Apesar de riscos, quadro de Bolsonaro deve evoluir bem, dizem médicos

Idade e histórico de cirurgias preocupam, mas ausência de doenças de base conta a favor do presidente; tratamento com cloroquina é criticado

Os próximos dias serão decisivos para o quadro clínico do presidente Jair Bolsonaro, que disse nesta terça-feira ter sido infectado com covid-19. O período inicial da doença é considerado crucial para determinar a gravidade de um caso. Bolsonaro, de 65 anos e com histórico de cirurgias, é considerado parte do grupo de risco. Mas médicos ouvidos pelo O Globo dizem que a ausência de comorbidades e de doenças de base conta a favor para uma evolução sem complicações.

"O período de maior intensidade da inflamação provocada pela doença gira em torno de oito a 12 dias. É a janela de maior expectativa, de maior risco, e também quando se espera que o paciente passe bem e respire aliviado. A complicação mais grave é a pneumonia, que pode ser moderada ou crítica, exigindo admissão em UTI e até entubação. Cerca de 5% dos pacientes vão experimentar essa condição", explica o médico intensivista Ederlon Rezende.

Segundo o especialista, determinar qual será a evolução de Bolsonaro, assim como de pacientes no geral, é "absolutamente imprevisível." Essa é uma das maiores lições da pandemia, e que também mais angustia os médicos, afirma. É fato, porém, que pessoas do chamado grupo de risco devem ter mais cautela. A idade do presidente, 65 anos, exige atenção.

"Apesar de o presidente ser saudável, não é mais nenhum jovem. E o histórico de cirurgias também preocupa", destaca Rezende, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib). "Além disso, homens têm risco maior do que as mulheres, entre outras coisas, porque a expressão dos receptores de uma enzima de conversão chamada angiotensina é maior neles. Essa enzima é a porta de entrada do vírus dentro da célula."

A favor da recuperação do presidente contam um perfil estável de saúde e a ausência de doenças associadas que poderiam agravar um quadro de coronavírus, destaca a pneumologista Margareth Dalcolmo.

"Embora pertença a um grupo de pacientes que deva ser olhado com atenção, pela idade e pelas intervenções cirúrgicas anteriores, o presidente não é fumante, não é diabético, nem tem doenças de imunidade celular que poderiam colocá-lo em mais risco. Isso aumenta as chances para que evolua bem, em uma forma leve a moderada da doença, sem necessidade de ser hospitalizado", afirma a médica e pesquisadora da Fiocruz.

Ela reforça que os próximos dias serão importantes para determinar o quadro de Bolsonaro:

"Essa é uma doença bifásica. Um paciente tem de vencer os primeiros dias da grande replicação viral, que vai até o final da primeira semana de evolução. Depois a doença entra numa fase mais inflamatória, que preocupa. Não havendo complicações a partir do décimo dia a tendência é de maior chance de se sair muito bem."

Cloroquina

Mesmo antes do diagnóstico positivo, Bolsonaro afirmou que estava tomando cloroquina. O tratamento é visto com reserva por vários especialistas, e foi desaconselhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

"É uma decisão pessoal dele, e dos colegas que o acompanham. Mas as melhores recomendações internacionais e das sociedades médicas brasileiras não indicam hidroxicloroquina nem cloroquina para tratar nenhuma forma da covid-19", diz Margareth. "[Bolsonaro] é um paciente que tem todas as condições de ser acompanhado da melhor forma possível e evoluir bem. E melhorando, que é o esperado, provavelmente não terá nenhuma relação com a cloroquina."

O presidente começou a tomar o remédio antes mesmo do diagnóstico positivo, escolha também discutida por médicos.

"Não há evidências científicas que suportem esse uso", diz o médico intensivista Ederlon Rezende. "Quem usa a droga acredita que ela traga benefícios uma vez feito o diagnóstico. O uso profilático, de quem ainda não tem o diagnóstico, faz menos sentido ainda."

Segundo os especialistas, para a recuperação de Bolsonaro será importante que ele siga as recomendações médicas de repouso. Alguns pacientes descrevem cansaço intenso e dores pelo corpo.

"Além de ter tudo para melhorar rápido e negativar o exame nas próximas duas semanas, é esperado que Bolsonaro cumpra o isolamento mandatório de, no mínimo, 14 dias, até que saia um novo teste negativo no exame PCR de controle. É o padrão", explica Margareth.

O modo como anunciou o diagnóstico positivo acendeu um alerta sobre os próximos atos do presidente. Após confirmar a notícia a um grupo de jornalistas, Bolsonaro levantou a máscara para mostrar que estava bem.

"A máscara é altamente contaminante. Principalmente no caso de alguém que sabemos que tem covid. Pegar na máscara, e depois passar essa mesma mão em outro lugar, pode ser um foco de transmissão", afirma Rezende.

Para o médico, tirar a máscara e tocar nela, além de risco, é mau exemplo:

"Esperamos que o presidente fique bem, mas não precisa tirar a máscara para mostrar isso. Que fique bem, de máscara e isolado, para não contaminar outras pessoas."

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