EXAME Agro

O que está na mesa de negociação entre Brasil e China sobre a carne bovina

Mapa retomou nesta segunda-feira, 5, as análises sobre as medidas chinesas e deve anunciar em breve ações para mitigar eventuais impactos sobre o setor

Carne bovina: China comprou 1,52 milhões da proteína brasileira de janeiro a novembro de 2025 (AAron Ontiveroz/MediaNews Group/The Denver Post/Getty Images)

Carne bovina: China comprou 1,52 milhões da proteína brasileira de janeiro a novembro de 2025 (AAron Ontiveroz/MediaNews Group/The Denver Post/Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 16h07.

Última atualização em 5 de janeiro de 2026 às 16h10.

O governo brasileiro avalia medidas para lidar com as salvaguardas impostas pela China às importações de carne bovina, anunciadas na última quarta-feira, 31.

Um interlocutor a par do assunto afirma que o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) retomou nesta segunda-feira, 5, as análises sobre as medidas chinesas e deve anunciar em breve ações para mitigar eventuais impactos sobre o setor de carne bovina brasileiro.

Na semana passada, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou que o Brasil iniciará negociações com a China para assumir cotas de exportação de carne bovina que eventualmente não sejam cumpridas por outros países fornecedores.

“Podemos compensar países que talvez não cumpram a sua cota e eles podem transferir essa cota para o Brasil, que tem capacidade para atender. Por exemplo, os Estados Unidos não exportaram para a China no ano passado. Se não exportarem, o Brasil pode cumprir a cota de outro país. São negociações que vão ocorrendo”, disse o ministro.

Segundo fontes ouvidas pela EXAME, essa possibilidade de compensação é considerada estratégica pelo governo brasileiro e deve ser um dos principais pontos da agenda de diálogo com o governo chinês a partir desta semana.

Na semana passada, a China anunciou que a cota total de importação de carne bovina para 2026 será de 2,7 milhões de toneladas.

O Brasil ficou com a maior fatia, 41,1% do total — cerca de 1,1 milhão de toneladas — seguido por Argentina (19%), Uruguai (12,1%), Austrália (205 mil toneladas) e Estados Unidos (164 mil toneladas). Volumes que excederem essas cotas estarão sujeitos a uma tarifa adicional de 55%.

De janeiro a novembro de 2025, o Brasil exportou 3,15 milhões de toneladas de carne bovina, gerando US$ 16,18 bilhões em receita.

Desse total, 1,52 milhão de toneladas — o equivalente a 48,3% — tiveram como destino a China, respondendo por quase metade do faturamento do período, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

Outro interlocutor que acompanha as negociações afirmou que, ao menos neste primeiro momento, o governo brasileiro não avalia adotar medidas de retaliação contra a China. Segundo ele, o processo poderia acirrar as relações diplomáticas entre os dois países — que completaram 50 anos de relação bilateral em 2025.

China e carne bovina

Analistas ouvidos pela EXAME avaliam que, caso o Brasil opte por acionar a Lei da Reciprocidade, o processo pode ser demorado.

“Existe, sim, a Lei da Reciprocidade já aprovada, mas sua aplicação depende necessariamente de uma investigação interna. É preciso entender de que forma a medida adotada pela China impactará economicamente a indústria brasileira. Não se trata simplesmente de retaliar”, afirma José Pimenta Junior, diretor de Comércio Internacional e Relações Governamentais da BMJ Associados.

Por aqui, a Lei da Reciprocidade Econômica permite ao governo aplicar contramedidas proporcionais a países que impõem barreiras ou ações prejudiciais ao comércio e investimentos brasileiros, como tarifas extras ou restrições, visando defender a competitividade nacional.

Segundo Pimenta, a própria legislação exige a comprovação de dano à indústria nacional. “Para isso, é preciso abrir uma investigação, seguir todo um rito processual e, só então, eventualmente aplicar alguma medida de retaliação. Nada é automático. Não é um ‘toma lá, dá cá’”, acrescenta.

A decisão de impor a medida de salvaguarda atendeu a uma solicitação da Associação Chinesa de Agricultura Animal (CAAA), que representa os interesses da indústria local.

A entidade argumenta que o crescimento das importações tem causado prejuízos significativos à cadeia doméstica de carne bovina, impactando diretamente sua saúde financeira.

Criadores de gado, associações setoriais e especialistas afirmam que a presença crescente da carne estrangeira no mercado doméstico tem comprimido as margens de lucro, gerado prejuízos generalizados e ameaçado a sustentabilidade da cadeia produtiva local, segundo reportagem do jornal chinês Global Times.

Nos últimos anos, as importações chinesas de carne bovina cresceram de forma expressiva, com alta acumulada de 73,2% entre 2019 e 2024. Nesse período, os preços da carne importada chegaram a ficar mais de 50% abaixo dos praticados no mercado interno, segundo a CAAA.

Segundo a entidade, o número de vacas reprodutoras no país caiu 3% em 2024. Já as empresas de abate domésticas relataram prejuízos entre 500 e 1.000 yuans (aproximadamente R$ 400 a R$ 800) por cabeça abatida.

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