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Remy Sharp
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O campo ficou mais perto da Faria Lima nos últimos anos. O agronegócio, que já responde por aproximadamente um quarto do PIB, tinha poucos representantes na Bolsa de Valores, por exemplo. Isso mudou. Só no ano de 2021, seis empresas do setor abriram capital, como Boa Safra, 3tentos e AgroGalaxy. Na renda fixa, as operações poderiam ser com os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) ou com as Letras de Crédito ao Agronegócio (LCA). Por isso, a chegada dos Fundos de Investimento às Cadeias Agroindustriais, os Fiagro, no segundo semestre de 2021, foi recebida com ânimo pelo mercado. Em fevereiro deste ano, esses fundos já somavam um patrimônio líquido de 10,5 bilhões de reais. E a projeção é que esse montante chegue a 200 bilhões de reais nos próximos dez anos.

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Essa era uma demanda antiga do agronegócio para ter um veículo de investimento coletivo com isenção fiscal. “É um ganha-ganha, trazendo o dinheiro que estava no bolso do pequeno poupador, enquanto o investidor fica isento e com exposição a um setor que é hoje um dos mais resilientes da economia brasileira”, observa José Alves Ribeiro, sócio do VBSO, escritório especializado em mercados de capitais e agronegócio. Com regulação temporária pela resolução 39 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Fiagro é inspirado nos Fundos de Investimento Imobiliário (FII), mas tem um portfólio de ativos mais amplo, incluindo terrenos e imóveis, CRA, direito creditório ou até mesmo participação em companhias privadas. Esses ativos, porém, não podem ser todos comprados por apenas um Fiagro. A expectativa, conta Ribeiro, é de que a autarquia solte ainda neste ano uma audiência pública específica para as regras do Fiagro, o que vai permitir que um só fundo invista nos mais diferentes ativos, o que pode potencializar esse avanço. Da carteira do Fiagro, o principal ativo investido em 2022 foi o CRA, com 5,9 bilhões de reais, segundos dados da CVM.

Uma fonte importante de captação de recursos

A produtora de sementes Boa Safra resolveu juntar a fome com a vontade de comer. Enquanto a janela para equity se manteve e segue fechada, o mercado de dívida tinha apetite. “Tínhamos duas grandes necessidades de capital: de investimentos em capacidade instalada e de capital de giro. Assim, surgiu o Fiagro para nós”, diz o diretor financeiro da Boa Safra, Felipe Marques. Em agosto, a empresa fez sua primeira emissão do fundo, no valor de 150 milhões de reais. Desse montante, 125 milhões de reais foram atrelados a emissões de CRA e 25 milhões de reais a dois terrenos que a empresa vendeu para o fundo e arrendou. Ou seja, o investidor recebe os pagamentos do CRA e os rendimentos com aluguel. Em dezembro a empresa fez nova emissão de 150 milhões de reais, sendo 140 milhões de reais em CRA e outros 10 milhões de reais em terrenos.

"Uma operação de 300 milhões de reais, quase do mesmo tamanho do IPO, mas com um longo tempo, porque é uma operação de 20 anos"Felipe Marques, CFO da Boa Safra
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A capacidade do Fiagro de capitalizar o setor por longos prazos é uma vantagem para os tomadores de crédito. Em empréstimos bancários, o prazo de pagamento costuma ser mais curto. E, no caso do Fiagro, o investidor consegue ter mais liquidez do que se investisse diretamente em um CRA. A estrutura também veio em bom momento, como uma espécie de alternativa ao fechamento da torneira de recursos, com os aportes do Plano Safra ficando cada vez menos representativos, dada a pressão do orçamento federal. “A única fonte de recursos que tem espaço para crescer nos balanços das empresas é o mercado de capitais. O funding virá cada vez mais do poupador brasileiro”, observa Octaciano Neto, ex-secretário de Agricultura do Espírito Santo e atualmente diretor de agronegócio da gestora Suno Asset. Por isso, ele segue confiante de que as cifras do Fiagro cresçam 20 vezes até 2032. “E nem citamos as fazendas brasileiras, que valem de 6 trilhões a 8 trilhões de reais. Se 1% virar Fiagro, estamos falando de 60 bilhões de reais. Então esse mercado ainda vai acelerar."

(Arte/Exame)

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