Com boicote à Rússia, de onde EUA e Europa vão comprar petróleo e gás?

EUA e União Europeia até podem suspender comprar de óleo russo como forma de influenciar guerra da Ucrânia, mas alternativas não são fáceis
 (Daniel Acker/Bloomberg)
(Daniel Acker/Bloomberg)
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Victor Sena

Publicado em 07/03/2022 às 17:46.

Última atualização em 08/03/2022 às 13:57.

Mesmo antes de a Rússia invadir a Ucrânia, o barril de petróleo já beirava 100 dólares e os combustíveis em alta não saíam da pauta. Tanto em Brasília, quanto na geopolítica. Isso porque a retomada da pandemia aumentou a demanda de energia sem que a oferta fosse compensada. Em 2021, a gasolina e os transportes foram os vilões da inflação de mais de 10% no Brasil.

Depois de impor fortes sanções à Rússia, os Estados Unidos e a União Europeia consideram parar de comprar óleo e gás de Putin. Até agora, essas commodities ficaram de fora das sanções impostas e permanecem como umas das últimas opções do ocidente contra o país. 

Nesta terça-feira, o presidente dos EUA, Joe Biden, anunciou que os Estados Unidos proibirão importações de petróleo e gás russos em meio à guerra na Ucrânia.

O possível boicote foi anunciado pelo secretário de estado americano, Antony Blinken, em uma entrevista à CNN. Ele disse que o país avalia suspender as compras de petróleo e o gás. Atrás dos Emirados Árabes e da Arábia Saudita, a Rússia é o maior exportador de petróleo do mundo. Ela tem 11% do mercado mundial e produz 10 milhões de barris por dia.

"Neste momento estamos conversando com nossos parceiros e aliados europeus para examinar de forma coordenada a possibilidade de proibir as importações de petróleo russo, mas garantindo que haja uma oferta suficiente de petróleo no mercado", disse Blinken

Com um boicote à energia russa, seria necessário encontrar um nova fonte no curto prazo. Já que a Europa, principalmente, é cliente e dependente da energia de Vladimir Putin.

Segundo a Agência Nacional de Energia, de todo o gás natural que o continente consome, 40% vêm do país, principalmente via gasodutos que cortam o leste. Em 2021, a União Europeia importou em média mais de 380 milhões de metros cúbicos por dia de gás por gasoduto da Rússia, ou cerca de 140 bilhões de metros cúbicos em todo o todo. Além disso, cerca de 15 bilhões de metros cúbicos foram entregues na forma de gás natural liquefeito (GNL).

Os Estados Unidos tem mais capacidade de veto, mas também influenciariam menos Putin. Isso porque apenas 3% de sua importação de petróleo é russa.

Depois que a fala de Blinken veio à tona, o barril de petróleo atingiu 140 dólares nesta segunda-feira, dia 7. As previsões do Bank Of America são de que se houver um boicote à Rússia, podem faltar 5 milhões de barris de petróleo por dia no mercado internacional, e assim o preço do barril chegaria fácil a 200 dólares.

Gazprom

Gazprom (Gazprom/Divulgação)

Sem saídas fáceis à vista, a revista especializada em economia The Economist já fala que um novo crash do preço do combustível fóssil se aproxima.

De onde comprar o petróleo?

Com esse cenário extremo em jogo, analistas do setor ouvidos pela EXAME apontam que as saídas são poucas. A Europa até pode tentar outros fornecedores de gás, como o Qatar e Argélia, mas ele seria entregue de forma líquida em navios. Assim, custa mais do que via os gasodutos.

Para substituí-lo, o carvão mineral é uma opção, sobre a qual o continente se industrializou no século XX, mas é muito mais poluente. Apesar de ser fóssil, o gás natural emite pouco dióxido de carbono.

"Apostar no carvão é ir na contramão do que o bloco europeu faz, do que vem fazendo em termos de energia. Na conjuntura, há complicações que deixam a Europa refém do gás e é muito difícil achar uma solução de curto prazo", opina Ilan Albertman, analista da Ativa Investimentos.

Para Rafael Chacur, da SFA Investimentos, encerrar a comprar de gás russo e voltar a queimar carvão de forma emergencial poderia ajudar na questão geopolítica e até forçar a Europa a acelerar a transição energética para uma matriz verde, mas a questão crucial é se a sociedade europeia toparia esses ônus para encerrar a guerra.

A Agência Internacional de Energia publicou um relatório em que apontas 10 caminhos para a Europa ficar menos dependente do gás russo.

As medidas poderiam ser adotadas no curto prazo e reduziria em 50 bilhões de barris por ano a importação europeia da Rússia. A Agência afirma que o ideal é apostar em energias limpas, mas seus resultados vem no médio prazo. Por isso, no curto prazo, é necessária uma cooperação internacional.

