Patrocínio:
Edson Vasconcelos, presidente do Sistema FIEP (Gelson Bampi/Divulgação)
Editor da Região Sul
Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 15h18.
O ritmo da indústria paranaense entra em 2026 em compasso mais cauteloso. A 30ª edição da tradicional Sondagem Industrial, divulgada nesta segunda-feira (2) pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), aponta uma redução relevante no nível de otimismo dos empresários, refletindo um ambiente marcado por instabilidade macroeconômica, incertezas políticas e desafios estruturais que se aprofundaram ao longo de 2025 — com destaque para a escassez de mão de obra qualificada, hoje identificada como um dos principais gargalos ao crescimento do setor.
O levantamento mostra que 55% das indústrias do Paraná estão otimistas em relação ao desempenho de seus negócios em 2026. Apesar de ainda representar a maioria do setor, o percentual recuou seis pontos percentuais na comparação com 2025, quando 61% dos empresários se declaravam mais confiantes.
O pessimismo se acentua quando a análise se desloca para o cenário macroeconômico nacional: 46% dos empresários industriais paranaenses acreditam em retração da economia brasileira, enquanto 30% projetam estabilidade e apenas 24% esperam crescimento.
O peso dessa percepção ganha relevância diante da dimensão do setor no estado. A indústria do Paraná reúne cerca de 80 mil empresas, emprega aproximadamente 1 milhão de trabalhadores diretos e indiretos e responde por cerca de 28% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual, sendo um dos principais motores da economia regional.
Para a Fiep, o arrefecimento do otimismo está diretamente ligado à condução da política econômica. “Questões macroeconômicas como o desequilíbrio fiscal, o recorrente aumento de tributos sobre o setor produtivo e a elevada taxa básica de juros cada vez mais sufocam as indústrias e minam a competitividade do setor”, afirma Edson Vasconcelos, presidente do Sistema Fiep.
Segundo ele, a estratégia de sustentar o crescimento do PIB nacional por meio de gasto público descontrolado e pouco eficiente compromete a capacidade de expansão sustentável da economia.
A percepção dos empresários reforça esse diagnóstico. Quando questionados sobre os fatores que mais influenciaram sua avaliação do cenário econômico, 61% apontaram a política nacional como principal vetor de preocupação, seguidos por 26% que citaram diretamente a economia brasileira.
A cautela não se limita à leitura do ambiente externo. Ao avaliar o desempenho das próprias empresas, 33% dos industriais adotam uma postura neutra para 2026, enquanto 12% se declaram pessimistas, um aumento de três pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.
Entre os empresários otimistas, os principais motores de confiança são a expectativa de aumento nas vendas (56%), a abertura de novos mercados (51%) e os ganhos de produtividade (46%). Já entre os pessimistas, os obstáculos são majoritariamente estruturais: 64% apontam a dificuldade de encontrar mão de obra como o principal problema, à frente dos custos totais de produção (47%) e da infraestrutura logística (44%).
A falta de mão de obra qualificada emerge como um dos pontos mais críticos da Sondagem Industrial 2025/2026. Mais do que uma dificuldade pontual de contratação, o problema passou a ser percebido como um freio estrutural à competitividade, com impactos diretos sobre produtividade, investimentos e capacidade de expansão das empresas.
Empresários relatam dificuldades crescentes para preencher vagas técnicas e operacionais, especialmente em áreas ligadas a processos industriais, automação, manutenção, tecnologia e gestão da produção.
O descompasso entre a demanda por profissionais qualificados e a oferta disponível no mercado tem levado empresas a postergar projetos, redimensionar planos de crescimento e reforçar investimentos internos em capacitação.
Esse cenário ajuda a explicar por que 64% dos empresários pessimistas citam a mão de obra como principal entrave aos negócios. Em um ambiente de custos elevados e margens pressionadas, a dificuldade de contratar profissionais adequados limita ganhos de eficiência, compromete a adoção de novas tecnologias e reduz a competitividade do parque industrial, inclusive frente a concorrentes internacionais.
A sondagem também mapeou os fatores que, na avaliação dos industriais, mais prejudicam o ambiente de negócios no país. A corrupção lidera com folga, citada por 83% dos entrevistados, seguida pela conjuntura econômica nacional (74%), pela agenda de reformas (62%) e pelas políticas sociais governamentais (50%).
Sobre esse último ponto, Vasconcelos destaca que políticas mal calibradas podem gerar distorções. “Temos observado uma expansão fiscal baseada no aumento de custos com políticas sociais que não garantem a efetiva inserção do beneficiário no mercado de trabalho, o que compromete um crescimento econômico sustentado no longo prazo”, afirma.
Em outra passagem durante a apresentação dos resultados, o presidente da Fiep reforçou que os desafios enfrentados pela indústria não são apenas conjunturais, mas estruturais. Segundo ele, a superação desses entraves exige diálogo permanente entre o setor produtivo e o poder público, com foco na melhoria do ambiente de negócios e na competitividade de longo prazo.
Apesar do cenário adverso, a indústria paranaense segue investindo. A pesquisa mostra que 84% das empresas pretendem investir em 2026, sendo que 59% planejam manter ou ampliar o volume de recursos aplicados. Outros 25% devem reduzir investimentos, enquanto 16% não pretendem investir.
Os recursos serão direcionados principalmente para a melhoria de processos, produtos ou serviços (63%), redução de custos de produção (46%), prospecção de mercados (45%) e ampliação da capacidade produtiva (38%). “As estratégias mostram uma preocupação clara com eficiência operacional e consolidação de mercado em um ambiente externo repleto de incertezas”, diz Vasconcelos.
Para enfrentar o cenário mais restritivo, as empresas têm apostado em ajustes internos e inovação. 75% apontam a melhoria dos processos produtivos como principal estratégia para elevar a produtividade, seguidos pela qualificação profissional (64%), melhorias de gestão (36%) e automação e robotização (26%).
Um dos destaques da edição é o avanço do uso de inteligência artificial, citada por 15% dos entrevistados, um crescimento de sete pontos percentuais em relação à pesquisa anterior. O movimento indica que a tecnologia vem sendo incorporada não apenas como vetor de inovação, mas também como resposta direta à escassez de mão de obra.
A cautela também se reflete no comércio exterior. Apenas 30% das indústrias paranaenses pretendem exportar em 2026, um recuo de 17 pontos percentuais. A intenção de importação caiu para 44%, queda de 14 pontos percentuais.
A pesquisa incluiu ainda questões sobre a Reforma Tributária, em vigor neste ano. Apesar de 71% dos empresários afirmarem não conhecer todos os impactos da mudança, há uma expectativa moderadamente positiva: 39% acreditam que a reforma será benéfica para seus negócios, 46% para a economia, e 55% esperam redução da complexidade tributária.
A indústria do Paraná figura entre os três maiores polos de indústria de transformação do país, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais, e sustenta uma base produtiva altamente diversificada. Segmentos como alimentos e bebidas, automotivo, papel e celulose, madeira e móveis, metalmecânica, máquinas e equipamentos, vestuário, construção e agroindústria garantem resiliência ao parque industrial, mas também ampliam os desafios de coordenação, qualificação de mão de obra e competitividade.
Essa força se reflete nas exportações: a indústria de transformação responde por mais de 70% das vendas externas do estado, com presença relevante em cadeias globais de valor.
Ao mesmo tempo, a combinação entre ambiente macroeconômico adverso, escassez de mão de obra qualificada e entraves estruturais históricos impõe limites ao avanço da competitividade em 2026, reforçando a necessidade de previsibilidade econômica, investimentos em qualificação e melhoria contínua do ambiente de negócios.