40% dos brasileiros acham que suas atitudes não impactam os mares 

Pesquisa “Oceano sem Mistérios: A relação dos brasileiros com o mar", da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza em parceria com a UNESCO e a Unifesp, entende hábitos da população e que mostrar como todos estão envolvidos com os mares
 (Mike Hill/Getty Images)
(Mike Hill/Getty Images)
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Marina FilippePublicado em 28/06/2022 às 06:00.

*De Lisboa, Portugal.

Na semana em que ocorre a Conferência dos Oceanos, promovida da Organização das Nações Unidas, a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza em parceria com a UNESCO e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulga os resultados da pesquisa “Oceano sem Mistérios: A relação dos brasileiros com o mar”, na qual apenas 34% das pessoas compreendem que suas ações influenciam diretamente no oceano, 24% consideram que impactam de forma indireta e 40% acreditam que suas atitudes não impactam em nada os mares.

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Por outro lado, o estudo revelou que metade dos entrevistados reconhece que o oceano impacta sua vida diretamente e 21% acreditam que gera impactos indiretos, enquanto 26% avaliam que não impacta em nada em suas vidas. Foram entrevistadas 2 mil pessoas, homens e mulheres entre 18 e 64 anos, de todas as classes sociais, nas cinco regiões do país.

“A pesquisa nos permite compreender como a sociedade entende a influência do oceano no seu cotidiano, e, por outro lado, os impactos que suas atividades provocam nos ambientes costeiros e marinhos. De forma pioneira, buscamos identificar comportamentos existentes na população de um país continental e perceber como as pessoas estão dispostas a adotar novos hábitos e comportamentos em favor dos ambientes marinhos”, diz Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário.

Segundo a executiva, conhecer melhor essa realidade é fundamental para desenvolver políticas públicas e estratégias de comunicação e engajamento mais eficientes para sensibilizar a sociedade e promover mudanças.

Hábitos e comportamentos

Ao detalhar hábitos e comportamentos praticados pelo brasileiro no dia a dia, a pesquisa mostrou a população dividida em relação a algumas práticas sustentáveis. O porcentual de pessoas que priorizam com frequência compras com menor impacto na natureza e no oceano, como produtos com menos embalagens e sem poluentes, foi de 48%. Para 22% dos entrevistados, a prática ocorre somente às vezes, e 11% raramente. O porcentual de pessoas que nunca se preocupam com essa questão foi de 18%.

Outro aspecto investigado foi o uso de plásticos de única utilização. Apenas 35% dos brasileiros afirmam sempre evitar o uso de canudinhos e copos plásticos descartáveis, enquanto 12% evitam a maioria das vezes e 20% somente às vezes. O consumo nunca é evitado por 19% dos entrevistados e raramente por 13% dos entrevistados.

“Cerca de 80% da poluição encontrada no mar vêm do continente. Se fizermos projeções a partir dos dados encontrados, chegamos a resultados preocupantes”, salienta Malu Nunes.

Considerando que cerca de 68 milhões de brasileiros (32%) não evitam o uso de copos plásticos e cada uma dessas pessoas faça uso de três unidades de 200 ml por semana, chega-se a mais de 10,6 bilhões de unidades por ano.

Cada copo pesa em média 1,8 g, o que significa 19,1 mil toneladas de copos plásticos que o brasileiro usa anualmente. “Só de copo plástico. Quanto disso é reciclado? Quanto chega ao oceano? Muito desse lixo produzimos quando estamos fora de casa. Levar junto um copo reutilizável já é um avanço”, diz Malu.

Entre as atividades que ameaçam a saúde do oceano, 72% dos entrevistados identificam a poluição, seja por lixo ou esgoto, como o maior problema, seguidas por pesca irregular (16%) e vazamentos de navios (12%).

Oceano no dia a dia das pessoas

“O oceano começa na nossa casa, mesmo que estejamos a muitos quilômetros de distância do mar. Como boa parte das pessoas tem pouco contato direto com os ambientes marinhos, esta percepção precisa ser estimulada. Os mares geram alimentos, energia, minerais, fármacos e milhões de empregos ao redor do mundo em diferentes atividades econômicas", diz  Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), copresidente do Grupo Assessor de Comunicação para a Década do Oceano da Unesco e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).

O professor explica que o oceano abriga a maior biodiversidade do planeta e também é fundamental para a regulação do clima, pois absorve mais de 30% das emissões de dióxido de carbono (CO2) e 90% do excesso de calor gerado pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa

“O oceano contribui diretamente com cerca de US$ 1,5 trilhão para a economia mundial, sendo que apenas o setor de alimentos gera em torno de 237 milhões de empregos no mundo”, afirma.

Transformação

A pesquisa ouviu a opinião da população em relação à atuação do Brasil para a conservação do oceano. Para 41%, a atuação brasileira é negativa, enquanto 31% consideram a atuação neutra – nem positiva, nem negativa –, e 28% avaliam de forma positiva.

A pesquisa trouxe resultados representativos para uma mudança de cenário. Em uma escala de 0 a 10, a intenção de mudar hábitos pelo bem do oceano atinge a média de 8,3. Notas entre 7 e 10 concentram 82,2% dos respondentes.

Para 57% das pessoas, a melhor forma de atuar em favor da conservação do oceano é pela comunicação, se engajando como apoiador e/ou agente de divulgação. Outros 25% estão dispostos a colocar a mão na massa pela mudança.

"Esse resultado destaca o desafio de desenvolver uma cultura oceânica que engaje e demonstre como isso pode ser feito, reforçando como este ambiente influencia e é influenciado pelas ações da sociedade. Tudo e todos estão interligados em busca de um oceano limpo, saudável, sustentável e resiliente”, afirma Fábio Eon, coordenador de Ciências da UNESCO Brasil.

Década do Oceano

A ONU declarou o período de 2021 a 2030 como a Década do Oceano, que tem como um dos principais objetivos, justamente, incentivar a geração de conhecimento para a sociedade. A pesquisa aponta, porém, que apenas 0,3% dos brasileiros já estão informados sobre a década, enquanto 6% apenas ouviram falar sobre o assunto e 93% ainda não conhecem nada sobre o tema, o que demonstra a importância da comunicação para que possamos mudar esta realidade.

“O estado de conservação do oceano é bastante preocupante. Uma avaliação global da ONU mostrou que precisamos de ações urgentes para reverter o quadro de degradação e ameaça à biodiversidade e aos ecossistemas”, alerta Eon.

Sobre a pesquisa

Foram realizadas 2 mil entrevistas, com pessoas entre 18 e 64 anos, de ambos os gêneros e todas as classes sociais, nas cinco regiões do país. As entrevistas realizadas pela Zoom Inteligência em Pesquisas ocorreram entre os dias 5 de março e 12 de abril de 2022. Entre os entrevistados, 62% residem em capitais e 41% vivem em cidades litorâneas. A margem de erro é de 2,2% para um nível de confiança de 95%.