Sem viagens, reservas de longo prazo no Airbnb sobem 24% no Brasil

Brasileiros alugam casas por um mês para se afastar de familiares do grupo de risco, diz a empresa. Mas reservas em cidades turísticas caíram mais de 70%

O desafio sem precedentes vivido pelo setor de turismo em meio ao coronavírus no mundo, com voos e viagens canceladas e fronteiras fechadas, também se reflete no Brasil. Um dos maiores símbolos é a plataforma de hospedagem Airbnb, que conecta proprietários a viajantes ou outras pessoas que queiram alugar temporariamente um espaço.

Por ser altamente ligado a viagens, o Airbnb sofre como nunca na crise do coronavírus. Um levantamento exclusivo feito a pedido da EXAME pela empresa de inteligência AirDNA, que compila de forma independente dados do Airbnb em todo o mundo, mostrou como vai a taxa de reservas em algumas das principais cidades turísticas do Brasil. Os resultados são pouco animadores.

O número de novas reservas em todo o país caiu 74% na semana iniciada em 5 de abril ante a mesma semana de janeiro, antes da pandemia. Como o começo do ano é período de alta temporada no Brasil, parte da queda pode decorrer desta mudança de estação. Mas como muitas das reservas são feitas para o futuro, a tendência é também que parte do resultado tenha sido impacto pelo adiamento dos planos de viagem dos brasileiros.

No litoral norte do estado de São Paulo, em cidades como Caraguatatuba e Ubatuba, as reservas caíram mais de 80% no período. Em Santos, a queda foi de 60%.

Nas principais capitais do Nordeste, houve queda entre 50% (em Aracaju, no estado de Sergipe) e mais de 70% (em Fortaleza, no Ceará, Salvador, na Bahia, e Recife, em Pernambuco).

Mesmo na cidade de São Paulo, cujo turismo é majoritariamente de negócios, a queda no período foi de 73%. Entre 5 e 12 de janeiro, haviam sido feitas 7.064 novas reservas. No mesmo período de abril, foram 1.921 novas reservas. A explicação vem sobretudo do cancelamento de feiras, shows e eventos de negócios programados para o primeiro semestre. Não se sabe sequer se alguns destes eventos voltarão a acontecer ainda em 2020.

A cidade do Rio de Janeiro teve queda de 63%, menor do que em Angra dos Reis, no mesmo estado, cujas reservas despencaram 74%. O Rio foi a cidade com maior penetração do Airbnb no Brasil tanto no período analisado em janeiro quanto em abril, seguida por São Paulo.

Não mais temporário

Com a queda abrupta nos planos de viagem, a empresa vem precisando se reinventar e apresentou no mês passado um novo modelo de negócio para os próximos anos. A mudança mais gritante é de posicionamento: o presidente do Airbnb, Bryan Chesky, disse que a companhia vai passar a focar também em estadias de longo prazo, não só para viajantes, mas para trabalhadores e estudantes.

Procurada pela EXAME, a empresa afirmou por meio de sua assessoria de imprensa no Brasil que já está vendo alta neste tipo de reserva no país e em todo o mundo. No Brasil, o número de reservas mais longas (acima de 28 dias) foi 24% maior em março do que no mesmo período do ano passado, segundo dados oficiais do Airbnb.

A empresa afirma que este tipo de reserva está sendo aceita, no mundo, por 80% dos anfitriões (como são chamados os proprietários que alugam suas casas no Airbnb).

Um dos motivos é a busca por estadia fora de casa para pessoas que moram com familiares do grupo de risco da covid-19, como idosos. “Tem havido, em diversos centros urbanos do Brasil, um aumento da demanda de hóspedes por estadias mais longas nos mesmos municípios em que moram”, diz a empresa, em nota.

Segundo o Airbnb, esse tipo de reserva também teve valor médio mais barato no Brasil. No mundo, metade dessas acomodações têm desconto caso o hóspede fique por mais de um mês, segundo dados oficiais da empresa.

Outro levantamento publicado pela AirDNA mostra que, no mundo, cresceu o número de reservas feitas em cidades menores ou rurais. O faturamento do Airbnb em áreas rurais nos EUA subiu 30% em março, cerca de 280 milhões de dólares, saltando mais de cinco vezes em alguns lugares. Em áreas urbanas, o faturamento foi 75 milhões de dólares menor. Reservas em Manhattan, na cidade de Nova York, e em Nova Jersey caíram 66%. Esse tipo de constatação é mais difícil de ser feita no Brasil, já que o número de cidades interioranas atendidas ainda é menor, diz a AirDNA.

