Brasil em Moçambique: presidente Daniel Chapo participa da abertura do pavilhão da ApexBrasil na feira de exportação moçambicana (ApexBrasil/Divulgação)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 5 de setembro de 2026 às 09h00.
Última atualização em 8 de setembro de 2026 às 06h59.
De Maputo, Moçambique* — Com uma economia na qual a agricultura ocupa cerca de três quartos da força de trabalho, Moçambique quer elevar a produção doméstica de alimentos para reduzir os preços e busca no Brasil parte da tecnologia, do conhecimento e do investimento necessários para acelerar esse processo.
A estratégia ficou clara durante a 61ª edição da Feira Internacional de Maputo (FACIM), a maior feira multissetorial de negócios de Moçambique, da qual a EXAME participou in loco pela primeira vez.
O evento, que terminou no dia 4 de setembro, contou com 3 mil expositores, entre moçambicanos e estrangeiros, e tinha diversas máquinas agrícolas e outros insumos relacionados à agricultura.
O Brasil teve a maior comitiva de empresários do evento e foi escolhido como o país de honra da edição de 2026 da feira.
Durante seu discurso na abertura do evento, o presidente Daniel Chapo, recém-reeleito em um processo contestado pela oposição, ressaltou a necessidade do país de aumentar a produtividade no campo.
"Queremos usar a tecnologia para aumentar a produtividade da nossa agricultura, modernizar a nossa indústria, expandir os serviços digitais, aproximar os produtores dos mercados e, sobretudo, tornar a vida dos cidadãos e das empresas mais simples, produtivas e prósperas", disse.
Quando participou da abertura do pavilhão da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), ele falou que o país precisa produzir "mais comida" para a população e quer aprender com o Brasil.
Apesar do potencial agrícola, Moçambique ainda é um importador líquido de alimentos e depende do exterior para abastecer parte relevante do consumo de produtos como arroz e trigo.
A estratégia passa por ampliar a cooperação com a Embrapa, capacitar técnicos locais, testar variedades desenvolvidas no Brasil e atrair agricultores e empresas brasileiras dispostos a produzir no país africano.
É nesse espaço que a Embrapa tenta reconstruir uma presença mais próxima no continente africano. Ana Euler, diretora de Inovação Social e Transferência de Tecnologia da empresa, reuniu-se em Moçambique com o ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Mito Albino, como desdobramento de conversas iniciadas em novembro do ano passado.
Segundo ela, a primeira etapa da cooperação não passa apenas pelo envio de sementes ou pela venda de cultivares, mas pela formação de profissionais capazes de utilizar e adaptar tecnologias às condições locais.
“Não adianta só ter tecnologia se não tem quem guie as boas práticas para o acesso e uso, validação e adaptação dessas tecnologias”, diz Euler, em entrevista À EXAME durante a missão empresarial da ApexBrasil em Moçambique.
A avaliação coincide com a agenda apresentada pelo próprio Ministério da Agricultura moçambicano. Roberto Mito Albino tem colocado assistência técnica, acesso a insumos de qualidade e financiamento entre os elementos necessários para elevar a produtividade. O governo também criou iniciativas voltadas a cadeias como arroz, milho e feijão, produtos nos quais reconhece dependência relevante de importações.
A aproximação ocorre em um momento no qual o governo do presidente Daniel Chapo colocou a produção de alimentos entre as prioridades econômicas. Na campanha agrária 2025-2026, o governo estabeleceu, entre outras metas, produzir 3,4 milhões de toneladas de cereais, 7% acima do ciclo anterior, além de mais de 10 milhões de toneladas de raízes e tubérculos. O plano oficial também prevê avanços na produção de leguminosas, castanha de caju e proteína animal.
A dimensão do desafio aparece nos números do país. O Instituto Nacional de Estatística de Moçambique estima uma população de 34,96 milhões de pessoas em 2026, das quais 65% vivem em áreas rurais. O órgão calcula crescimento populacional de 2,5% ao ano. Em 2025, o PIB por habitante ficou em US$ 692 e a economia registrou contração de 0,2%, segundo os dados nacionais. A economia do país desacelera desde 2016, segundo o FMI, com dois terços da população abaixo da linha da pobreza e uma infraestrutura precária.
Além disso, Moçambique atravessou uma onda de protestos após as eleições presidenciais de outubro de 2024, que levou a confrontos, interrupções no transporte e fechamento de empresas. O Banco Mundial aponta a instabilidade pós-eleitoral entre os fatores que afetaram a atividade econômica em 2025, ao lado das pressões fiscais e da escassez de divisas.
A pressão sobre o custo de vida permanece em 2026. A inflação acumulada em 12 meses chegou a 7,48% em julho, segundo o Instituto Nacional de Estatística, em um país no qual o preço dos alimentos tem peso relevante sobre a renda das famílias. O Banco Mundial afirma que a inflação voltou a ganhar força com a alta dos alimentos e prevê novas pressões em 2026, associadas, entre outros fatores, a problemas na oferta provocados por enchentes.
O FMI calcula que a agricultura responde por aproximadamente um quarto da economia moçambicana e emprega três de cada quatro trabalhadores, mas ainda opera com produtividade considerada baixa.
Entre os entraves citados pelo organismo estão acesso limitado a financiamento e insumos, baixa irrigação e exposição a choques climáticos. Apenas cerca de 12% da área territorial do país está atualmente sob cultivo, segundo relatório do Fundo publicado em 2026.
