Estátua de touro próximo à bolsa de Nova York, símbolo do mercado financeiro dos EUA ( Spencer Platt/AFP)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 19 de novembro de 2025 às 11h51.
Última atualização em 19 de novembro de 2025 às 16h40.
O ano de 2026 será marcado por três movimentos principais, avalia o banco J.P. Morgan. São eles o avanço do uso de inteligência artificial pelas empresas, uma inflação ainda persistente e um mundo em que a globalização deu lugar a um cenário fragmentado, com o planeta dividido em blocos.
O banco, um dos maiores dos Estados Unidos no atendimento a empresas, divulgou seu relatório Outlook 2026, chamado "Promise and Pressure", (Promessa e Pressão), obtido de forma antecipada pela EXAME.
"A IA está transformando a maneira como trabalhamos, investimos e pensamos. Com a inovação, vêm a empolgação, mas também o risco de euforia excessiva", diz o relatório.
O material destaca, ainda que a fragmentação geopolítica — a divisão em blocos que competem globalmente e cadeias de suprimentos estilhaçadas— está remodelando a ordem global e exigindo maior atenção à resiliência e à segurança.
"A inflação não segue mais o padrão antigo. Ela está mais frequentemente acima das metas dos bancos centrais, e o aumento da volatilidade exige uma nova mentalidade dos investidores", afirma o estudo.
Alexandre Zanuto, Market Manager da J.P. Morgan para o Brasil, diz que a IA deverá aumentar a produtividade do trabalho, o que trará valor ao mercado. Ao mesmo tempo, as grandes empresas americanas estão investindo forte na nova tecnologia.
"O gasto com Capex, o capital investido ou reinvestido no negócio da empresa, triplicou nos últimos anos. Era de US$ 150 bilhões em 2023 e pode ser de mais de US$ 500 bilhões em 2026", afirma Zanuto.
O gerente aponta, ainda, que 40% do valor de mercado do índice S&P, que reúne as maiores empresas americanas, está impactado ou relacionado à IA, seja por investimentos ou por possíveis ganhos de produtividade.
"Para a gente, o retorno do mercado público de ações está atrelado ao tema de inteligência artificial, seja para o bem ou para o mal", afirma.
Zanuto avalia que o risco de uma bolha relacionada à IA é pequeno, pois a taxa de vacância dos data centers, usados como base pela IA, está baixa, em cerca de 1,6%, e as novas unidades só são construídas conforme a demanda.
"Ao mesmo tempo, praticamente não vemos empresas se endividando para investir em IA. Todo o dinheiro investido em capex que chama a atenção ainda é justificável e sustentável", diz.
O analista avalia, ainda que o corte de juros pelo Fed apoiará uma retomada do crescimento global. "O otimismo do mercado deve continuar", diz.
No entanto, ele pondera que a velocidade de cortes de juros do Fed deverá seguir em ritmo mais moderado. "Achamos que a inflação vai continuar mais alta por um período mais longo", afirma.
O estudo aponta que a globalização deverá seguir em processo de fragmentação, com a formação de blocos de países e comércio concentrado entre eles, em vez de um modelo de mundo aberto, em que os países possuem o máximo de parceiros comerciais possível.
Neste cenário de fragmentação global, haverá também efeitos no dólar. "É um cenário onde o dólar pede um pouco de força no cenário global. Ele vai continuar sendo a posição mais segura, mas investidores começam a procurar qual é a próxima moeda", diz Zanuto.
Na Europa, o aumento dos gastos em defesa impulsiona o crescimento econômico regional, criando um ambiente favorável para investidores atentos às oportunidades locais, aponta o estudo.
“A resposta da Europa a esta nova era é decisiva, marcada pelo ambicioso estímulo fiscal alemão e pelo aumento dos gastos na defesa europeia, o que deverá impulsionar as perspectivas de crescimento na região", diz Erik Wytenus, diretor de Estratégia de Investimentos para Europa, Oriente Médio e África.
Neste contexto, a América Latina se destaca por ter papel estratégico em suprimentos necessários para a transição energética. A América do Sul concentra 40% da produção mundial de cobre e 38% das reservas globais do metal, por exemplo.
“A América Latina é uma força indispensável nas cadeias de suprimentos globais e na transição energética, alimentando o futuro da indústria e da IA", diz Nur Cristiani, diretor de Estratégia de Investimentos para América Latina. "Com os bancos centrais se aproximando do final dos seus ciclos de flexibilização, as perspectivas para as moedas e o crescimento são encorajadoras, tanto a curto como a longo prazo."
Na Ásia, o crescimento do superávit comercial da China e o fortalecimento dos laços com o Sudeste Asiático ampliam a influência global da região, enquanto a inovação tecnológica impulsiona setores estratégicos, avalia o banco.
“Vemos oportunidades de destaque em toda a Ásia, principalmente na Índia e nos setores de tecnologia e exportação de Taiwan, impulsionadas pelo seu crescimento independente. Na China, a inovação tecnológica em IA, plataformas de consumo e veículos elétricos está alimentando retornos impressionantes e moldando uma economia digital dinâmica", diz Grace Peters, Codiretora de Estratégia de Investimento Global no banco.