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ESG: produzir aço carbono neutro é totalmente viável, diz líder da Aperam

Entrevista esclarece vários pontos da importância do investimento em formas mais sustentáveis
Aperam se tornou a primeira do mundo no segmento a neutralizar emissões (Aperam South America/Reprodução)
Aperam se tornou a primeira do mundo no segmento a neutralizar emissões (Aperam South America/Reprodução)
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Bússola

Publicado em 27/06/2022 às 16:53.

Última atualização em 28/06/2022 às 15:13.

Em entrevista à Bússola, Frederico Ayres Lima, diretor-presidente da Aperam South America, comentou sobre a jornada da empresa em busca de neutralizar suas emissões de gases de efeito estufa. A empresa anunciou recentemente que se tornou a primeira do mundo no segmento de aços planos especiais a alcançar esse marco, em estratégia que alia captura de carbono da atmosfera com redução de emissões.

Bússola: A siderurgia é conhecida como uma das principais emissoras globais de CO2. Como vocês decidiram assumir o desafio de neutralizar as emissões da Aperam?

Frederico Ayres Lima: A produção de aço por definição gera gases de efeito estufa. O processo começa com o alto forno, que gera CO2 como um coproduto do processo químico. No Brasil, nós temos uma Jabuticaba, sendo a produção de aço através de carvão vegetal. O grande diferencial dessa rota é que o carbono que eu coloco para transformar o minério de ferro em aço ele vem do ar, capturado pelas florestas plantadas de eucalipto.

O nosso processo de atingir a neutralidade nos escopos 1 e 2 começou em 2011, quando migraram os altos-fornos da empresa para carvão vegetal. Anteriormente, utilizava-se o coque, sendo de origem mineral e não renovável. Esse foi o primeiro passo. Ao longo dos anos, fomos trabalhando com a redução das emissões e coroamos com uma análise auditada que demonstrou que nos anos de 2020 e 2021 as remoções e estoques das florestas se equipararam com o volume gerado de CO2. Ou seja, os nossos produtos não contribuíram para as mudanças climáticas, porque tudo que foi emitido ao longo do processo foi capturado.

Na época, em 2011, a decisão já considerava a redução das emissões, uma decisão que naquele momento era pouco considerada pelo mercado.

O atingimento da meta 30 anos antes do prazo não é um sinal de subdimensionamento da própria meta?

Nós não tínhamos uma metodologia clara e aceita de remoção. Esse é um primeiro ponto. O segundo é que o Brasil vive uma realidade diferente do restante do grupo, sendo a possibilidade do carvão vegetal. Além disso, a matriz energética é mais favorável. Isso não é realidade nos outros países, o que nos dá uma responsabilidade adicional de buscar ser negativo e contribuir com a neutralidade do grupo.

O uso de carvão vegetal é a principal alavanca de neutralização utilizada por vocês, certo? Como vocês lidam com os impactos decorrentes da plantação de florestas exóticas aos biomas locais, como no caso do eucalipto?

A geração de GEE é um dos indicadores que a gente controla, mas temos vários outros. Na parte social, a empresa sabe de sua responsabilidade e temos um instituto com o qual trabalhamos junto às comunidades. As regiões em que atuamos tem IDH baixo e é muito claro como nossa atuação com geração de empregos de qualidade e benefícios contribuem com a melhora de índices da região.

Na frente de impactos ambientais, temos as certificações de manejo sustentável, como a FSC. Ela mede, controla e proíbe o uso de transgênicos e agrotóxicos. Temos todo um manejo sustentável, um percentual de reservas superior ao exigido, adotamos os mosaicos com faixas contínuas de vegetação nativa, entre outras ações. Outro exemplo que posso dar é que não usamos mais irrigação. Fizemos um estudo para plantar somente no período de chuva — algo que parece simples, mas tem uma complexidade de gestão de equipes e tarefas do time ao longo do ano.

Vemos que foi um esforço grande em compensação das emissões e captura de carbono. E quais foram as ações de redução das emissões diretas?

