Malvasía Naturalmente Dulce 2019, de Victoria Torres Pecis, vinho doce da DO La Palma feito com videiras sem enxerto e numerado em uma tiragem de 650 garrafas (Reprodução/Instagram)
Jonalista colaborador
Publicado em 3 de novembro de 2026 às 06h40.
Em 19 de setembro de 2021, quando o vulcão Cumbre Vieja entrou em erupção na ilha de La Palma, nas Canárias, os produtores de vinho locais estavam no meio da colheita. A atividade durou 85 dias, até 13 de dezembro, e a lava avançou sobre casas, bananais e parte dos vinhedos da ilha. Entre as vinícolas que atravessaram o período está a de Victoria Torres Pecis, quinta geração de uma família que produz vinho em Fuencaliente, no extremo sul de La Palma, desde 1885.
A produtora é um dos nomes citados em uma reportagem publicada nesta quinta-feira (29) pelo Guardian sobre os chamados vinhos vulcânicos. A expressão reúne garrafas feitas com uvas cultivadas em solos de origem vulcânica, como cinza, basalto, pedra-pomes e tufo, e funciona mais como uma categoria geológica do que como um estilo definido. Um tinto de nerello mascalese do Etna, na Sicília, e um listán negro de Tenerife podem ter pouco em comum na taça, mesmo vindo de terrenos com a mesma origem.
Na encosta do Etna, o vulcão ativo mais alto da Europa, as videiras ocupam terraços sustentados por muros de pedra de lava, em altitudes que vão de cerca de 400 metros a mais de mil metros. A denominação Etna DOC é dividida em mais de 130 contrade, subzonas definidas em grande parte pela idade dos derrames de lava sob cada vinhedo, e o tinto local precisa levar no mínimo 80% de nerello mascalese.
Em Santorini, na Grécia, o terreno é formado por cinza, pedra-pomes, areia e lava, com quase nenhuma argila, herança da erupção que destruiu boa parte da ilha por volta de 1600 a.C. Esse solo barrou a filoxera, praga que devastou os vinhedos europeus no século 19, e por isso as videiras da ilha crescem sobre raízes próprias, sem enxerto. Para proteger os cachos do vento e do sol, os produtores enrolam os ramos em cestos rentes ao chão, técnica conhecida como kouloura, e as plantas dependem da umidade que a pedra-pomes absorve durante a noite, já que não há irrigação.
Nas Canárias, parte das vinhas cresce sobre camadas profundas de cinza negra. Em La Palma, há vinhedos acima da linha das nuvens, a 1.200 metros de altitude, e videiras antigas conduzidas baixas para resistir ao vento. Pouco antes da erupção de 2021, uma onda de calor em agosto havia destruído entre 80% e 90% das uvas malvasia da ilha, de acordo com o conselho regulador da denominação La Palma.
Las Machuqueras, o vinhedo mais conhecido de Victoria Torres, fica na encosta sul do vulcão San Antonio e pertence à família há cinco gerações. Ali crescem videiras de listán blanco sem enxerto, plantadas sobre picón, o cascalho vulcânico negro típico da região, com todo o trabalho feito à mão. A produtora assumiu a vinícola após a morte do pai, Juan Matías Torres, em 2014, e assinou sozinha a primeira safra no ano seguinte.
O rótulo Las Machuqueras vendido hoje no Reino Unido reúne vinhos das safras de 2016 a 2019, misturados em 2022 e engarrafados em 2024. A garrafa custa £ 55 (cerca de R$ 393) na importadora Modal Wines, cujo sócio, Nic Rizzi, disse ao Guardian que La Palma tem uma energia “majestosa e selvagem” e que o esforço exigido pelo cultivo na ilha aparece no vinho.