Tiger Woods retorna a Augusta para o Masters 25 anos após 1ª conquista

Torneio mais cobiçado do mundo do golfe começa nesta quinta-feira e é palco de novo retorno de um dos maiores golfistas da história
Tiger Woods com o cobiçado blazer verde e o troféu do Masters em sua última vitória no torneio, em 2019 (Reuters/Mike Segar)
Tiger Woods com o cobiçado blazer verde e o troféu do Masters em sua última vitória no torneio, em 2019 (Reuters/Mike Segar)
Por Da RedaçãoPublicado em 07/04/2022 11:59 | Última atualização em 07/04/2022 12:12Tempo de Leitura: 7 min de leitura

Depois de 508 dias longe de torneios oficiais, Tiger Woods está mais uma vez de volta. O golfista mais popular de todos os tempos, e um dos mais vitoriosos, não poderia ter escolhido um palco mais especial para o mundo do golfe, e para ele em particular, para o novo retorno: ele participa a partir desta quinta-feira, dia 7 de abril, do Masters, o primeiro Major da temporada -- os Majors são o equivalente para o golfe do que são os Grand Slams para o tênis. O torneio vai até domingo, dia 10.

O The Masters é disputado desde 1934 no mesmo palco, o Augusta National Golf Club, em Augusta, no estado americano da Geórgia. É considerado o torneio mais cobiçado pelos golfistas profissionais. Há exatos 25 anos, em 1997, Tiger Woods ganhou o seu primeiro Major justamente no Masters, com apenas 21 anos, tornando-se o mais jovem vencedor da história do torneio. Daí porque o seu retorno neste ano, aos 46 anos, depois de meses de recuperação do acidente de carro que sofreu em fevereiro de 2021, ganha contornos ainda mais especiais e emocionais.

Neste ano, Tiger não está entre os favoritos em razão justamente do tempo prolongado distante dos campos. Essa condição cabe ao espanhol Joe Rahm, número 2 do ranking mundial e vencedor do US Open -- outro Major -- em 2021. Também aparecem entre os mais cotados os americanos Dustin Johnson, campeão do Masters em 2020, e Justin Thomas.

Mas, apesar de não estar entre os favoritos, Tiger Woods não pode ser totalmente descartado. Ele ganhou o Masters outras quatro vezes depois de 1997 -- em 2001, 2002, 2005 e 2019 --, o que o torna o segundo maior vencedor do torneio na história, atrás apenas da lenda Jack Nicklaus, com seis conquistas.

E o último triunfo de Woods em Augusta se deu justamente há três anos também de certa forma inesperada, dado que ele havia ficado anos sem competir oficialmente na década de 2010 em razão de problemas pessoais e lesões. Naquele momento, porém, ele estava gradualmente reconquistando a confiança e a velha boa forma, diferentemente de agora.

No Masters, Woods contará certamente com a maior parte da torcida ao seu lado. É um lugar especial onde ele se sente em casa, a tal ponto que até o blazer verde que é símbolo dos vencedores em Augusta cai com naturalidade.

Poucos homens — e menos ainda mulheres — têm o direito de vestir a green jacket do Augusta National Golf Club, um dos mais famosos e fechados clubes de golfe do mundo.

A tradição do Augusta National e suas normas (escritas ou não) vão na contramão dos esforços do golfe para se reinventar e atrair mais praticantes, como recentes simplificações das regras. Ainda assim, a instituição e seu blazer verde seguem como alguns dos maiores símbolos do esporte mundial — e também uns dos mais misteriosos e desejados.

Há, basicamente, duas maneiras de você ganhar uma green jacket do Augusta. A primeira é ser campeão do Masters e receber a peça que o torna membro honorário do clube. A segunda é ser sócio de fato — e aí você terá seu blazer verde exclusivo sempre no armário, devidamente lavado e passado.

Duro é saber qual das duas maneiras é a mais difícil. Para ser campeão do Masters, é preciso primeiro ser convidado. Ao todo, são 19 categorias de jogadores que podem receber a honra. Os primeiros 50 melhores do ranking mundial e ex-campeões como Tiger Woods fazem parte desse seleto grupo. Além do blazer verde, o campeão ganha um cheque de 2,070 milhões de dólares, de um total de mais de 11 milhões de dólares em prêmios.

