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O que é justo?

A venda da Justiça não quer dizer que ela deva ser cega, como diz o provérbio
 (Getty Images/Dursun Aydemir/Anadolu Agency)
(Getty Images/Dursun Aydemir/Anadolu Agency)
Por Nosso OlharPublicado em 10/09/2020 18:41 | Última atualização em 10/09/2020 18:41Tempo de Leitura: 4 min de leitura

O que é justo? Para quem? Quando será que atingiremos esse ideal de justiça? A justiça frequentemente é representada pela deusa grega Têmis, vendada e com uma balança na mão. A venda não quer dizer que a justiça deva ser cega, como diz o provérbio, deixando de ver as injustiças, mas sim representar a imparcialidade. Não ver a origem das pessoas, suas características, sua classe social, seu sexo, mas sim julgar exclusivamente amparada na lei e na moral.

Mas essa justiça existe? Somos tratados de forma igual? Ou é o poder que está no comando?

Antes, precisamos ver alguns conceitos sobre justiça. Para Platão, em sua obra “A República”, a justiça precisa de solidariedade social, quando os indivíduos contribuem para o bem-estar coletivo. Para o filósofo, a justiça é a virtude das virtudes que deve ser buscada por todos na sociedade. Pensamento semelhante ao do discípulo Aristóteles, que em “Ética à Nicômaco”, além de tratar a justiça como a principal virtude, fala sobre a igualdade como forma de atingir a justiça. “Essa é a natureza do equitativo: uma correção da lei quando ela é deficiente em razão da sua universalidade”, diz.

Suas ideias se aplicavam às particularidades da sociedade em que os pensadores viviam, mas que em essência podem ser aproveitadas, e são, até os dias de hoje. Ao longo da história e em praticamente todas as revoluções, a busca por igualdade entre os indivíduos foi uma constante. Porém, temos outro conceito hoje que é o da justiça social, uma forma de compensar os estigmas históricos. E aqui voltamos ao Aristóteles, que entende a equidade como o caminho que reconhece as desigualdades existentes. A justiça social é a forma institucional de reduzir o abismo entre os mais e menos privilegiados.

E por que precisamos dela? Vivemos em um país marcado por aquela que talvez seja a maior forma de violência da humanidade, que é a escravidão. Vivemos em um país onde mulheres até 1988 não eram consideradas iguais aos homens. Onde mulheres ainda são corpos férteis. Onde homens ainda usam a violência contra a mulher. Onde mulheres são poucas em cargos de liderança. Onde mulheres são poucas na política. E que em um cenário de pandemia vemos ainda um mundo corporativo que não ampara a mulher que é mãe solo, trabalha fora, não tem com quem deixar os filhos e acaba perdendo o emprego.

O que é justo nesse caso? Mesmo que a lei muitas vezes seja clara em colocar as mulheres e homens como iguais, até onde essa lei é efetiva? Hoje, a cultura, a moral, as normas sociais ainda aprisionam mulheres em estereótipos sociais. Mesmo estando na lei, será que essa lei assegura um mundo mais justo e igual para as mulheres? Não necessariamente.

Precisamos da lei para tentar corrigir as desigualdades. Mas a lei não garante a justiça verdadeira. Para isso precisamos de um olhar empático sobre as diferenças do outro também. Enquanto todos não entenderem o que é equidade, ou seja, entender que você não é melhor que o outro por causa do seu gênero, classe social, cor da pele, não haverá um mundo verdadeiramente justo, mesmo que isso seja assegurado em lei. Por isso, qual é o papel individual de nós, seres humanos, das empresas, e do poder público quando falamos de justiça social? Todos e todas precisamos olhar para dentro e entender onde podemos melhorar para que a gente garanta um mundo mais justo e igual para os nossos filhos e filhas.