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Por Roberto Kalil Filho*

Criado na Constituição de 1988 e inspirado em sistemas públicos europeus, principalmente no National Health Service (NHS) britânico, que nasceu em 1948, o Sistema Único de Saúde (SUS) hoje serve de modelo inclusive para a Grã-Bretanha. Recentemente vimos notícias mostrando que o sistema de saúde daquele país está fazendo uma ação que é comum aqui no Brasil: bater de porta em porta para verificar a condição de saúde das pessoas e detectar problemas antes que eles se agravem.

Isso mostra o quão relevante é o SUS. Nosso sistema já deu inúmeras provas de sua importância para a manutenção da saúde num país tão desigual como o Brasil, que tem 213 milhões de habitantes, dos quais 2/3 são atendidos pelo SUS, o maior do mundo entre os seus semelhantes.

A pandemia provou a importância de podermos contar com um sistema público de saúde abrangente e capilarizado para atingir os mais distantes rincões de um país continental. Apesar de todas as dificuldades, o SUS organizou a campanha nacional de vacinação com ampla adesão popular, garantindo índices de imunização contra a Covid-19 muito maiores do que em vários países mais desenvolvidos.

Os serviços prestados pelo SUS vão da prevenção, possibilitada pelo trabalho em domicílio dos grupos de medicina de família, até tratamentos altamente sofisticados, como a oncologia, especialidade em que vários hospitais da rede pública são referência em muitos estados.

Mas manter um sistema desse tamanho não é fácil. É necessário atualização constante da administração e do planejamento e a incorporação rápida de novas tecnologias, tanto em conectividade de banco de dados quanto em automação de procedimentos médicos, passando pelo desenvolvimento de técnicas para atendimentos a distância. Também é essencial manter atualizados o rol de procedimentos cobertos, a lista de medicamentos distribuídos gratuitamente e a remuneração de todos os prestadores de serviços médicos. Ou seja, é necessário modernização e investimentos que independem do governo ou partido no poder.

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É preciso que a eficiência e o financiamento do SUS entrem na agenda de preocupações de autoridades e da sociedade para garantir seu fortalecimento. Desde sua criação, o maior gargalo do SUS é o financiamento. Apesar dos esforços de diferentes governos, falta o dinheiro necessário para infraestrutura e recursos humanos suficientes para as demandas da população atendida — e essas demandas só aumentam. A cada ano, a população do País cresce em número de idosos, que exigem cuidados médicos e prevenção constantes. Outro gargalo é a dificuldade de planejar, sejam as estratégias de atendimento no futuro ou a evolução do custo de suas operações a médio e longo prazo.

Portanto, o futuro do SUS não depende só da ampliação do orçamento dedicado à saúde como um todo, em termos materiais e humanos, mas de modernização. Isso significa, entre outras urgências, o investimento em ferramentas de saúde digital, adesão ao sistema de consultas por vídeo com clínicos gerais, nutricionistas, fonoaudiólogos etc., principalmente para comunidades carentes.

É preciso também investimento sério na ampliação e integração da base de dados do SUS, assunto já tratado pelo grupo de transição formado pelo governo eleito no fim do ano passado, do qual tive o privilégio de participar. Ainda aproveitamos pouco uma das maiores vantagens trazidas pela digitalização da medicina, que é a possibilidade de sincronizar e analisar milhões de dados de pacientes, ampliando a capacidade do sistema, de acompanhar a saúde de populações por região, e do Estado, de antecipar suas políticas para o setor.

Daí é que surgem oportunidades para a iniciativa privada participar decisivamente desse processo. A administração pública do SUS deve se abrir e se preparar para aproveitar todo esse potencial, firmando parcerias seguras que permitam incorporar o que há de mais avançado em tecnologia e conectividade.

Para encurtar caminhos, os gestores públicos precisam estar atentos às demandas dos profissionais de saúde de todas as áreas. São eles que conhecem de perto as carências e potencialidades do sistema. É também necessário dar condições para as universidades e exigir a participação delas no processo, já que algumas estudam há anos todos esses problemas.

Seremos um país mais justo quando, de fato, pudermos garantir saúde de qualidade para todos, com o SUS valorizado, atualizado tecnologicamente e com financiamento adequado.

*Professor titular de Cardiologia da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês

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