Aquecimento global: combustíveis fósseis são os principais vilões

Em entrevista a EXAME, Henrique Pereira, diretor de consultoria da WayCarbon, explica o impacto das emissões para o planeta
Poluentes: setor de energia responde por 73,2% das emissões globais (Ueslei Marcelino/Reuters)
Poluentes: setor de energia responde por 73,2% das emissões globais (Ueslei Marcelino/Reuters)
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RedaçãoPublicado em 18/11/2021 às 15:49.

O aquecimento global já começa a mostrar seus impactos e, diante da urgência do tema, empresas e governos têm se mobilizado para reduzir e até zerar as emissões de gases causadores do efeito estufa. 

Muito se fala sobre o papel do desmatamento para o aquecimento global, algo particularmente em evidência no Brasil e que com razão atrai pressão da comunidade internacional.

Um estudo, por sua vez, mostra que o setor de agricultura, florestas e uso da terra responde por 18,4% das emissões globais. Enquanto isso, o setor de energia (transportes e uso de energia) responde por 73,2%, de acordo com dados do relatório Emissions by sector.

Como explicam os pesquisadores, as emissões vêm de muitos setores e é preciso encontrar diferentes soluções para descarbonizar a economia.  

Henrique Pereira, cofundador e diretor de consultoria da WayCarbon – considerada referência nacional em consultoria e desenvolvimento de soluções de tecnologia e inovação voltadas à sustentabilidade -, afirma que, sim, os combustíveis fósseis são os principais agentes do aquecimento global.

“A queima de combustíveis fósseis (um hidrocarboneto) tem como resultado a emissão de gases poluentes, incluindo gases de efeito estufa (CO2, N2O e CH4), sendo o CO2 o principal deles”, explica.Portanto, o consumo de energia é o maior emissor de CO2 no globo, respondendo por 33 GtCO2 em 2021, segundo a International Energy Agency – IEA.”

Aquecimento global

As emissões de energia incluem a queima de combustíveis fósseis, principalmente carvão, para a produção de eletricidade e vapor, o consumo energético da indústria e as emissões associadas ao transporte.
As principais consequências da excessiva queima de combustíveis fósseis para o planeta já estão em evidência.

Pereira comenta que, segundo o relatório 1,5ºC do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), os impactos da mudança do clima são amplos e heterogeneamente distribuídos na superfície do planeta.

“Em outras palavras, diferentes regiões serão impactadas de diferentes formas colocando populações e ecossistemas mais vulneráveis em situações de impacto desproporcionalmente maiores”, afirma. “Por exemplo, o risco de impacto para sistemas de corais é muito alto, implicando a extinção desse bioma em muitas regiões do planeta. Enquanto o risco para ecossistemas terrestres é alto.”

No caso de florestas, ele pontua, o aquecimento médio da superfície da terra, associada a alteração do regime de chuvas, pode impactar as condições ecossistêmicas de vida e ocorrência de certas fitofisionomias. Um exemplo? Se o clima deixar de ser adequado à presença de uma floresta tropical, em última instância, pode acelerar processos de desertificação. 

É preciso fazer mais

Para ele, as medidas atuais de empresas e governos não são suficientes para conter o aquecimento global. “Os dados são abundantes para demonstrar isso”, diz. “Análises do Carbon Tracker indicam que a trajetória de aquecimento para as políticas atuais de redução de emissão é de 2,9ºC."

Pereira reforça que o princípio da precaução deveria ser levado a sério no contexto da mudança do clima. “A ciência apresenta as consequências para uma alteração de 1,5ºC ou 2ºC. A partir desse limite estamos apostando contra um risco irreversível”, avisa. “A dinâmica do planeta é complexa. Os oceanos são responsáveis pela remoção de grande parte dos gases emitidos. Mas até quando? Qual é a consequência para o sistema climático da perda acelerada das geleiras? Qual é a resiliência dos ecossistemas e das florestas para as alterações climáticas projetadas?”

O especialista afirma que o planeta já está 1,1ºC mais quente em relação ao período pré-industrial e diz que a janela de oportunidade para limitarmos o aquecimento abaixo de 1,5ºC é baixa, dentro desta década. “A urgência é incontestável.

Algumas medidas que podem ser adotadas para mitigar o impacto dos combustíveis fósseis, como por exemplo o uso de veículos elétricos pela indústria, já estão em andamento.