Nesse campo, nós trabalhamos a eficiência. Toda vez que eu consigo produzir a mesma tonelada de aço com menos energia, nós vamos reduzir as emissões. Isso acontece ao utilizar energia renovável, algo que hoje fazemos em 100% dos nossos novos contratos de energia. As nossas metas de redução em relação a 2015 eram de 30% até 2030 — isso sem qualquer remoção. Nisso temos coisas como melhorias de eficiência dos fornos, motores e iluminação, contratos de energia renovável, cogeração de energia, aproveitamento de combustíveis oriundo de sobras de outros processos e queimadores de gases.

Em que medida a estratégia utilizada pela Aperam é replicável para outras indústrias do setor?

Não tenho dúvidas. Penso que pode ser aproveitado e reutilizado em qualquer uma. O que  precisamos é que quando vamos ao supermercado e a pessoa queira saber o quanto gerou de CO2 até chegar ao consumidor. Quando isso acontecer, você vai empurrar o setor todo.

Vocês percebem algum tipo de reconhecimento de clientes com relação ao fato de produzirem aço carbono neutro?

Acredito que percebem muito menos do que deveriam. O Brasil tem desafios relativos a atender necessidades básicas, então o grande público ainda não tem a consciência e engajamento para empurrar esse processo. Eu tenho receio de que depois eu vá competir com um produtor com uma base muito mais poluente e que na hora de decidir o consumidor vá escolher a mais barata.

Esse é um desafio que temos neste momento em conjunto com nossos clientes: como transformar isso tudo em valor para o consumidor final. E o Brasil tem oportunidade de liderar essa agenda na siderurgia global, pelos recursos naturais e matriz energética. Temos chance de estabelecer uma vantagem competitiva e liderar a conversa sobre o aço verde.

E por parte de outros stakeholders, como setor financeiro?

Sim. Conseguimos acessar crédito com taxas melhores e linhas de financiamento que são exclusivas a empresas com determinados padrões de práticas ESG. Isso é uma verdade em nossas finanças, centralizadas na sede global da empresa.

Como os esforços de neutralização de CO2 se relacionam com a estratégia mais ampla de sustentabilidade da empresa?

Dentro do nosso roadmap  tem metas de redução do CO2, de emissão de particulados, de uso de água e de energia. Em social, temos a Fundação Aperam, que eu sou presidente do conselho. Ela é muito ligada à geração de renda e educação. Outro trabalho que vem sendo executado é a inclusão, que começamos com a questão de gênero, mas que estamos abrindo para outras dimensões. É um negócio que começou “top down”, em uma decisão nossa de tornar a empresa mais diversa, mas que debaixo para cima veio quase que um tsunami com um número enorme de pessoas se voluntariando para trabalhar e contribuir. E em governança, é uma empresa com capital aberto em bolsas europeias, o que nos impõe os padrões de compliance e governança mais rígidos existentes.

Como os stakeholders locais da Aperam podem se informar sobre o desenvolvimento da estratégia de sustentabilidade da empresa?

Temos um relatório de sustentabilidade publicado anualmente. Há alguns anos, fazemos o relatório global e nos países com footprint importante tem uma página do país. No Brasil, distribuímos o relatório com um capítulo sobre o Brasil. E sempre que sai o relatório, nos esforçamos de comunicação com os públicos de relacionamento.

Você acredita que esses públicos de interesse reconhecem as ações da empresa? Existe engajamento no sentido de desenvolver processos de geração de valor compartilhado?

Cada stakeholder valoriza em um grau diferente. Vejo que nossos colaboradores valorizam muito, compartilham nas redes sociais. O mesmo vale para investidores. As comunidades têm outras formas de conhecer o que a empresa faz, como as visitas às unidades.

Temos diálogos positivos com os stakeholders mais estratégicos. Com governos, construímos um relacionamento aberto e de colaboração. Na Fundação, temos o edital de projetos pelo qual as ONGs se candidatam a receber os recursos, distribuídos de acordo com critérios pré-estabelecidos com objetivo de gerar o melhor impacto possível. Esse é um trabalho que nós fazemos em parceria com a comunidade e que de alguma forma volta, na forma de uma relação mais saudável com nossa empresa.

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