Como marcas judaicas aniquiladas na guerra começam a ressurgir na Alemanha

Na década de 1930, os nazistas aniquilaram quase todas empresas comandadas por judeus na Alemanhã
 (The New York Times/Andreas Meichsner)
(The New York Times/Andreas Meichsner)
Por Vanessa Friedman - c. 2019 New York Times News ServicePublicado em 21/12/2019 08:00 | Última atualização em 21/12/2019 11:42Tempo de Leitura: 8 min de leitura

Em novembro, Andreas Valentin, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, viajou mais de 9.650 quilômetros, do Brasil até Berlim, para participar de uma cerimônia de restituição.

Ele foi o convidado de honra na inauguração de uma marca de moda não exatamente nova, mas renovada: a Manheimer, fundada por seu tataravô, Valentin Manheimer, em 1840. Ela já foi conhecida como “a rainha dos casacos” e era famosa pela produção em massa de trajes femininos e masculinos prontos para usar (ou Konfektion). Agora, foi reimaginada como uma marca de moda masculina focada em roupas minimalistas, que estão novamente à venda.

Se você ainda não ouviu falar dela, isso é compreensível. A Manheimer estava extinta desde 1929. Mas uma vez, por volta da virada do século XX, estava no centro do mundo da moda alemã, que rivalizava com Paris e Londres em matéria de design, produção e glamour.

Entretanto, esse mundo era basicamente dominado por judeus. Como resultado, acabou desaparecendo durante a década de 1930, época em que o regime nazista eliminou empresas judaicas. “Em 1933, havia cerca de 2.700 produtores de moda de primeira classe em Berlim. Em 1939, havia menos de 150”, disse Uwe Westphal, ex-jornalista e autor de “Fashion Metropolis Berlin”. Outras estimativas são ainda mais baixas.

Hoje, uma empresa espera trazer de volta várias marcas perdidas. A Manheimer está entre as 32 companhias fundadas por judeus, incluindo o relojoeiro F. L. Löbner, o fabricante de malas M. Würzt & Söhne e o sapateiro Breitsprecher, existentes nas ruas de Berlim ao redor da área conhecida como Hausvogteiplatz. Suas marcas registradas foram adquiridas pela Jandorf Holding, com o objetivo declarado de levar a Alemanha de volta a seu lugar de direito no reino do luxo pessoal – e de reconectar as marcas a seus herdeiros.

“A Alemanha é conhecida por marcas de carros de luxo. Todo mundo conhece Gottlieb Daimler. Mas ninguém sabe que a Manheimer foi responsável pelo que se tornou uma indústria global”, disse Lothar Eckstein, um dos parceiros da Jandorf.

Eles têm aquela coisa muito apreciada pelo branding moderno atual: uma história para contar. A questão é: conseguirão ser ouvidos?

Não é fácil. Não importa quanto a roupa seja boa.

Eckstein descobriu a história quando se mudou para Berlim, vindo de sua pequena cidade natal perto de Stuttgart. Ele gerenciava a Amazon na Alemanha e fundou sua própria empresa de mídia independente. Contou ter percebido “que a indústria de luxo on-line mostrava que as marcas são mais importantes, o que significa que o histórico da marca é importante”.

Analisando o passado, ele disse em um telefonema, de Berlim: “Se você vem para cá de outras partes da Alemanha, não dá para não observar como a Segunda Guerra Mundial é drasticamente visível, mesmo muitas décadas mais tarde. O que acabou gerando a ideia do renascimento dessas marcas foi um passeio por Hausvogteiplatz, o antigo centro do distrito de vestuário judeu.”

A moda fora um dos maiores setores da Alemanha na virada do século XX, com mercadorias exportadas para a Holanda, a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e o Brasil. A maioria das empresas pertencia a judeus e era composta por eles. As duas maiores eram a Manheimer, que criou um dos primeiros sistemas de reprodução de tamanhos (em oposição ao feito sob medida para cada indivíduo), e a Hermann Gerson, que vestia a corte real da Prússia.

No período entre as guerras, Berlim foi o maior centro de produção em massa de luxo na Europa e as ruas da cidade viviam cheias de homens e mulheres elegantemente vestidos, cujas roupas eram documentadas em ilustrações para revistas da época.

De acordo com a lei alemã, uma vez que uma marca registrada tenha passado cinco anos inativa, ela pode ser cancelada e readquirida. Assim, cerca de dez anos atrás, a Jandorf, que além de Eckstein inclui o advogado Matthias Düwel e Christian Boros, guru da publicidade e colecionador de arte, além de mais dois parceiros, começou a reunir nomes em silêncio.

Embora nenhum deles seja judeu, decidiram que precisariam comprar a parte dos herdeiros dos fundadores, por isso começaram a rastrear membros vivos da família. Eles entraram em contato com Valentin em meados de 2018.

