"Quantos como eu não chegaram lá ainda?": conheça o primeiro brasileiro negro formado em Harvard

O mineiro Arthur Abrantes se formou em Ciências da Computação e Psicologia na Universidade de Harvard com bolsa integral; veja sua história
 (Redes Sociais/Reprodução)
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Allan Gavioli

Publicado em 28/06/2022 às 10:00.

Última atualização em 28/06/2022 às 15:01.

A Universidade de Harvard, nos EUA, completa seus 386 anos no dia 8 de setembro deste ano. A instituição, considerada entre uma das melhores do país e do mundo, formou seu primeiro estudante negro há mais de 200 anos, em 1870.

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Após exatos 152 anos da formatura do advogado e diplomata Richard Theodore Greener, primeiro negro a receber um título de bacharel pela universidade americana, é a primeira vez que um brasileiro também chega lá.

O jovem mineiro Arthur Abrantes, de 25 anos, é o primeiro brasileiro negro a se formar em um curso de graduação de Harvard. O hoje engenheiro de software nos EUA se formou neste ano em Ciências da Computação e Psicologia pela faculdade americana.

Natural de Paracatú, interior de Minas Gerais, Arthur conta que estudar fora, principalmente fazer uma faculdade no exterior, não estava nos seus planos iniciais – muito menos ingressar e se formar em uma universidade tão disputada como Harvard.

Aluno de escola pública durante toda sua vida acadêmica, Arthur explica que o ponto de virada para sua vida estudantil foi exatamente quando foi aprovado para estudar no Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM).

Antes de entrar no instituto, o jovem não via muito interesse na educação como um todo e não se enxergava fazendo uma faculdade.

“Era uma rotina claramente mais puxada, com aulas integrais e o ensino médio junto com o técnico. Acordava antes da 5h30 da manhã”, relembra Arthur. “Foi um verdadeiro choque de intensidade. Não pensava nem em fazer faculdade quando estava no ensino fundamental, mas o contexto do IF [Instituto Federal] mudou minha perspectiva total.”

O caminho antes de Harvard

Comprometido com uma vida acadêmica em uma grande universidade, Arthur conta que tinha em sua cabeça o objetivo de passar na melhor faculdade do Brasil e manteve, junto aos estudos regulares no IF, uma série de atividades extracurriculares paralelas para que pudesse desenvolver outras habilidades e experiências – essas fundamentais para quem se aplica para faculdades nos EUA.

Durante seu último ano no Ensino Médio, o jovem conta que descobriu a possibilidade de que estudar em uma faculdade americana era sim uma realidade para qualquer brasileiro, já que existiam uma variedade de programas de bolsas de estudo.

“Descobri essa possibilidade quando vi que a Tabata Amaral passou em Harvard por meio de um programa que auxiliou ela com bolsas e preparação. Realmente vi que era possível. Fui atrás desse mesmo caminho”, conta.

Arthur seguiu os passos e foi aprovado no curso preparatório da Fundação Estudar, organização sem fins lucrativos criada pelo bilionário Jorge Paulo Lemann, para preparar alunos que desejam estudar em faculdades no exterior.

O programa oferece um apoio técnico para que o aluno se prepare para as dezenas de provas e processos que uma faculdade americana exige de seus candidatos.

Além disso, a Fundação também banca os custos relacionados as taxas de documentos, provas, exames e eventuais gastos com vistos. Nos últimos quatro anos, 27% dos brasileiros que foram aprovados nas faculdades dos EUA passaram pelo programa da Fundação Estudar.

Para além da Arthur, outros nomes famosos foram alunos do preparatório, como é o caso da deputada federal Tabata Amaral e dos jovens bilionários Pedro Franceschi e Henrique Dubugras, criadores da fintech Brex. Recentemente, a jovem Sofia Santos, de apenas 18 anos, foi aprovada em Yale, Harvard e Stanford após passar pelo programa.

Harvard como realidade

Foi após o final do ensino médio que Arthur finalmente finalizaria sua decisão de estudar em Harvard. Já curioso sobre a vida nos EUA e o processo de admissão nas faculdades de lá, Arthur se inscreveu em um programa de intercâmbio para estudantes da embaixada americana no Brasil.

“Era o incentivo que eu precisava”, conta Arthur sobre a experiência. “Solidificou o que realmente queria”. O estudante então tirou um ano inteiro, logo após sua formatura no terceiro ano do ensino médio, para se preparar para todos os processos das faculdades.

“Geralmente aplicam logo no terceiro ano, mas por conta da questão do inglês, de como foi meu curso técnico e da necessidade de preparo, decidi aplicar no ano seguinte”, explica. Para poder se aplicar, o aluno deve ser fluente em inglês, dada a complexidade das tarefas exigidas pela faculdade na hora da aplicação. Outro ponto é o teste de proficiência, exigido em basicamente todas as aplicações.