Além do foco no agro, Moçambique vive a expectativa dos investimentos em gás natural. Chapo afirmou que US$ 50 bilhões serão investidos no país nos próximos anos. A francesa Total Energies retomou a construção de um mega projeto no norte do país, paralisado por cinco anos após um ataque terrorista na região de Cabo Delgado.
Uma das frentes em discussão é ampliar o acesso de técnicos e agricultores moçambicanos às plataformas digitais da Embrapa. A empresa mantém o e-Campo, plataforma de capacitação que, segundo Euler, reúne mais de 200 cursos, 1,5 milhão de inscritos e usuários em 167 países.
A proposta para a África é ir além da disponibilização do conteúdo produzido para as condições brasileiras. A Embrapa discute parcerias com universidades brasileiras e africanas para adaptar cursos às cadeias produtivas locais e oferecer formação mais extensa a extensionistas rurais.
“O momento em que a gente está agora é o fortalecimento do capital humano deles”, diz Euler.
A diretora disse que a instituição pretende combinar ensino digital, comunidades de prática, intercâmbio e acompanhamento técnico. Entre as áreas citadas estão produção de alimentos, mudanças climáticas, pecuária e bioinsumos, produtos de origem biológica utilizados, por exemplo, na nutrição ou no controle de pragas e doenças agrícolas. Outra frente envolve a genética desenvolvida pela empresa.
De acordo com Euler, cerca de 150 cultivares da Embrapa, variedades de plantas melhoradas geneticamente para produzir mais, resistir a pragas e doenças e se adaptar ao clima do Brasil, já estão em domínio público e poderiam integrar programas de cooperação. Parte desse material, segundo ela, já passou por avaliações anteriores em países africanos.
Entre os exemplos citados estão variedades biofortificadas de batata-doce, milho, feijão e mandioca, desenvolvidas para apresentar concentrações maiores de determinados nutrientes.
“O que a gente quer fazer é capacitar os técnicos, democratizar o acesso à nossa genética e acompanhar, junto com eles, a validação e o processo de desenvolvimento dessas cadeias aqui”, afirma a diretora.
O modelo é diferente para variedades ainda protegidas. Nesse caso, empresas interessadas precisam recorrer a licenciados e pagar pela utilização da tecnologia, mecanismo que gera receitas para financiar novas pesquisas da Embrapa.
A FAO, braço das Nações Unidas para alimentação e agricultura, afirma que mais de 80% da população moçambicana depende da agricultura para sua subsistência. A organização também aponta que eventos climáticos, conflitos e dificuldades de acesso a recursos produtivos continuam afetando a capacidade de produção no campo.
A segunda frente da aproximação tem caráter empresarial. O governo moçambicano tenta atrair produtores e companhias capazes de ampliar a agricultura comercial, ao mesmo tempo em que busca elevar a produtividade dos pequenos produtores, responsáveis por grande parte da produção de alimentos consumida internamente.
“Eles querem muito atrair o setor privado, inclusive do próprio Brasil. Empresários brasileiros para cá, para poder dar escala a uma agricultura de exportação”, diz Euler.
A diretora afirma que já encontrou, durante a viagem, produtores brasileiros interessados em avaliar oportunidades no país e cita a disponibilidade de terra como um dos elementos que entram no cálculo dos investidores.
Ela pondera, porém, que investimentos agrícolas no continente exigem uma avaliação própria de riscos, infraestrutura e condições institucionais.
“Tem, sim, investidores. É lógico que, na minha visão, é um investidor mais arrojado, porque vir para a África não é para amadores”, afirma.
O interesse dos dois governos, porém, não significa que a transferência de tecnologia ocorrerá apenas com recursos públicos brasileiros.
Euler afirma que uma das principais limitações da expansão da Embrapa no continente é justamente financiar a implementação dos projetos.
“O mais caro da Embrapa é o custo da nossa folha de pagamento, dos nossos cientistas, da nossa estrutura de laboratórios, do nosso banco ativo de germoplasma e das nossas tecnologias. Agora, o custo de transferir isso tem que ser pago por alguém”, diz.
A empresa passou, por isso, a procurar bancos multilaterais, organizações internacionais e agências de cooperação que possam financiar programas conjuntos. Entre os interlocutores citados pela diretora estão o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, o Banco Africano de Desenvolvimento, a FAO e agências nacionais de cooperação.
A Embrapa também reabriu uma representação na África, instalada em Adis Abeba, capital da Etiópia e sede da União Africana. Segundo Euler, o escritório tem função de articulação institucional e de construção de projetos com governos, organismos internacionais e potenciais financiadores.
Além de Moçambique e Etiópia, a diretora cita negociações ou projetos com Angola, Nigéria e Marrocos.
O mesmo cenário ajuda a explicar por que aumentar a produção doméstica de alimentos ganhou espaço na agenda econômica.
Para o governo moçambicano, a equação combina duas frentes: elevar a produtividade de milhões de pequenos produtores e criar espaço para investimentos privados capazes de produzir em maior escala.
Para a Embrapa, a cooperação abre outra discussão: em vez de repetir o modelo de décadas atrás, baseado principalmente na transferência brasileira de conhecimento, a empresa quer usar a aproximação para construir projetos conjuntos de pesquisa, sobretudo sobre adaptação da agricultura às mudanças climáticas.
“Não é um país que sozinho vai ter todas as soluções”, disse Euler. “A gente precisa, no novo contexto de mudanças do clima, fazer parcerias com o Sul Global.”
*O jornalista viajou a convite da ApexBrasil