Cérebro: novo medicamento atua em proteína ligada à doença de Alexander (Getty Images)
Redatora
Publicado em 13 de outubro de 2026 às 19h26.
Um resultado inesperado em um experimento com camundongos abriu caminho para o desenvolvimento do primeiro medicamento capaz de atuar diretamente na doença de Alexander, condição neurológica rara e progressiva que afeta o cérebro e a medula espinhal.
Mais de três décadas depois das primeiras pesquisas, a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou o Zanvastro, medicamento desenvolvido para reduzir a produção de uma proteína que se acumula de forma anormal nas células do sistema nervoso de pessoas com a doença.
Segundo comunicado divulgado pela Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, a condição afeta menos de uma pessoa a cada 1 milhão e pode surgir na infância, adolescência ou idade adulta. Entre as possíveis manifestações estão dificuldades de movimento, fala e deglutição, além de convulsões e alterações em funções controladas pelo sistema nervoso.
Até agora, os cuidados disponíveis eram direcionados principalmente ao controle dos sintomas. O Zanvastro é o primeiro tratamento modificador da doença aprovado para a condição.
De acordo com a universidade, a pesquisa serviu de base para o desenvolvimento do medicamento em colaboração com a farmacêutica Ionis Pharmaceuticals.
A doença está relacionada a alterações no gene GFAP, responsável pelas instruções para a produção da proteína fibrilar ácida glial, também chamada GFAP. As mutações levam ao acúmulo anormal dessa proteína nos astrócitos. Com o tempo, o processo pode prejudicar o funcionamento do sistema nervoso.
Os sintomas e a velocidade de progressão variam entre os pacientes. A doença pode provocar dificuldades para andar, falar e engolir, além de convulsões e perda de habilidades anteriormente adquiridas.
A origem do novo tratamento remonta a pesquisas conduzidas na década de 1990 por cientistas da Universidade de Wisconsin-Madison e da Universidade do Alabama em Birmingham. Os pesquisadores modificaram geneticamente camundongos para produzirem quantidades elevadas da proteína GFAP. O objetivo inicial não era desenvolver um tratamento para a doença de Alexander.
Os animais, porém, desenvolveram depósitos anormais de proteínas semelhantes às fibras de Rosenthal, estruturas características encontradas no sistema nervoso de pacientes com a doença. A descoberta levou os cientistas a investigar a relação entre a GFAP e a condição.
Estudos posteriores com pacientes confirmaram que mutações no gene responsável pela produção dessa proteína estavam relacionadas à doença de Alexander. A identificação forneceu um alvo específico para o desenvolvimento de tratamentos e também facilitou o diagnóstico por meio de testes genéticos.
O Zanvastro utiliza uma tecnologia conhecida como oligonucleotídeo antissenso, ou ASO. Esses medicamentos usam pequenos fragmentos de material genético desenvolvidos para interferir nas instruções utilizadas pelas células para produzir uma proteína específica.
No caso da doença de Alexander, o alvo é a GFAP. Ao reduzir sua produção, o medicamento busca diminuir o acúmulo anormal da proteína nos astrócitos e interferir no processo relacionado à progressão da doença.
Como precisa alcançar o sistema nervoso central, o Zanvastro é administrado por meio de uma injeção no canal espinhal realizada por um profissional de saúde. Segundo a Universidade de Wisconsin-Madison, a aplicação é feita uma vez a cada três meses.
O desenvolvimento clínico incluiu um estudo internacional conduzido pela Ionis Pharmaceuticals em 13 centros, com participação de 54 pacientes.
Segundo a Universidade de Wisconsin-Madison, pacientes tratados com Zanvastro apresentaram estabilização da função motora durante o acompanhamento, enquanto alguns registraram melhora em medidas relacionadas ao movimento.
Após pouco mais de um ano de tratamento, também foram observados resultados relacionados à velocidade de caminhada.
Os dados contribuíram para a aprovação do medicamento pela FDA. A autorização contempla pacientes com doença de Alexander em diferentes faixas etárias.
A principal diferença do Zanvastro em relação às opções anteriores está no alvo do medicamento. Até então, os cuidados buscavam controlar manifestações da doença, como convulsões e dificuldades relacionadas ao movimento, fala ou alimentação.
O novo medicamento atua sobre a produção da proteína GFAP, relacionada ao mecanismo biológico da condição. Isso não significa que o Zanvastro represente uma cura para a doença de Alexander. O medicamento foi aprovado como uma terapia modificadora da doença, e a resposta ao tratamento pode variar entre os pacientes.
A aprovação encerra uma trajetória científica iniciada há mais de três décadas com um resultado inesperado em animais de laboratório e que, posteriormente, ajudou a revelar a causa genética da doença.