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O interessante, o interessado e o interesseiro nas relações profissionais

As relações mais verdadeiras pressupõem equilíbrio entre o que se dá e o que se recebe, caso contrário o relacionamento se esvazia para ambas as partes

O networking é uma das habilidades mais valorizadas no trabalho (VioletaStoimenova/Getty Images)

O networking é uma das habilidades mais valorizadas no trabalho (VioletaStoimenova/Getty Images)

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Juliana Algodoal

Publicado em 11 de outubro de 2022, 17h30.

O networking é uma das habilidades mais valorizadas atualmente no mundo do trabalho. Na tecedura de uma rede de contatos profissionais, uma boa comunicação se traduz em fortalecer os elos tornando-os interessantes para todas as partes envolvidas.

Quando usamos o substantivo “interesse” e seus derivados, precisamos ter em mente que a palavra se presta a conceituações bem distintas entre si, algumas de teor mais positivo e outras menos desejáveis.

O bom networking é aquele que se baseia na pavimentação de vias de mão dupla. Eu ofereço algo para alguém que tem algo a me oferecer. Falamos aqui em troca. Seriam, então, relações de interesse? Sim, mas que se tornam interessantes para os dois lados e não para um só.

Tanto pessoas quanto situações se fazem interessantes no nosso convívio diário. São aquelas que nos atraem, que nos incitam a manter contato com elas porque nos agregam valores. São aquelas que nos mantêm interessados.

Esse outro adjetivo, interessado ou interessada, refere-se a uma atração genuína. A uma vontade natural e profundamente verdadeira de interação. O que desperta esse sentimento é o que vem da pessoa que nos atrai não apenas em relação ao que ela nos oferece em termos de conteúdo ou informação, mas também na medida do interesse que ela manifesta, de volta, por nós.

Considere, então, os relacionamentos no âmbito profissional. Imagine que você conheça em um evento uma pessoa cujo perfil corporativo lhe pareça atraente. Isso acaba por conectá-los nas redes sociais. Na sequência, passam a se comunicar. Porém, toda vez que conversam, essa pessoa acaba direcionando os diálogos para temas que só interessam a ela mesma, seja para pedir favores, exaltar seus próprios feitos ou obter algum tipo de vantagem na relação.

Você, assim, começa a desconfiar de que ela seja interesseira – e, aqui, surge mais um adjetivo pertencente à família do interesse. Só que, desta vez, a palavra em questão possui uma conotação negativa. O interesseiro é aquele que estabelece uma conexão pensando apenas no proveito próprio.

Conectar-se a ele não parece ser um bom negócio. No entanto, será que o networking com esse tipo de pessoa também não pode ter seus aspectos favoráveis? E outra: como identificar um interesseiro?

Em primeiro lugar, é preciso reforçar que as diferenças entre interessados e interesseiros são muitas vezes tênues, e os dois perfis podem se confundir nos casos em que os interlocutores não têm uma grande facilidade de se expressar.

Uma comunicação truncada e confusa pode dar a entender que alguém só quer beneficiar a si mesmo em uma relação, sendo que isso não necessariamente é verdade. Se um contato é mais seco no discurso e só desenvolve melhor conversas que efetivamente encaminhem transações comerciais, por exemplo, talvez falte a essa pessoa sensibilidade para entender que cultivar boas relações requer alguma dose de afeto, de amizade.

Ela faz parte daquela fórmula do tornar-se interessante para o outro permanecer interessado na interação. E, aqui, não se trata de lábia, puxa-saquismo ou representação vazia. Falo de um interesse afetuoso verdadeiro.

O interessado assim se qualifica ao perguntar para seu interlocutor como vai sua família. Ao lembrar-se de suas preferências ou de características importantes de sua personalidade – pode ser o time para o qual torce, um hobby, uma história que certa vez lhe contou. Esse tipo de atenção sinaliza para a outra pessoa que você se importa com ela e não apenas com o que ela tem a lhe oferecer.

Na contramão desse comportamento estão as atitudes do interesseiro. Uma delas é o de puxar a conversa sempre para temas que interessam apenas a ele, ou de só manter contato mesmo quando precisa de um favor – e deixar você no vazio quando o procura para solicitar alguma ajuda.

É possível quebrar esse mecanismo. “Convoque” o suposto interesseiro a agir também para beneficiar você quando tiver a oportunidade para tanto. Se essa pessoa vive pedindo para fazer pontes profissionais entre ela e executivos que você conhece, comece a lhe pedir favores semelhantes para testar sua disponibilidade. Se a esquiva passar a ser a resposta habitual dela, haverá um indício de interesse unidirecional.

É possível até que essa cobrança da contrapartida, ainda que feita de forma sutil, acabe por afastar o interesseiro. Tudo, porém, precisa ser analisado a partir de um contexto. De maneira alguma sugiro aqui que essas análises e avaliações se deem na base do “olho por olho, dente por dente” ou como se fossem ativos e passivos de um balanço contábil.

Essas percepções envolvem também bom senso, pitadas de intuição e a energia que o outro lhe transmite. É preciso sentir tudo isso a médio e longo prazos, que são o tempo de sedimentação das relações sustentáveis, duradouras e interessantes.

As relações mais verdadeiras pressupõem equilíbrio entre o que se dá e o que se recebe. Quem apenas cede sem pedir nada de volta acaba também se tornando desinteressante, porque o sentido desse relacionamento como um todo se esvazia para ambas as partes.

Para fechar a reflexão, quero contar que mantenho contato frequente com um executivo que considero em certa medida interesseiro, pois, durante nossas conversas, fala muito mais de si mesmo e de seus interesses do que abre espaço para os meus.

Por que, então, mantenho essa relação desigual? Simples: o executivo em questão, apesar de egocêntrico e autocentrado, é muito inteligente, tem ótimas sacadas e me agrega conhecimento como poucas pessoas. Em suma, ele é interessante para mim. Esse exemplo mostra que as trilhas do interesseiro, do interessante e do interessado também podem se cruzar. O destino que se dá a cada uma delas, bem como a suas utilidades, depende, no final das contas, de cada um de nós.

*Juliana Algodoal é PhD em Análise do Discurso em Situação de Trabalho – Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem e fundadora da empresa Linguagem Direta

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