Ao lado de negócios como agências de viagem, hotéis e companhias aéreas, o Airbnb faz parte de um ecossistema de turismo que foi duramente afetado por restrições de circulação de pessoas e viagens. A AirDNA calcula que, no mundo, houve uma queda de 32% no faturamento do Airbnb entre fevereiro e março e de 25% na comparação com março de 2019.

O setor de hotelaria tradicional no Brasil também deve sofrer imensamente com a crise. A Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) estima a falência de 10% dos hotéis brasileiros. Já a Confederação Nacional do Turismo (CNTur) projeta que 30% dos restaurantes e similares não suportarão a falta de clientes — o que levaria a cerca de 200.000 estabelecimentos fechados.

Novos rumos

A crise pega o Airbnb em um momento de expansão. A empresa vinha em um processo de aumentar sua oferta nos países em que opera para além das cidades mais óbvias, conforme mostram dados divulgados à EXAME no ano passado. Em 2011, somente 12 cidades tinham mais de 1.000 anúncios de locação na plataforma, isto é, com ampla disseminação do Airbnb. Hoje, quase 1.000 cidades chegaram a essa faixa.

Além disso, 92% de todas as chegadas de hóspedes já ocorriam fora das dez maiores cidades do Airbnb. Em 2011, esse número era de cerca de 60%. A plataforma está disponível em mais de 100.000 cidades em 200 países. 

Criado em 2008, o serviço chegou ao Brasil em 2014, de olhos nos eventos internacionais que estavam para acontecer por aqui, como a Copa do Mundo de futebol no mesmo ano e as Olimpíadas de 2016, no Rio. A empresa vinha crescendo no país com a expansão para novas cidades: em 2018, último ano com dados divulgados, foram 3,7 milhões de hóspedes no Brasil, ante 600.000 em 2016.

O Airbnb não divulga oficialmente outros números específicos sobre o Brasil, mas afirma que gerou 7,7 bilhões de reais em impacto econômico no país em 2018, incluindo refeições e outros gastos que os turistas têm além de hospedagens. Nesse ranking, o Brasil é o 13º com maior impacto econômico do Airbnb no mundo, informação divulgada pela empresa em julho deste ano. Em 2018, último ano com dados divulgados, foram 3,7 milhões de hóspedes no Brasil, ante 600.000 em 2016.

Tentando apresentar novos formatos em meio à crise, o Airbnb também vai intensificar seu foco no que chama de “experiências”. A empresa lançou no último dia 9 de abril uma plataforma em que anfitriões especialistas em todo o mundo oferecem atividades de lazer online.

O projeto ainda não está disponível no Brasil, mas brasileiros podem se registrar para participar de experiências oferecidas em outras regiões do mundo. São 50 opções na plataforma, em que anfitriões de mais de 30 países ensinam, por exemplo, meditação, receitas ou truques de mágica.

Os projetos de experiência já vinham sendo novidade na plataforma nos últimos anos. No geral, são parcerias com os anfitriões selecionados (os chamados superhosts) para passeios com os viajantes e outras atividades.

“Embora esteja claro que o coronavírus terá impacto no segmento de viagens e turismo globalmente, essa indústria é umas das maiores e mais resilientes do mundo, e vai se recuperar, pois o desejo de viajar e ter novas experiências é permanente”, disse a empresa.

A companhia criou um fundo global de 250 milhões de dólares para cobrir os anfitriões nos custos de reservas canceladas durante a pandemia. As taxas de cancelamento deixaram de ser cobradas de hóspedes e proprietários. Outro fundo, de 17 milhões de dólares, está sendo destinado a ajudar financeiramente os anfritriões mais frequentes — já que muitos tiram toda ou grande parte da renda dos aluguéis via Airbnb. Os super anfitriões que precisem de ajuda para pagar financiamento ou aluguel receberão 5.000 dólares.

Antes da crise, o Airbnb planejava abrir capital em 2020. No começo do ano e antes dos últimos aportes feitos para reforçar o caixa nos últimos dois meses, a empresa era avaliada em 31 bilhões de dólares.

No último mês, a empresa levantou no mercado privado 2 bilhões de dólares. Em 7 de abril, o primeiro 1 bilhão de dólares veio de uma rodada de investimento liderada pelas empresas de capital de risco Silver Lake e Sixth Street Partners. Uma semana depois, em 15 de abril, a companhia levantou outro 1 bilhão de dólares em dívidas, novamente com a participação de Silver Lake e Sixth Street, além de outros fundos.

A companhia diz que parte do dinheiro irá para o fundo de apoio aos anfitriões. O montante também deve reforçar o caixa da empresa que, apesar das mudanças de posicionamento, deve continuar sofrendo com queda na receita nos próximos meses.

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