Na AngloGold Ashanti, a transformação nasceu de uma estratégia para melhorar a qualidade de vida dos funcionários, reduzir o cansaço e aumentar a segurança em uma atividade que está entre as mais complexas da indústria (Anglogold Ashanti Latam/Divulgação)
Repórter
Publicado em 15 de outubro de 2026 às 10h42.
Última atualização em 15 de outubro de 2026 às 10h51.
Enquanto o Brasil se prepara para substituir a escala de trabalho 6x1 pela 5x2, uma das indústrias mais tradicionais do país decidiu ir além. Com 192 anos de história, a mineradora AngloGold Ashanti adotou a escala 4x3 para funcionários administrativos e um modelo de quatro dias de trabalho por quatro de descanso nas operações subterrâneas.
A mudança começou em 2024, antes mesmo da aprovação da proposta que prevê o fim da escala 6x1 no Congresso Nacional, nesta quarta-feira, 14. A nova regra nacional estabelece dois dias de descanso remunerado por semana e a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. O texto ainda depende de promulgação para entrar em vigor.
Na AngloGold Ashanti, a transformação nasceu de uma estratégia para melhorar a qualidade de vida dos funcionários, reduzir o cansaço e aumentar a segurança em uma atividade que está entre as mais complexas da indústria.
"Quando você pega uma empresa de mineração com 192 anos e pensa em uma escala 4x3 ou 4x4, isso é totalmente fora da caixa. Somos uma startup de 192 anos", afirma Luiz Otávio de Lima, CEO da AngloGold Ashanti Latam, em entrevista exclusiva ao podcast De Frente com CEO, da EXAME.
Na sede corporativa da companhia, em Nova Lima, Minas Gerais, os funcionários trabalham de segunda a quinta-feira desde 2024. O modelo garante três dias de descanso por semana.
Nas minas, onde a produção precisa funcionar em turnos contínuos, a empresa adotou outra alternativa: a escala 4x4. Nesse formato, os trabalhadores cumprem quatro dias de trabalho e têm quatro dias consecutivos de folga.
A mudança substituiu o antigo modelo de seis dias trabalhados para um de descanso nas operações.
A decisão para adotar a escala, segundo o CEO, foi tomada depois de pesquisas internas, projetos-piloto e conversas com os próprios funcionários. O objetivo era encontrar um modelo que permitisse conciliar a continuidade da produção com melhores condições de trabalho.
Os resultados, segundo Lima, começaram a aparecer principalmente nos indicadores de segurança.
"Os nossos indicadores de segurança melhoraram exponencialmente. Uma pessoa que está saudável, física e mentalmente, consegue entregar muito mais", afirma.
A companhia observou melhorias especialmente nos registros de acidentes de alta frequência e baixo impacto, como torções, prensamentos de dedos e ocorrências associadas ao cansaço e à falta de atenção.
A mudança também chegou à rotina do próprio executivo, que afirma ter conquistado mais flexibilidade para acompanhar a família e levar os filhos à escola.
Quando o recorte é financeiro, a adoção da jornada reduzida não impediu a mineradora de ampliar seus resultados. No primeiro semestre de 2026, a AngloGold Ashanti registrou crescimento de 44% na receita global, que alcançou US$ 6,34 bilhões.
No Brasil, a produção de ouro das operações Cuiabá, em Minas Gerais, avançou 10% no mesmo período, chegando a 139 mil onças. Embora parte do crescimento financeiro tenha sido impulsionada pela valorização internacional do ouro, os números mostram que a companhia conseguiu ampliar a produção enquanto mantinha modelos alternativos de jornada de trabalho.
A experiência da AngloGold Ashanti ganha relevância em um momento de transformação das relações de trabalho no Brasil.
O Senado aprovou, em dois turnos, nesta quarta-feira, 14, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1, modelo em que o funcionário trabalha seis dias e descansa apenas um.
Com a aprovação, o país caminha para adotar a escala 5x2 como regra geral, com dois dias de descanso remunerado e redução progressiva da jornada semanal.
Pelo texto, a carga horária deverá cair inicialmente de 44 para 42 horas semanais, dois meses após a promulgação. Depois de 14 meses, o limite será de 40 horas.
A proposta também prevê a possibilidade de regimes compensatórios mediante negociação coletiva, permitindo formatos alternativos de organização do trabalho.
Enquanto empresas de diferentes setores avaliam como reorganizar equipes, turnos e custos, a AngloGold Ashanti apresenta um exemplo de como uma indústria tradicional conseguiu implementar jornadas alternativas antes da mudança na legislação.
A história da AngloGold Ashanti no Brasil começou em 1834, ainda durante o Império, quando uma companhia inglesa iniciou atividades de mineração em Minas Gerais.
Ao longo de quase dois séculos, a empresa atravessou mudanças políticas, econômicas e tecnológicas, incluindo a Proclamação da República, duas guerras mundiais, períodos de hiperinflação e a pandemia.
"Estamos falando de uma história bicentenária, que passou por todas as transições da indústria que você imaginar", afirma Lima.
Hoje, a companhia mantém no Brasil operações subterrâneas nas minas Cuiabá e Lamego, em Minas Gerais. A operação brasileira também se diferencia dentro do grupo por reunir todas as etapas da produção, da pesquisa mineral ao refino das barras de ouro.
A modernização não ficou restrita à jornada de trabalho. Na mina Cuiabá, que chega a 1.600 metros de profundidade, a empresa utiliza equipamentos operados remotamente, inteligência artificial e sistemas de monitoramento em tempo real.
Mais de 400 roteadores garantem conectividade Wi-Fi no subsolo, permitindo acompanhar a localização dos trabalhadores e melhorar a resposta em situações de emergência.
"O nosso primeiro valor é a segurança. A tecnologia existe para tirar as pessoas das áreas de maior risco operacional", afirma o executivo.
Para Lima, a capacidade de uma empresa quase bicentenária continuar operando depende justamente da disposição para transformar processos e questionar modelos tradicionais.
A adoção de jornadas alternativas faz parte dessa estratégia. Em vez de associar produtividade exclusivamente ao número de dias trabalhados, a companhia passou a considerar também o impacto do descanso, da saúde e da segurança no desempenho das equipes.
A experiência não significa que o mesmo formato possa ser aplicado automaticamente a qualquer negócio. Mas, em um país que acaba de aprovar uma mudança histórica na jornada de trabalho, o exemplo de uma mineradora de 192 anos mostra que a discussão sobre produtividade pode ir além da quantidade de dias passados no trabalho.