Donald Trump, presidente dos EUA: a declaração ocorre em um momento sensível para o agronegócio americano, marcado por margens comprimidas e custos em alta, em meio às tensões comerciais entre Estados Unidos e China e a guerra no Irã. (Chip Somodevilla/Getty Images/Getty Images)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 30 de março de 2026 às 09h15.
Na última sexta-feira, 27, as ações da John Deere, fabricante de máquinas agrícolas, caíram 2% no pós-mercado, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pedir que empresas do setor reduzissem os preços de seus equipamentos.
“Quero que a John Deere, a Case e todas as outras — são ótimas empresas, a Caterpillar — ofereçam preços mais baixos em tratores e equipamentos”, disse Trump a centenas de agricultores e pecuaristas na Casa Branca.
A declaração ocorre em um momento sensível para o agronegócio americano, marcado por margens comprimidas e custos em alta, em meio às tensões comerciais entre Estados Unidos e China e a guerra no Irã.
Os dados reforçam esse quadro. Em 2025, os pedidos de falência no setor agrícola dos EUA cresceram 46% em relação a 2024, segundo a American Farm Bureau Federation (AFBF), uma das principais entidades do país.
Nesse contexto, o republicano anunciou, também na sexta-feira, novas medidas de apoio aos produtores, pressionados tanto pelas políticas comerciais do próprio governo quanto pelos efeitos da guerra com o Irã.
Pelo quarto ano consecutivo, agricultores americanos enfrentam uma combinação adversa de custos elevados, preços mais baixos das commodities e margens reduzidas. O resultado é um quadro de fragilidade financeira, mesmo com os pagamentos governamentais próximos de níveis recordes.
No fim de 2025, o governo Trump anunciou um pacote de US$ 12 bilhões em auxílio ao setor. Ainda assim, a medida é considerada insuficiente por entidades agrícolas e economistas, que estimam perdas superiores a US$ 30 bilhões nos últimos anos.
“Esse apoio servirá como uma tábua de salvação. Mas é apenas uma tábua de salvação, não uma solução de longo prazo”, afirmou Mike Stranz, vice-presidente de relações governamentais da National Farmers Union, quando Trump anunciou o pacote.
Na sexta-feira, o presidente dos EUA afirmou que pretende buscar novos recursos junto ao Congresso. Mais de 50 organizações do setor, incluindo a AFBF, pressionam pela aprovação de ajuda adicional dentro de um pacote de financiamento militar.
O peso político do campo ajuda a explicar a mobilização. Eleitores rurais representam cerca de 20% do eleitorado americano e apoiaram Trump por uma margem de aproximadamente 66% a 33% sobre a democrata Kamala Harris na eleição presidencial de 2024.
Além das medidas de apoio, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) autorizou, em caráter emergencial, a venda de combustível com maior teor de etanol de milho, em resposta à alta do petróleo. A liberação permite a comercialização do E15 — gasolina com 15% de etanol — entre 1º e 20 de maio, sustentando a demanda interna pelo grão.
O cenário se agrava em um momento crítico do calendário agrícola. Os produtores entram na temporada de plantio da primavera sob crescente incerteza, em meio à guerra envolvendo EUA, Israel e Irã — que completou um mês no último sábado, 28 — e que tem pressionado o comércio global, elevando os custos de insumos como fertilizantes e diesel.
Nos estados do Sul, como Texas, Louisiana, Mississippi, Geórgia e as Carolinas, o plantio começa mais cedo. O milho pode ser semeado entre o fim de janeiro e março, enquanto o algodão vai de fevereiro a maio. Já o trigo de inverno, plantado no outono, sai da dormência nesse período e exige aplicação de nitrogênio no início da primavera.
No cinturão do milho — que inclui Iowa, Illinois, Indiana, Ohio e Nebraska — o calendário é mais tardio: o plantio ocorre entre o fim de abril e meados de maio, seguido pela soja. Neste momento, os produtores finalizam a compra de fertilizantes e se preparam para o trabalho de campo.
Diante desse cenário, muitos agricultores já consideram reduzir a área plantada de milho — cultura mais intensiva em fertilizantes — em favor da soja, que apresenta menor exposição à volatilidade desses insumos, segundo a AFBF.
Antes da guerra no Oriente Médio, o agro dos EUA não estava otimista com 2026. O conflito adicionou uma nova camada de incerteza a um cenário desafiador, afirmou a AFBF na semana passada.
O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima que a dívida agrícola total aumentará 5,2%, atingindo o recorde de US$ 624,7 bilhões neste ano — o que reforça a necessidade de apoio financeiro aos produtores nas condições atuais.
Uma pesquisa do Federal Reserve (Fed) mostra que os empréstimos agrícolas cresceram 40% no último trimestre de 2025.
Além disso, o valor médio desses financiamentos foi 30% maior do que no ano anterior, indicando que os produtores estão tomando empréstimos mais elevados para cobrir custos operacionais, segundo o banco central americano.
O sentimento no campo também piorou. De acordo com levantamento da Universidade Purdue em parceria com o CME Group, a proporção de agricultores que esperam enfrentar dificuldades financeiras no próximo ano subiu de 47%, em dezembro, para 59%, em janeiro.
Em fevereiro, o presidente da Comissão de Agricultura do Senado dos EUA afirmou que os produtores rurais do país enfrentam grandes prejuízos.
Além disso, líderes do setor alertaram para o risco de um “colapso generalizado da agricultura americana”, provocado pela escalada nos preços dos insumos e pela guerra tarifária liderada pelo presidente Trump.