Revista Exame

Em um mundo de respostas, a escola precisa ensinar a perguntar

Como ministro da Educação e Ciência da Finlândia, percebi que, embora os líderes mundiais possam ter estratégias para avançar e melhorar a educação, o desafio é realmente levar essa mudança para a sala de aula

Olli-Pekka Heinonen é diretor-geral do International Baccalaureate (IB), ex-ministro da Educação e Ciência da Finlândia (Baccalaureate (IB)/Divulgação)

Olli-Pekka Heinonen é diretor-geral do International Baccalaureate (IB), ex-ministro da Educação e Ciência da Finlândia (Baccalaureate (IB)/Divulgação)

Olli-Pekka Heinonen
Olli-Pekka Heinonen

Diretor-geral do International Baccalaureate (IB)

Publicado em 25 de setembro de 2026 às 06h00.

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Ao longo da minha carreira, acompanhei de perto sistemas educacionais em todos os cinco continentes. Nessa jornada, o Brasil se destaca como uma nação com uma capacidade única de inovação pedagógica e uma disposição genuína de adotar novas soluções para aumentar o acesso a uma educação de qualidade para todos os alunos. Ao mesmo tempo, o país enfrenta desafios como disparidades socioeconômicas, a urgência de apoiar os educadores e a necessidade de preparar os jovens para um mercado de trabalho impactado por tecnologias em rápida evolução, como a IA.

Tradicionalmente, a escola tem sido um lugar onde o conhecimento é compartilhado com os alunos. No entanto, em um mundo saturado de dados e movido por algoritmos, o acesso à informação não é mais o diferencial humano definitivo. O que mais importa é quão capazes e dispostos eles estão para agir com base no conhecimento que possuem.

É por isso que defendo que o papel principal da educação hoje seja ajudar todas as crianças a desenvolverem agência, autonomia, curiosidade, pensamento crítico, habilidades socioemocionais e uma capacidade de aprender ao longo de toda a vida.

A inteligência artificial pode ser uma ferramenta a serviço do pensamento crítico. O maior risco da IA nas escolas surge quando ela começa a substituir as conexões emocionais e o pertencimento, gerando isolamento ou interferindo no desenvolvimento do senso de identidade.

Portanto, devemos ensinar os alunos a questionar os resultados da IA, criar com ela e desenvolver autonomia intelectual, garantindo que as ferramentas tecnológicas ampliem sua capacidade de investigação.

Quando olhamos para a realidade brasileira, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a expansão das políticas de educação bilíngue, vemos uma sinergia com a educação internacional. A BNCC foca justamente a aprendizagem baseada na investigação, na interdisciplinaridade, no desenvolvimento de competências humanas para enfrentar desafios da vida real e no desenvolvimento socioemocional. O maior desafio no Brasil é garantir a implementação equitativa dessas diretrizes.

Um dos maiores equívocos do debate público é a ideia de que abordagens educacionais inovadoras ou currículos de padrão internacional devem ser restritos a uma elite econômica.

Países como Peru, Costa Rica, Índia e Colômbia demonstram que é possível integrar currículos internacionais rigorosos aos sistemas de ensino público, ao mesmo tempo que cumprem os padrões nacionais. Para que o Brasil dê esse salto, três pilares devem ser considerados: começar na primeira infância, colocar o professor no centro da transformação cultural e garantir a relevância local.

O Brasil possui proporções continentais e uma imensa diversidade. No entanto, os princípios humanos que sustentam uma educação de excelência são rigorosamente os mesmos em Helsinque, São Paulo, Manaus ou Porto Alegre.

O sucesso educacional de uma nação é medido por sua capacidade de cultivar cidadãos éticos e empáticos em cada aluno, a fim de prepará-los para um mundo em constante mudança. O Brasil tem o talento, a energia e a visão necessários para liderar essa transformação. Cabe a nós construir as pontes que deem a cada estudante essa oportunidade.

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