As orientações são:

  • Não fazer novos contratos com a Rússia;
  • substituir os suprimentos russos por gás de fontes alternativas como Azerbaijão e Noruega;
  • introduzir obrigações mínimas de armazenamento de gás para aumentar a resiliência do mercado;
  • Acelerar a implantação de novos projetos eólicos e solares;
  • Maximizar a geração a partir de fontes de baixa emissão ​​existentes: bioenergia e nuclear
  • Decretar medidas de curto prazo para proteger os consumidores vulneráveis ​​dos preços altos
  • Acelerar a substituição de caldeiras a gás por bombas de calor nas casas
  • Melhorar a eficiência energética em edifícios e indústria
  • Incentivar que consumidores ajustem o termostato, economizando gás
  • Intensificar os esforços para diversificar e descarbonizar as fontes de flexibilidade do sistema elétrico

Estima-se que metade da receita fiscal dá Rússia vem do óleo e gás, via suas empresas Rosfnet e Gazprom.

O boicote da última semana já tem causado efeitos à economia do país, e há previsões que mostram uma perspectiva para a queda no PIB de 11%.

Quanto ao petróleo, os caminhos são até maiores, mas ainda assim difíceis.

"Ao se acelerar um acordo com o Irã, se colocaria 1,5 milhão de barris no mercado. Um acordo com a Venezuela também poderia aumentar em cerca de 1 milhão de barris. E esse próprio valor somado, de 2 a 2,4 milhões poderiam vir da própria Opep, que tem países como Arábia Saudita", explica Rafael Chacur, analista da SFA.

O problema é para conciliar o interesse de todos esses produtores. A própria Opep, que é um cartel, vinha sendo acusada de não aumentar a produção para manter os preços altos mesmo antes da Guerra.

A Agência Internacional de Energia prevê que a organização esteja com uma ociosidade de 4 milhões de barris por dia. Ao todo, ela produz 33 milhões. Dentro do grupo, estão grandes produtos, principalmente do Oriente Médio e África, como Arábia Saudia, Irã Emirados Árabes, Argélia e Nigéria.

"Para a Opep voltar a produzir na média histórica, teria que colocar dois milhões de barris a mais por dia", destaca Rafael Chacur.

Assim como Chachur, Ilan entende que uma renegociação sobre o acordo nuclear com Irã pode ajudar no aumento da oferta.

"É difícil substituir até em soluções mais simples, como importar de parceiros, via a Opep. Os países da organização estão com dificuldade de aumentar a oferta e tem países com interesse em manter o preço o auto, mas de outro lado os EUA e aliados fazem pressão para a oferta. A Arábia Saudita fica no meio".

Outras fontes como o próprio pré-sal na costa brasileira e as minas de gás de xisto nos Estados Unidos não dariam conta de ajudar a melhor essa oferta em casa de boicote à Rússia.

No caso do pré-sal, as 13 novas plataformas que a Petrobras está construindo para expandir sua produção ainda não estão prontas, e outros parceiros internacionais também começaram a produzir em campos do pré-sal recém-leiloados a partir de 2019.

Já os campos de xisto, nos Estados Unidos, não devem receber investimento devido principalmente à agenda ESG de investidores.

Quanto ao preço em alta, Ilan Albertman não prevê perspectivas de estabilização:

"Já tinha um descompasso entre a oferta e uma recomposição antes da guerra. Mesmo num cenário positivo, a recomposição da oferta se daria em uma velocidade inferior. Diante dessa uma volatilidade muito grande, os preços sobem e as ações globais caem, até mesmo as de petróleo, com o prêmio de risco global em também. Assim o petróleo extrapola os próprios limites de preço, com essa tensão global”.

Combustíveis no Brasil

Há pelo menos um ano, com o ciclo de alta do petróleo anterior ao da guerra, a alta dos combustíveis é assunto no Brasil. No começo de 2021, ruídos na comunicação entre o presidente da República Jair Bolsonaro e o ex-presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, sobre a política de preços da companhia levaram à demissão do CEO.

Na época, Jair Bolsonaro já criticava a política de paridade internacional de preços de derivados, quem seguem o barril de petróleo.

Nesta segunda-feira, com a disparada do barril e antevendo algum possível aumento da gasolina e diesel, Bolsonaro voltou a criticar a empresa.

Dentro do Congresso, deputados e senadores têm tentado articular algum mecanismo de política pública para amortecer a alta dos combustíveis em ciclos de alta. As propostas incluem fixar o percentual do imposto ICMS nos estados é um fundo de amortização feito a partir de dividendos e verba de leilões de campos de petróleo.