Casual

“Trabalhamos com objetos de desejo”, diz o diretor de inovação da IWC

Lorenz Brunner desenvolve novos materiais para a manufatura de relógios e atua em diversos projetos ao mesmo tempo. Às vezes em segredo

Lorenz Brunner, da IWC: novos materias precisam trazer benefícios ao cliente (IWC Schaffhausen/Divulgação)

Lorenz Brunner, da IWC: novos materias precisam trazer benefícios ao cliente (IWC Schaffhausen/Divulgação)

Ivan Padilla
Ivan Padilla

Editor de Casual e Especiais

Publicado em 10 de abril de 2024 às 06h00.

SCHAFFHAUSEN. Lorenz Brunner tem um cargo tão importante quanto desafiador na manufatura de relógios IWC Schaffhausen: ele é head de pesquisa e inovação. Em meio a tantos concorrentes, o uso de novos materiais pode fazer diferença na preferência dos consumidores. Mas qual a medida certa de inovação em uma indústria tão tradicional?

Há 12 anos na manufatura suíça, Brunner tem entre seus principais feitos o desenvolvimento do Ceratanium, um material que traz a leveza e a robustez do titânio com uma liga similar à cerâmica, presente na caixa do modelo Top Gun, ou a nova coleção Portugieser apresentada na Watches & Wonders, realizada este ano entre 9 e 13 de abril em Genebra.

A Casual EXAME foi conhecer os lançamentos em primeira mão na manufatura da IWC, em Schaffhausen, na Suíça. Por lá, conversamos com Brunner. Confira a seguir.

Qual é exatamente o seu trabalho? Como é seu dia a dia?

Trabalhamos juntos como uma equipe de inovação com muitos parceiros, por exemplo com universidades, com fornecedores, então é mais uma espécie de gestão de inovação que fazemos. De vez em quando temos alguma exceção, como o Ceratanium, em que fizemos tudo internamente. Quando eu desenvolvi o material estava literalmente em frente ao forno, verificando as temperaturas e assim por diante. Mas normalmente trabalhamos com parceiros, então é mais uma organização de pesquisa, essa é a razão pela qual durante um dia normal pulamos de um projeto para o outro. Em um dia normal de trabalho eu passo por pelo menos 10 projetos diferentes. Às vezes é só um e-mail de atualização, ou um pedido para pegar minhas amostras. Na minha equipe mesmo tenho três pessoas e um estagiário.

O que é importante quando você começa a pesquisar novos materiais?

Acho importante que realmente ofereçamos um benefício ao cliente. Então isso sempre é, digamos assim, a prioridade número um. Precisamos fornecer algo novo. Pode ser melhor resistência ao choque, pode ser melhor resistência ao desgaste, pode ser um material mais leve. Também pode ser uma nova ótica. Por exemplo, se olharmos para as cores do Ceratanium, como o verde escuro, o branco, você pode argumentar se é inovação ou não. Mas é algo novo que adicionamos para benefício do cliente.

Existem pesquisas que você faz sem contar para outros departamentos?

Quando fiz meu PhD em ciência e engenharia de materiais, um professor com quem trabalhei me disse: Lorenz, se você agora for para a indústria, eu lhe dou um conselho. Sempre que você fizer uma pesquisa, faça 20% sem contar a ninguém. Faça isso em um canto escuro, coloque-a em uma gaveta, não conte a ninguém. Pode não ser 20%, mas de vez em quando realmente faço coisas que não conto a ninguém. Se você mostra algo que está em um estágio muito inicial, as pessoas podem ter dificuldade para imaginar como isso poderia evoluir como um componente de relógio. Então eu preciso chegar a um certo nível de maturidade antes de mostrar para alguém. A maioria dos projetos são realmente discutidos abertamente com a gerência, com o conselho, mas algumas partes eu realmente faço até um certo nível de maturidade apenas para mim mesmo.

Você está há 12 anos na IWC. Qual considera seu maior feito nesse tempo?

