Lula: presidente do Brasil enfrenta Flávio Bolsonaro nas Eleições de 2026 ( Ricardo Stuckert / PR/Flickr/Divulgação)
Repórter
Publicado em 2 de julho de 2026 às 18h00.
Última atualização em 2 de julho de 2026 às 18h02.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou que a família Bolsonaro atua com entreguismo e que pretende “submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”.
A declaração foi publicada nas redes sociais após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviar ao governo dos Estados Unidos um documento com críticas à proposta de sobretaxa sobre produtos brasileiros.
O material foi encaminhado ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), órgão responsável por investigações comerciais contra o Brasil, e reúne 86 páginas com argumentos contrários à adoção das tarifas. O documento sustenta que a medida pode produzir efeitos políticos inesperados no cenário brasileiro.
A avaliação apresentada pelo senador afirma que a sobretaxa “daria a Lula "exatamente a vitória política que ele vem buscando"”.“Separadamente, e como uma questão de momento, e não de quem se beneficia: o Brasil realizará eleições gerais em outubro de 2026, e o cenário político que determinará a viabilidade de qualquer solução negociada será redefinido dentro de aproximadamente noventa dias. Adotar uma medida irreversível agora — no momento de maior impacto de mobilização política — representa um mau uso do timing para qualquer instrumento de pressão, independentemente de qual partido isso favoreça. Preservar as opções disponíveis é a escolha estratégica superior”, afirma Flavio Bolsonaro em documento aos EUA.
Ao rebater o conteúdo, Lula disse que não há justificativa para a aplicação de tarifas sobre produtos brasileiros e defendeu relações diplomáticas baseadas em reciprocidade. “Nós sempre vamos dialogar de igual pra igual com qualquer nação do mundo. Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois.”
"É inaceitável que a família Bolsonaro, com o seu entreguismo, queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos, como fica claro no documento enviado hoje por um de seus integrantes ao governo norte-americano.
Nós sempre vamos dialogar de igual pra igual com qualquer nação do mundo.
Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois.
O mais absurdo é saber que a origem disso tudo foi motivada pela própria família Bolsonaro que defendeu publicamente o aumento de tarifas contra os produtos brasileiros.
Defender o fim do Mercosul, o bloco econômico mais importante da América Latina e que acaba de firmar um acordo histórico com a União Europeia, é outro ataque ao interesse do povo brasileiro.
Como se não bastasse, querem entregar o Pix a interesses estrangeiros. Não vão conseguir. O Pix é uma conquista do Brasil e não vamos abrir mão dele.
Nossa Pátria não está à venda. Nossa soberania é inegociável. O Brasil é dos brasileiros".
O senador Flávio Bolsonaro encaminhou nesta quinta-feira, 2, ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) um documento em que solicita o adiamento, por 180 dias, da entrada em vigor de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Na prática, o parlamentar propõe que a cobrança adicional de 25% seja postergada para depois da eleição presidencial no Brasil.
A manifestação tem 86 páginas e sustenta que as medidas tarifárias adotadas anteriormente pelos Estados Unidos não produziram os resultados esperados nem alteraram a atuação das autoridades brasileiras.
Segundo Flávio, as iniciativas do governo Trump na área comercial tiveram efeito oposto ao pretendido. De acordo com o senador, as tarifas contribuíram para fortalecer politicamente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um período eleitoral, ao permitir que o Palácio do Planalto apresentasse as medidas como uma afronta à soberania nacional.
"Pesquisas de opinião pública brasileiras mostram que a posição eleitoral do atual governo se fortaleceu precisamente durante os períodos em que a pressão tarifária dos EUA foi mais evidente", afirma um trecho do documento de Flávio.
E acrescenta: "As tarifas propostas recompensariam o atual governo brasileiro pela própria estratégia que tem adotado: obstruir negociações sérias, provocar retaliações e, em seguida, converter essa retaliação em uma vitória política interna. Pior ainda, os custos recairiam sobre a economia americana e sobre os brasileiros mais comprometidos com o relacionamento construtivo com os EUA".
O presidente Lula tem relacionado as ameaças tarifárias dos Estados Unidos à atuação da família Bolsonaro, especialmente do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, junto a autoridades norte-americanas. O petista também classificou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro como "traidores da pátria".
No ano passado, após o governo Trump anunciar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, Eduardo Bolsonaro agradeceu publicamente ao presidente norte-americano pela decisão.Encontro entre Flavio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca, no último mês. (Reprodução)
No documento enviado ao USTR, Flávio Bolsonaro se identifica como pré-candidato do PL à Presidência da República e cita encontros recentes com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e com o secretário de Estado, Marco Rubio, para discutir a política tarifária.
Na manifestação, o senador também faz referência à investigação da "Seção 301" da Lei de Comércio de 1974, que analisa práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital (PIX), tarifas, corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento.
A partir dessa investigação, o USTR apresentou uma proposta para aplicar novas tarifas sobre produtos brasileiros nas próximas semanas.
Também nesta quarta-feira, o governo brasileiro encaminhou sua resposta oficial ao processo conduzido pelos Estados Unidos.
No documento, assinado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o governo afirma que o USTR não apresentou comprovação de que políticas ou práticas adotadas pelo Brasil sejam discriminatórias ou criem barreiras ao comércio norte-americano.
Na avaliação de Flávio Bolsonaro, o impasse comercial entre os dois países poderia ser resolvido com a suspensão das tarifas por 180 dias, prazo que poderia ser prorrogado por mais 90 dias caso houvesse avanço nas negociações. A proposta prevê o restabelecimento automático das medidas caso o governo brasileiro não participe das tratativas de boa-fé.
"O governo atual teria esse período para se engajar em negociações de boa-fé, sem a perspectiva de dividendos eleitorais, ou enfrentaria as consequências da retomada dessas ações. Esse mesmo período daria à oposição no Congresso o tempo e a legitimidade para pressionar o governo atual a intensificar seus próprios esforços de negociação de boa-fé", afirma Flávio.
O senador acrescenta que "No caso de uma vitória da oposição, o presidente eleito nomearia imediatamente um negociador para conduzir as negociações adiante, também de boa-fé".
Enquanto isso, o governo federal mantém um grupo de trabalho formado por políticos, economistas e diplomatas para negociar as tarifas com representantes dos Estados Unidos.
Segundo o texto, esse grupo já participou de quatro rodadas de negociações com autoridades norte-americanas. A mais recente ocorreu nesta quinta-feira, 2.
Ao defender o adiamento das novas tarifas, Flávio Bolsonaro também apresenta outros argumentos. Entre eles, afirma que as medidas trariam prejuízos para a economia dos Estados Unidos, destacando que o país registra superávit comercial na relação com o Brasil, que empresas norte-americanas figuram entre os principais investidores estrangeiros no mercado brasileiro e que eventuais retaliações poderiam afetar exportadores e consumidores dos EUA.
O senador também sustenta que existem alternativas às tarifas generalizadas. Entre as opções mencionadas estão sanções financeiras e restrições de visto com base na Lei Magnitsky, voltadas a pessoas específicas envolvidas nas práticas questionadas pelos Estados Unidos, sem impacto direto sobre a população ou o setor produtivo brasileiro. Segundo Flávio, a maior parte da sociedade e do setor produtivo do Brasil não apoia a postura adotada pelo governo Lula na relação com os Estados Unidos.
Por fim, o parlamentar afirma reconhecer que existem preocupações legítimas por parte dos Estados Unidos em alguns temas, mas considera inadequada a adoção de tarifas "cegas" como instrumento para solucionar essas questões.