Economia

Mineração pode destravar R$ 1,3 tri em arrecadação no Brasil, aponta Vale

Ampliar a atividade mineral entre 2026 e 2035 poderia gerar R$ 1,3 trilhão em arrecadação fiscal adicional e criar de 5,3 milhões de empregos ao longo da próxima década

Vale: Brasil reúne reservas estratégicas para a transição energética, mas perdeu competitividade na última década (Germano Lüders/Exame)

Vale: Brasil reúne reservas estratégicas para a transição energética, mas perdeu competitividade na última década (Germano Lüders/Exame)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 18 de agosto de 2026 às 10h06.

Última atualização em 18 de agosto de 2026 às 11h05.

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O Brasil tem uma das maiores riquezas minerais do mundo, mas ainda não conseguiu transformar esse potencial em liderança global. Um relatório elaborado pela Accenture em parceria com a Vale aponta que o país reúne reservas estratégicas para a transição energética, como nióbio, terras raras, grafita, lítio, cobre e níquel, mas perdeu competitividade na última década e caiu da 4ª para a 7ª posição no ranking mundial de valor da produção mineral entre 2014 e 2023.

Ampliar a atividade mineral poderia gerar impactos econômicos relevantes para o país. Atualmente, a cadeia mineral representa cerca de 4% do PIB brasileiro e responde por aproximadamente 50% do saldo da balança comercial. Nos últimos dez anos, o setor arrecadou cerca de R$ 743 bilhões em impostos e tributos, segundo os dados apresentados no documento. Caso o potencial mineral seja destravado entre 2026 e 2035, a projeção é de R$ 1,3 trilhão em arrecadação fiscal adicional e a criação de 5,3 milhões de empregos ao longo da próxima década.

Para que isso seja possível, no entanto, o país precisa acelerar o conhecimento sobre seu próprio território, modernizar regras e criar condições para ampliar investimentos no setor. Um dos principais gargalos apontados é o baixo nível de mapeamento geológico: apenas 28% do território nacional possui cobertura básica em escala adequada para identificar novas oportunidades minerais.

A discussão ocorre em um momento em que a demanda global por minerais considerados críticos cresce rapidamente. A expansão de veículos elétricos, energia renovável, inteligência artificial e infraestrutura digital deve aumentar significativamente a necessidade por metais como lítio, cobre, níquel e terras raras nos próximos anos.

Segundo o relatório, a demanda global até 2035 deve crescer 493% para o lítio, 245% para a grafita, 89% para terras raras, 44% para o cobre e 36% para minério de ferro de alta qualidade.

O avanço dos veículos elétricos é um dos principais motores dessa demanda. A expectativa é que 40% das vendas globais de carros sejam elétricas até 2030, aumentando o consumo de cobre, lítio e níquel.

A inteligência artificial também adiciona uma nova camada de demanda. O consumo global de energia por data centers deve dobrar até 2030, exigindo mais infraestrutura elétrica e, consequentemente, mais cobre. O relatório estima que a expansão desses centros de processamento demandará cerca de 512 mil toneladas de cobre.

Além da tecnologia, o crescimento populacional também pressiona a necessidade por minerais. A projeção é de 700 milhões de novas pessoas no mundo nos próximos dez anos, aumentando a demanda por infraestrutura, aço, ferro e fertilizantes.

Como chegar lá?

O Brasil está entre os países mais ricos em reservas minerais. O relatório destaca que o país lidera mundialmente as reservas de nióbio, com 66,7% das reservas globais, e ocupa a segunda posição em terras raras (24,7%) e grafita (23,9%).

O país também aparece entre os três maiores detentores de reservas de ferro (17%), manganês (16,7%), estanho (11,7%) e níquel (11,4%).

Apesar dessa vantagem geológica, o ritmo de expansão da produção brasileira ficou abaixo de concorrentes como Austrália, Filipinas e República Democrática do Congo em determinados minerais.

Segundo a Vale, a perda de competitividade está ligada a fatores como baixa cobertura geológica, desafios de infraestrutura, ambiente regulatório e necessidade de maior previsibilidade para investimentos.

Para transformar o potencial mineral brasileiro em valor econômico, a Vale propõe uma agenda estruturada em quatro grandes frentes, divididas em 15 iniciativas prioritárias. A proposta busca modernizar os fundamentos do setor, ampliar a competitividade do país e criar condições para que a mineração participe de forma mais relevante da transição energética global.

A primeira frente está relacionada ao fortalecimento dos fundamentos da mineração e do licenciamento. A Vale defende a otimização e padronização dos processos de licenciamento ambiental para reduzir gargalos burocráticos e aumentar a previsibilidade para novos investimentos. A agenda também inclui o fortalecimento de órgãos reguladores e fiscalizadores, como Ibama, Iphan, ICMBio, Funai e secretarias estaduais, além da modernização da gestão de títulos minerários.

Outro ponto central é ampliar o conhecimento sobre o subsolo brasileiro: a empresa propõe uma parceria entre o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e empresas privadas para expandir o mapeamento geológico nacional.

A segunda frente trata da integração da cadeia mineral. A proposta é que o Brasil avance além da exportação de minério bruto e aumente sua participação no processamento e na transformação dos recursos dentro do país. Para isso, a Vale defende incentivos à industrialização mineral, investimentos em infraestrutura para melhorar o escoamento da produção e a ampliação do uso de energia de baixo carbono. Atualmente, segundo o documento, cerca de 50% da energia consumida pelo setor mineral já vem de fontes renováveis.

A terceira agenda envolve o ambiente de negócios e a regulação. Entre as medidas sugeridas estão a criação de uma Política Nacional de Minerais Críticos, voltada a recursos estratégicos como lítio, cobre e níquel, além da atualização de regras relacionadas a cavidades naturais, segurança de estruturas e rejeitos. O documento também defende o fortalecimento institucional da Agência Nacional de Mineração (ANM) e uma discussão sobre a reforma tributária para evitar impactos sobre a competitividade do setor.

A quarta frente é voltada à geração de valor compartilhado, com o objetivo de ampliar os benefícios econômicos e sociais da mineração nos territórios onde ela ocorre. A Vale propõe melhorar o uso da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral), os royalties pagos pelas empresas, para que municípios mineradores direcionem esses recursos a áreas como educação, saúde e infraestrutura. A empresa também defende projetos estruturantes com contrapartidas socioambientais e o fortalecimento de práticas de mineração responsável.

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