O processo parece simples. Essas pessoas, porém, não vieram do mundo da moda e estão trabalhando com marcas das quais muitas pessoas nunca ouviram falar, enquanto a maioria das marcas de luxo foi cuidadosamente cultivada e alimentada por mais de um século. E estão mexendo com as transgressões do passado em um país e em uma cidade que se tornaram uma potência econômica da Europa e a meca da arte contemporânea e das casas noturnas. Mas não da moda.

“O trabalho foi interrompido. Não temos o que a França, a Itália e a Inglaterra têm”, disse Margit Mayer, editora de estilo do “Berliner Zeitung” e chefe de criação da divisão de revistas da Berliner Verlag.

“É extraordinário que, tanto tempo depois da guerra, ainda estejamos redescobrindo isso”, disse Eckstein.

Embora o passado nazista de empresas como a Hugo Boss, que em 2011 se desculpou por ter usado trabalhadores de campos de trabalhos forçados depois que um livro que a própria empresa encomendou revelou que seu fundador era um membro leal do partido nazista, e a Adidas e a Puma, que foram criadas pelos irmãos Adolf e Rudolf Dassler, eles também membros do partido, tenha sido explorado e reconhecido, pouco foco foi dado às empresas que desapareceram durante o regime nazista.

O primeiro livro de Westphal sobre o assunto foi publicado em 1992.

Em 2000, um memorial composto por três espelhos inclinados, como os espelhos que você pode encontrar em um provador, foi erguido na Hausvogteiplatz em homenagem aos trabalhadores e aos proprietários judeus do setor. Placas nos degraus que levam do metrô às ruas exibem os nomes dos negócios que foram destruídos.

Em 2007, a Bloomsbury publicou um livro de Roberta Kremer intitulado “Broken Threads: The Destruction of the Jewish Fashion Industry in Germany and Austria” (Linhas Quebradas: a destruição da indústria da moda judaica na Alemanha e na Áustria, em tradução literal), baseado em uma exposição no Centro de Educação do Holocausto de Vancouver. Em 2017, a Comissão da Geórgia sobre o Holocausto projetou uma exposição itinerante chamada “Fashioning a Nation: German Identity and Industry, 1914-1945” (Formando uma Nação: identidade e indústria alemãs, 1914-1945, em tradução livre).

Mas, embora os detalhes do que aconteceu sejam conhecidos, as próprias empresas e suas contribuições para a moda raramente são mencionadas. “Pergunte a alguém de 20 a 25 anos se conhece o nome Manheimer e ele dirá que não tem a mínima ideia do que se trata”, disse Westphal.

A Jandorf planeja contar a história de cada uma de suas marcas, por meio de textos e eventos on-line, como a inauguração da Manheimer, em que Eckstein entrevistou Valentin no palco. Ele está seguindo o manual do luxo e opta pelo “estilo atemporal” em vez de tendências.

Os produtos da Manheimer estão sendo produzidos na Itália – seu famoso “Berliner Mantel”, ou casaco de Berlim, no entanto, será feito em Berlim – com tecidos de Loro Piana, com o objetivo de competir com marcas como Caruso e Burberry. Michael Sontag, um jovem designer alemão que fundou sua própria linha feminina em 2009, é o consultor criativo.

A Manheimer venderá suas criações diretamente aos consumidores on-line, com preços que variam de mil a 1.500 euros (US$ 1.100 a US$ 1.660) para os ternos; as camisas saem por volta de 189 euros, e os casacos de caxemira, 2.500 euros. A Jandorf é uma empresa privada, e Eckstein se recusou a divulgar informações financeiras específicas, mas disse que o investimento foi grande.

Se tudo correr como planejado, a moda feminina da Manheimer logo virá. E o mesmo será feito com outra marca – uma linha de cristais chamada Josephinenhütte, fundada em 1842 – até o fim do ano.

“Será que isso vai trazer de volta a memória, o estilo e a classe que eles tinham na década de 1920, ou é apenas uma manobra de marketing?”, questionou Westphal sobre a Manheimer. “Não sei. Mas talvez seja o suficiente para enviar um sinal para a geração mais jovem de que isso é, pelo menos, parte de sua história. Não é uma parede em branco.”

Talvez não importe por que a história está sendo contada, desde que seja contada, e as marcas de moda perdidas da Alemanha finalmente terão sua vez.

“A maioria das pessoas não percebe que, durante a Noite dos Cristais, quando os nazistas estavam queimando livros, estavam também queimando roupas e tecidos. Trazer isso de volta à luz parece muito importante hoje”, disse Valentin, que está planejando se mudar do Brasil para Berlim quando se aposentar, no ano que vem, para trabalhar com a Manheimer.