Após passar seu ano de 2015 inteiro se preparando para os processos, aprendendo inglês (de forma autodidata) e participando de trabalhos voluntários e atividades de ensino extracurricular, Arthur recebeu a notícia que queria: passou em Harvard e em mais uma dezena de faculdades dos EUA – contando Stanford.

Dupla graduação e intercâmbio na França

De prontidão, Arthur descreve sua primeira sensação ao visitar o campus de Harvard como mágica.

“É tudo tão intenso”. Arthur explica que não teve muito tempo de conhecer a faculdade e seus colegas antes do período letivo começar, já que perdeu as semanas de recepção. “Mas não deixou de ser mágico”, reforça.

Agraciado com uma bolsa de estudo integral, Arthur conta que viveu todos os seis anos em Harvard morando nos dormitórios da instituição. Além disso, contou com um auxílio financeiro mensal durante toda a graduação.

“Além dessa parte de estrutura, a experiência da vida na faculdade é excelente. O social é muito forte, então sempre temos atividades novas para fazer parte ou viagens para se candidatar, por exemplo”, conta Arthur, que conseguiu estudar um semestre em uma faculdade francesa graças a um intercâmbio oferecido por Harvard.

Por ser um amante da tecnologia, Arthur escolheu cursar Ciências da Computação e, hoje, trabalha na área: é engenheiro de software em uma startup americana de tecnologia. O jovem também é formado em psicologia e, embora as áreas não pareçam correlatas, faz todo sentido para os planos futuros de Arthur, que deseja empreender na área de tecnologia, seja nos EUA, seja em um possível retorno ao Brasil.

“Acho que estudar psicologia foi uma decisão ligada a minha vontade de saber lidar melhor com as pessoas, para empreender isso é quase que fundamental”, explica Arthur.

História, representatividade, privilégio e mudança

Arthur sabe que entrou para história da instituição e do Brasil, mas explica que precisamos olhar para Harvard, para a educação e para os EUA como um todo de um contexto mais histórico – e o mesmo pode ser feito com o Brasil. Para ele, ser o primeiro realmente representa algo importante, mas é apenas um primeiro pequeno passo.

“Precisamos lembrar que essas barreiras se tornam menor com o tempo. Só no meio do século passado permitiram as primeiras mulheres em Harvard. Os EUA viveram um período de segregação radical entre negros e brancos, mas vejo na faculdade em si um espaço e uma ferramenta para reparar essas questões”, analisa o jovem.

Arthur conta que, durante boa parte de sua graduação, viveu com pessoas de todos os lugares do mundo, com as mais diversas histórias de vida e os mais problemáticos passados – e como ele conta, essas conexões foram fundamentais seu amadurecimento e fizeram dele uma pessoa melhor.

“Sempre mantive isso na cabeça, tem gente de todo tipo lá. Diversidade. Foi um choque bem grande quando confrontei minha realidade de mundo com as outras pessoas. Gente de todo lugar do mundo, de todas as classes”, diz Arthur.

Arthur, um jovem negro de interior que vem de um ensino público sucateado e conseguiu se formar em uma das melhores faculdades do mundo, entende e abraça a importância que tem como próprio exemplo de representatividade para muitos jovens, mas acredita que há uma falha sistêmica no ensino brasileiro que impede que mais histórias como a dele virem realidade.

“Hoje, temos outros brasileiros negros na graduação, em Harvard, Stanford, em várias faculdades. E eles vão se formar em breve, mas e quantos brasileiros não chegaram lá ainda? As vezes eu lembro como era meu ensino fundamental, 45 alunos em uma sala quente sem cadeiras de qualidade, sem um ar-condicionado, é difícil. Obviamente é tudo um atraso. Sempre me pergunto: como que isso é o normal para a educação de um país?”, desabafa Arthur.

Embora termine a conversa dizendo que não pretende, pelo menos em um futuro próximo, voltar a estudar e que quer focar na sua carreira e empreender, Arthur mantém um projeto paralelo de incentivo a educação. E deseja que outros estudantes brasileiros possam viver o que ele viveu: fazer uma graduação em uma faculdade de ponta no exterior.

No Instagram, o jovem possui a página chamada Faculdade nos EUA, onde dá dicas para brasileiros que querem estudar no exterior, compartilha suas experiências como aluno de intercâmbio, além de diversas aulas específicas sobre as etapas do processo de aplicação para as faculdades americanas.

Mas, no geral, Arthur explica que o caminho para conseguir ser aprovado está localizado entre duas palavras: preparo e estudo.

“Se preparar para o processo é o começo. Hoje, dá para saber passo a passo de qualquer application na internet. Depois, lembrar que não será só uma prova, então estude bastante e se envolva em atividades fora da sala de aula, atividades que demonstrem realmente o seu interesse pessoal e quem você é”, finaliza Arthur.

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