A cada ano, o Masters tem, em média, 12 milhões de telespectadores apenas nos Estados Unidos, o dobro de cada um dos outros três torneios do Grand Slam do golfe masculino. Em 1997, quando Tiger venceu seu primeiro Masters, foram testemunhas 20,3 milhões de telespectadores. Foi o recorde do golfe.

Os valores que o torneio movimenta são um mistério. Boa parte vem da venda de produtos licenciados, como bonés, cadeiras, camisas de golfe e bolas. Outro quinhão vem dos patrocinadores do evento, empresas como Rolex, AT&T e Delta Airlines. Estima-se (sim, pois o número não é divulgado) que cada marca invista por ano 6 milhões de dólares. Detalhe: durante o Masters, não há uma única placa de patrocinador no campo. E, durante a transmissão, realizada pela CBS desde 1956, os patrocinadores dividem apenas 4 minutos de comerciais por hora, o máximo permitido pelo Augusta.

Assistir ao Masters como espectador também é para poucos: só o Augusta National sabe a quantidade exata de “patronos”, como denomina o público, mas o número deve girar em torno de 40.000 por dia. Os “patronos” têm de seguir regras estritas: telefones celulares e bonés com a aba virada para trás, por exemplo, são proibidos nas dependências do clube. Se você desobedecer, sua credencial é apreendida e seu nome é marcado para nunca mais entrar no clube.

A partir da esquerda, Gary Player, Arnold Palmer e Jack Nicklaus, três dos maiores golfistas de todos os tempos e todos vencedores do Masters em suas carreiras

Os ingressos são vendidos todo ano para uma lista seleta de convidados e para fãs sorteados depois de se cadastrarem no site do evento, com mais de um ano de antecedência. Cada tíquete custa 115 dólares para cada um dos quatro dias de competição, valor extremamente baixo para um evento dessa magnitude. No mercado paralelo, o ingresso para a semana pode chegar a 10.000 dólares. Obviamente, os ingressos se esgotam com meses de antecedência.

É consenso no mundo do golfe e do marketing esportivo que o Augusta deixa muito dinheiro na mesa. Além dos poucos espaços publicitários na TV (e zero comunicação visual no campo) e do valor baixo dos ingressos, são famosos os (baixos) preços cobrados por alimentos e bebidas no campo. O sanduíche mais caro não sai por mais de 3 dólares, mesmo preço da cerveja — e o clube proíbe sócios e espectadores de dar gorjeta. O Augusta não parece mesmo se importar muito com valores.

Bill Gates, fundador da Microsoft, é um exemplo de quanto é difícil ingressar nesse exclusivo clube. Em meados da década de 90, o bilionário deixou escapar a conhecidos que queria se filiar ao clube. Levou uma canseira até 2002, quando finalmente recebeu um convite. Hoje, é dono de uma green jacket e já disputou por lá partidas com o megainvestidor Warren Buffett, outro sócio.

Especula-se que o Augusta tenha 300 sócios. Quem é convidado tem de pagar a taxa de entrada — um membro, falando em anonimato à revista americana Golf Digest, disse que o valor gira em torno de cinco dígitos. A anuidade não passa de 9.000 dólares. Além de Gates e Buffett, outros associados célebres foram Jack Welch, ex-CEO da GE, e Condoleezza Rice, ex-secretária de Estado dos Estados Unidos, primeira mulher a ser admitida como sócia, em 2012. Sem contar ex-campeões históricos, como o grupo intitulado Big Three, trinca formada por Gary Player, Jack Nicklaus e Arnold Palmer, este último morto em 2016.

O clube foi criado pelo advogado americano Bobby Jones, um dos maiores golfistas de todos os tempos, que morreu em 1971. Depois de se aposentar precocemente aos 28 anos, Jones queria um lugar tranquilo para jogar com os amigos longe da presença dos fãs. Em 1933, ele se aliou ao investidor americano Clifford Roberts e ao designer britânico Alister MacKenzie para construir o Augusta.

Os cuidados minuciosos com a manutenção fazem do campo um dos melhores do mundo. Todo ano, de maio a outubro, permanece fechado para reparo e descanso do gramado. Alguns de seus greens — área de grama mais aparada onde ficam o buraco em si (hole) e a bandeira — possuem sistema subterrâneo de aquecimento e resfriamento para melhorar a conservação da grama. Não é à toa que um terço dos golfistas americanos já afirmou que ficaria um ano sem fazer sexo em troca da chance de jogar no campo. Imagine o que eles não fariam por um blazer verde… 

(Com texto original de Henrique Fruet)