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Tarifa dos EUA sobre café solúvel deve cair em março, diz setor brasileiro

Segundo Cecafé, as taxas — implementadas em julho de 2025 — provocaram um impacto de cerca de US$ 250 milhões no setor no ano passado

Café nos EUA: A média do preço de varejo para o café moído atingiu US$ 8,41 por libra (R$ 45,50) (Freepik)

Café nos EUA: A média do preço de varejo para o café moído atingiu US$ 8,41 por libra (R$ 45,50) (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 06h01.

A indústria brasileira de café estima que as tarifas de 50% impostas pelo governo dos Estados Unidos sobre o café solúvel brasileiro devem ser suspensas em março de 2026. A expectativa gira em torno do encontro entre os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e dos EUA, Donald Trump, além de uma série de ações articuladas pelo setor cafeeiro nacional.

Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), as tarifas — implementadas em julho de 2025 — provocaram um impacto de cerca de US$ 250 milhões no setor.

Embora o governo norte-americano tenha retirado a taxação sobre alguns produtos brasileiros em novembro do ano passado, o café solúvel permaneceu na lista tarifada.

“A ida do presidente Lula aos Estados Unidos em março é uma oportunidade de criar um fato político, de colocar o problema na pauta e de garantir que ele não seja esquecido. A viagem de março muda o jogo. Nossa expectativa é que essas ações, com o trabalho dos negociadores, ajudem na reversão da tarifa”, afirma Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé.

Como parte da estratégia de visibilidade, o Brasil vai participar do evento da National Coffee Association (NCA), entidade que representa os importadores de café dos EUA, e que ocorre em março e reúne representantes da indústria cafeeira dos Estados Unidos.

“O desafio é conseguir que o tema seja discutido e vire uma ordem oficial, algo mais burocrático do que técnico, até porque os Estados Unidos não têm indústria nesse segmento e não conseguiriam desenvolver uma da noite para o dia. Além disso, há uma competitividade e uma parceria muito fortes conosco — eles querem o nosso café solúvel”, afirma Matos.

Desde a imposição das tarifas, o setor brasileiro vem atuando junto à NCA. O presidente da entidade, Bill Murray, esteve recentemente em Washington para reforçar a pressão junto aos importadores americanos, que também têm interesse em derrubar a taxa.

“O Brasil tem papel fundamental nesse setor, com 38% de participação nas importações de café solúvel dos EUA em 2024. Eles não têm plantas industriais suficientes e dependem do Brasil. Do lado americano, eles também seguem pressionando”, diz Matos.

Apesar da perda de competitividade no mercado norte-americano, o setor registrou recorde de receita cambial e expansão do consumo interno em 2025, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS).

A ABICS diz que a tarifa imposta pelo governo Trump reduziu “drasticamente” a competitividade da commodity brasileira nos EUA, principal destino do produto.

No período de agosto a dezembro — meses em que a tarifa esteve plenamente em vigor — os embarques para os EUA recuaram cerca de 40% em comparação ao mesmo intervalo de 2024. No acumulado anual, a queda foi de 28%.

Segundo a NCA, o café gera uma riqueza significativa nos Estados Unidos, já que o país importa o grão e agrega valor por meio da industrialização.

Cerca de 76% dos americanos consomem café e, para cada dólar gasto com a importação do produto, são gerados US$ 43 na economia americana. Essa cadeia resulta em aproximadamente 2,2 milhões de empregos, o que representa 1,2% do PIB dos Estados Unidos.

Em 2025, os EUA ocuparam o segundo lugar entre os principais destinos do café brasileiro. Segundo o Cecafé, os norte-americanos importaram 5,381 milhões de sacas — uma queda de 34% em relação a 2024.

Produção de café

A produção brasileira de café deve crescer 17,1% em 2026 em relação a 2025, alcançando 66,2 milhões de sacas de 60 quilos, segundo projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Se confirmado o resultado, o país deve renovar o recorde registrado em 2020, quando foram produzidas 63,1 milhões de sacas.

Segundo a Conab, o crescimento da produção tem como base, além do ciclo de bienalidade positiva, a entrada de novas áreas em produção, o maior uso de tecnologias e insumos e as condições climáticas mais favoráveis.

A bienalidade positiva do café é o ano do ciclo produtivo em que a lavoura apresenta alta produtividade, superando a safra do ano anterior. Esse fenômeno fisiológico ocorre porque a planta alterna anos de alta carga de frutos com anos de menor produção, resultando, na fase de alta, em uma colheita mais abundante e rentável para o produtor.

Comparada à safra de 2024 — também considerada de bienalidade positiva —, quando foram produzidas 54,2 milhões de sacas, a safra de 2026 apresenta um expressivo aumento de 22,1%.

A Conab projeta uma colheita de 44,1 milhões de sacas de café arábica, um crescimento de 23,3% em relação ao ciclo anterior. A alta é explicada pelo aumento da área em produção, pelas condições climáticas mais favoráveis e pelo efeito da bienalidade.

A produção de café conilon também deve crescer, com expectativa de 22,1 milhões de sacas — alta de 6,4% em relação a 2025. O aumento é atribuído à expansão da área cultivada e ao clima favorável observado até o momento. A tendência de crescimento atinge ambas as variedades de café.

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