam usado canetas relatou o uso de tirzepatida sem marca, manipulada ou importada sem registro. Entre esse grupo, três em cada quatro disseram que o próximo medicamento precisaria caber no orçamento, segundo os dados descritivos da plataforma.
Reduzir o preço do medicamento garante a continuidade do tratamento da obesidade? +
Não. O artigo sustenta que o preço facilita o início ou o retorno ao tratamento, mas que a permanência também exige acompanhamento médico e nutricional, mudança de comportamento e contato com a equipe entre as consultas.
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Eduardo Rauen
MédicoMédico nutrólogo e especialista em medicina do exercício e do esporte. Fundou o Instituto Rauen e idealizou o Health Center no shopping Cidade Jardim, em São Paulo, que reúne nutrologia, performance e saúde metabólica no mesmo cuidado. É co
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