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Por que a restrição da Rússia em fertilizantes afeta mais os EUA do que o Brasil

Calendário agrícola reduz impacto no Brasil e pressiona produtores dos EUA

Plantio nos EUA: Os agricultores estão em pleno plantio da safra de primavera — especialmente nos estados do Sul, como Texas, Louisiana, Mississippi, Geórgia e as Carolinas, onde o calendário agrícola começa mais cedo. (Freepik)

Plantio nos EUA: Os agricultores estão em pleno plantio da safra de primavera — especialmente nos estados do Sul, como Texas, Louisiana, Mississippi, Geórgia e as Carolinas, onde o calendário agrícola começa mais cedo. (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 25 de março de 2026 às 10h59.

A decisão da Rússia — um dos maiores produtores globais de fertilizantes — de restringir as exportações de nitrato de amônio, insumo utilizado no plantio de soja e milho, tende a ter impacto mais imediato sobre os Estados Unidos do que sobre o Brasil.

Isso porque os americanos estão em pleno período de compra de insumos para a safra de primavera, enquanto os produtores brasileiros já garantiram os fertilizantes nitrogenados necessários para o plantio do milho de segunda safra, previsto para começar em julho.

Segundo o Itaú BBA, esse efeito é amenizado pela sazonalidade. Como o Brasil não está no pico de compras de nitrogenados neste momento, há mais espaço para uma postura cautelosa na formação de estoques.

A medida foi anunciada na terça-feira, 24, pelo Ministério da Agricultura da Rússia, que informou a restrição das exportações entre 21 de março e 21 de abril de 2026, com o objetivo de assegurar o abastecimento interno durante a campanha de plantio da primavera. A decisão ocorre em meio à guerra no Irã.

O peso da Rússia no mercado global ajuda a dimensionar o impacto: o país responde por até 40% do comércio mundial de fertilizantes e por cerca de 25% da produção de nitrato de amônio. O cenário é agravado por uma oferta global já pressionada, especialmente após o fechamento do Estreito de Ormuz — rota por onde passa cerca de 24% do comércio mundial de amônia, insumo-chave na produção do fertilizante.

No Brasil, as entregas de fertilizantes somaram 49,11 milhões de toneladas em 2025, alta de 7,7% em relação ao ano anterior. Desse total, 43,32 milhões de toneladas foram importadas, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). A Rússia aparece como a segunda principal origem dessas compras.

Apesar da dependência externa, o momento reduz a pressão no curto prazo. Para a segunda safra 2025/26, praticamente todo o volume já foi adquirido. Já para a safra de verão 2026/27, as compras realizadas até agora somam cerca de 30%, abaixo da média histórica de 40%, segundo a StoneX.

Segundo Tomás Pernías, analista de fertilizantes da consultoria, o cenário permite ao produtor brasileiro adotar uma postura mais estratégica — ainda que cautelosa, diante das incertezas sobre a duração do conflito.

“O Brasil terá um impacto limitado neste momento, porque não está comprando ativamente”, afirma. Para ele, essa janela dá algum fôlego ao produtor, mas não elimina o risco de uma alta prolongada nos preços.

EUA e a safra de primavera

Nos Estados Unidos, o cenário é oposto. Os agricultores estão em pleno plantio da safra de primavera — especialmente nos estados do Sul, como Texas, Louisiana, Mississippi, Geórgia e as Carolinas, onde o calendário agrícola começa mais cedo.

Nessas regiões, o plantio de milho pode ter início no fim de janeiro e se estender até março, enquanto o algodão é semeado entre fevereiro e maio. Já o trigo de inverno, cultivado no outono anterior, começa a sair da dormência nas planícies do Sul e exige a aplicação de nitrogênio no início do crescimento da primavera.

No chamado cinturão do milho — que abrange estados como Iowa, Illinois, Indiana, Ohio e Nebraska — o ritmo é diferente. O plantio do cereal costuma ocorrer entre o fim de abril e meados de maio, seguido de perto pela soja. Neste momento, os produtores estão concluindo a compra de fertilizantes e se preparando para o trabalho de campo.

Mais ao norte, em estados como Minnesota, Dakota do Norte e Dakota do Sul, a janela de plantio é mais curta. A semeadura geralmente ocorre entre maio e o início de junho, concentrada principalmente ao longo de maio.

Nessas regiões, o clima mais frio encurta o período de cultivo. Ainda assim, mesmo com o plantio mais tardio, os produtores seguem expostos a oscilações nos preços e na oferta de fertilizantes, especialmente diante de gargalos logísticos ou interrupções no mercado global.

Segundo a American Farm Bureau Federation (AFBF), uma das principais entidades agrícolas do país, muitos agricultores já consideram reduzir a área plantada com milho em favor de culturas como a soja, menos expostas à volatilidade dos preços dos fertilizantes.

Esse movimento ocorre em um contexto de forte pressão de custos. As despesas de produção seguem elevadas, reduzindo o capital de giro que normalmente ajudaria a absorver choques inesperados.

Os Estados Unidos dependem tanto da produção interna quanto das importações para suprir a demanda por fertilizantes — e o grau de dependência varia conforme o nutriente. Cerca de 97% do potássio consumido no país é importado, assim como 18% do nitrogênio e 13% do fosfato.

Além disso, uma parcela relevante do fornecimento de fosfato diamônico (DAP) e fosfato monoamônico (MAP) vem da região do Golfo, especialmente da Arábia Saudita. O mercado de ureia também depende, em parte, de fornecedores dessa região.

Levantamento da AFBF mostra que aproximadamente 50% do nitrogênio aplicado ao milho, 28% ao algodão e 42% ao trigo de primavera são utilizados justamente na primavera.

"Por isso, interrupções nas cadeias de suprimento nesse período crítico tendem a ter impacto desproporcional sobre a disponibilidade e os preços dos insumos — com reflexos na produtividade e no planejamento das safras", diz a entidade.

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