Tem algumas crianças que são seu filho, mas também filho do vizinho. O Ceratanium é completamente meu. Porque eu realmente fiquei em frente ao forno para fazer todos esses experimentos, eu até inventei o nome. Dito isso, há outros projetos que eu realmente gostei de fazer, como Shock Absorber. Foi um projeto muito divertido para realmente empurrar esses limites. E também o Portugieser com o calendário eterno, foi realmente muito, muito legal.

Inovações são surpresa para os clientes

Qual foi sua contribuição para a nova coleção Portugieser deste ano?

Nessa coleção minha principal contribuição foi realmente o relógio de calendário eterno. Existem duas complicações que nasceram no meu grupo, no grupo de inovação, a parte do calendário perpétuo e a fase da lua. Foram projetos separados. Teoricamente, seria possível usar a fase da lua em um relógio apenas de fase da lua. Desenvolvemos os conceitos e então entregamos para o desenvolvimento e em um ponto foi decidido juntá-los.

A IWC é muito ligada à inovação, à tecnologia. Isso traz muita pressão para você e para o seu departamento?

Eu diria o contrário, isso abre muitas portas. Posso dar um exemplo. Antes de entrar na IWC, eu trabalhava na indústria de dispositivos médicos. Eu fazia pesquisa para implantes de joelho, implantes de quadril. E desenvolvi materiais muito legais. Quando apresentava para a gerência, vinha a primeira pergunta: é mais caro do que o existente? Nesses casos é muito raro que você consiga algo mais barato, é sempre algo como 5% ou 10% mais caro. A resposta era: ok, Lorenz, não estamos interessados. Então aqui na relojoaria é realmente um paraíso. Por termos uma longa história com ciência, sempre estamos interessados em novos materiais. Então posso olhar o que eu quiser, posso olhar para a indústria aeroespacial, para a indústria automotiva ou para a indústria de implantes e tentar colocá-lo de alguma forma na indústria relojoeira.

E do ponto de vista do cliente? Há uma expectativa de novidades a cada ano?

O bom é que os clientes não sabem o que eu faço, então eles não sabem o que podem esperar. Então tudo o que eu lanço, como o Ceratanium, o Shock Absorber, o calendário eterno, para um cliente é uma surpresa. Tudo o que fazemos é para trazer algum tipo de benefício. Para mim não é pressão.

O que você trouxe da sua formação em ciência e engenharia de materiais para a IWC?

Também fiz um doutorado em ciência dos materiais. Trabalhei cinco anos na indústria de dispositivos médicos, o que foi uma boa experiência, completamente diferente. Lá você também trabalha com materiais muito exigentes, mas aí estamos falamos de vida ou morte. No caso de relógios a única coisa com a qual você se preocupa é a alergia ao níquel do cliente ou algo assim. E as oportunidades são muito maiores. Nós fazemos funções de cronógrafo, funções de calendário, outros tipos de otimizações como vedação à água, lubrificação, magnetismo. Aqui trabalhamos com desejo, com objetos bonitos. Tenho três amigos que fizeram o doutorado ao mesmo tempo que eu em Zurique, nos encontramos regularmente. Eles trabalham para empresas enormes, mas que ninguém conhece essa empresa, ninguém sabe o que eles fazem. E eu trabalho para a IWC, nossos clientes vêm tirar fotos na frente do nosso prédio.

  • O jornalista viajou a convite da IWC
Acompanhe tudo sobre:IWC SchaffhausenRelógiosWatches & WondersSuíça

Mais de Casual

Guia Michelin: 21 restaurantes do Rio de Janeiro e de São Paulo ganham estrelas; confira

Com mais de mil modelos de sapatos, marca paranaense inaugura primeira loja em São Paulo

Dona da Fiat e Jeep, Stellantis vai investir R$ 14 bi em fábrica de MG com foco em motores híbridos

Com sandália de plástico, brasileira é finalista do Cartier Women's Initiative Awards

Mais na Exame