EXAME Agro

Soja e milho devem voltar a subir? O que está por trás da possível virada dos preços

Segundo o BTG, estoques mundiais de soja, milho e trigo devem cair na safra 2026/27, enquanto El Niño aumenta riscos de pressão sobre os preços

Colheita de algodão em Mato Grosso: O maior recuo deve ocorrer no milho, cujos estoques mundiais estão projetados em 280,4 milhões de toneladas, queda de 8,7% em relação à temporada anterior. No algodão, a redução esperada é de 6,6%, seguida pelo arroz, com 2,8%, trigo, com 2%, e soja, com 0,5%. (Scheffer/Divulgação)

Colheita de algodão em Mato Grosso: O maior recuo deve ocorrer no milho, cujos estoques mundiais estão projetados em 280,4 milhões de toneladas, queda de 8,7% em relação à temporada anterior. No algodão, a redução esperada é de 6,6%, seguida pelo arroz, com 2,8%, trigo, com 2%, e soja, com 0,5%. (Scheffer/Divulgação)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 15 de outubro de 2026 às 06h00.

Última atualização em 15 de outubro de 2026 às 09h51.

Priorizar nos meus resultados Google

Os preços de commodities agrícolas como soja e milho podem voltar a subir após anos de margens apertadas para os agricultores. Na safra 2026/27, a produção mundial deve recuar em quatro das cinco principais culturas acompanhadas pelo BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), enquanto os estoques devem diminuir em todas elas.

Segundo o banco, o movimento deve abrir espaço para uma recuperação dos preços de soja, milho, algodão, trigo e arroz nos próximos anos. A perspectiva ganha força com o desenvolvimento de um El Niño mais forte, que poderá provocar problemas climáticos em importantes regiões produtoras e aumentar a pressão sobre a oferta.

“Os estoques finais e as relações entre estoques e consumo devem cair na comparação anual em todas as culturas, apontando para um ambiente de preços mais favorável, especialmente para milho, algodão e arroz”, afirmam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, em relatório divulgado nesta quarta-feira, 14.

Na avaliação dos analistas, os números apontam para uma mudança no equilíbrio do mercado. Ainda que a projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), principal referência utilizada na Bolsa de Chicago (CBOT), de outubro tenha elevado ligeiramente as estimativas de estoques de algumas culturas, o cenário para a safra atual segue apontando para uma oferta mais restrita em relação ao consumo.

O maior recuo deve ocorrer no milho, cujos estoques mundiais estão projetados em 280,4 milhões de toneladas, queda de 8,7% em relação à temporada anterior. No algodão, a redução esperada é de 6,6%, seguida pelo arroz, com 2,8%, trigo, com 2%, e soja, com 0,5%.

A redução das reservas globais significa que o mercado poderá contar com uma margem menor para absorver eventuais problemas de produção.

Para os preços, isso representa um cenário mais favorável do que o observado nos últimos anos, embora a recuperação ainda dependa do comportamento da oferta, da demanda e do clima.

Preço da soja

A possível recuperação das commodities começa nas decisões tomadas pelos próprios agricultores. Depois de 2020, a retantabilidade do produtor segue apertada.

Uma combinação de fatores de cinco anos para cá levou a esse contexto, como a queda no preço das commodities e a alta na produção, enquanto os produtores fizeram grandes investimentos — mas o principal é o aumento dos custos, especialmente dos fertilizantes. Como o Brasil importa cerca de 85% desses insumos, a valorização média do dólar nos últimos anos ampliou essa pressão.

“Os preços dos grãos caíram acentuadamente desde os anos posteriores à pandemia, reduzindo a rentabilidade dos agricultores, com preços que mal cobrem os custos de produção em algumas regiões”, afirmam Duarte e Guttilla.

Segundo o BTG, esse ambiente levou os agricultores a rever suas decisões de plantio, movimento que agora começa a aparecer nas projeções globais de oferta e demanda.

A produção mundial de milho deve cair 2,8% em 2026/27, para aproximadamente 1,294 bilhão de toneladas, enquanto o consumo doméstico global deve permanecer praticamente estável. Com isso, a relação entre estoques e consumo deve recuar de 23,3% para 21,2%.

No algodão, a produção mundial está projetada em 118 milhões de fardos, queda de 3,4% em relação à temporada anterior. Os estoques finais devem diminuir para 70,7 milhões de fardos, enquanto a relação entre estoques e consumo deve passar de 62,7% para 57,4%.

O arroz apresenta dinâmica semelhante. A produção global deverá recuar 2,3%, para 533,1 milhões de toneladas, ao mesmo tempo que o consumo doméstico aumenta 1,1% e as exportações crescem 4,8%. Os estoques finais devem cair para 198,5 milhões de toneladas.

Já a produção mundial de trigo está estimada em 822,4 milhões de toneladas, retração de 2,6%. Embora os estoques iniciais mais elevados ajudem a compensar parte da redução da oferta, as reservas finais ainda devem diminuir 2% na comparação anual.

A soja é a exceção entre as cinco culturas. Sua produção mundial deverá crescer 3,1%, alcançando 442,7 milhões de toneladas.

Mesmo assim, a demanda também deve avançar, com aumento de 2,3% no consumo interno global e de 3% nas exportações, o que levaria a uma pequena redução dos estoques finais, para 124,3 milhões de toneladas.

No caso da oleaginosa, o BTG identifica um efeito dos investimentos realizados durante o último período de preços elevados no Brasil. Áreas adquiridas e preparadas para o cultivo naquela época estão entrando em produção agora, mesmo em um ambiente de rentabilidade menos favorável.

El Niño no Brasil

Se a redução dos estoques já cria condições para uma recuperação das cotações, o El Niño forte acrescenta uma variável ainda pior ao mercado uma vez que pode impactar a produção nacional do grão.

O fenômeno ganha peso porque seus possíveis efeitos ocorreriam em um momento de menor disponibilidade de estoques. Nesse cenário, eventuais perdas de produtividade em regiões importantes poderiam ampliar a pressão sobre as cotações.

“Não caracterizaríamos isso como uma previsão direta de perdas generalizadas nas safras globais, já que a relação histórica entre o El Niño e a produtividade varia significativamente conforme a cultura e a região”, afirmam os analistas.

Entre outubro e dezembro, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) calcula em 95% a chance de um El Niño muito forte. Há ainda 69% de probabilidade de o evento estar entre os mais intensos registrados desde 1950, início da série histórica utilizada pela agência americana.

Ainda assim, a possibilidade de problemas climáticos em um mercado mais ajustado torna a relação entre risco e potencial de valorização das commodities mais favorável, na avaliação do banco.

Para os analistas, mesmo com preços à vista ainda pouco atrativos, o cenário de oferta e demanda começa a oferecer fundamentos mais construtivos para os próximas safras.

Acompanhe tudo sobre:CommoditiesSojaMilhoEl Niño

Mais de EXAME Agro

‘Questão eleitoral se sobrepôs à racionalidade’, diz Abramilho sobre escala 6x1

Agro caminha para dívida recorde de US$ 605 bilhões e vira problema para Trump

Brasil vende mais frutas à Europa, mas frete de até US$ 9 mil aperta margens

Do grão à xícara: o que o Brasil está fazendo para ampliar fatia no mercado europeu de café