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Com 500 mil assinantes, Brasil Paralelo quer evitar polêmicas e sonha ser "a Disney brasileira"

Empresa dobrou de tamanho em 2022, para R$ 150 milhões, e tem o desafio de manter o ritmo num novo cenário em 2023

Filipe Valerim, Lucas Ferrugem e Henrique Viana: apesar de redução de equipe, planos seguem ambiciosos (Brasil Paralelo/Divulgação)

Filipe Valerim, Lucas Ferrugem e Henrique Viana: apesar de redução de equipe, planos seguem ambiciosos (Brasil Paralelo/Divulgação)

Lucas Amorim
Lucas Amorim

Diretor de redação da Exame

Publicado em 17 de fevereiro de 2023 às 15h26.

Última atualização em 17 de fevereiro de 2023 às 15h56.

A Brasil Paralelo começa 2023 com um desafio para lá de particular: mostrar que é uma mediatech, e não um braço de conteúdo do bolsonarismo. A companhia, criada há seis anos em Porto Alegre, tem uma ampla e bem equipada sede, na Avenida Paulista, em São Paulo. E fechou 2022 com uma marca de causar inveja nos principais veículos de mídia do Brasil: ultrapassou a marca dos 500 mil assinantes.

O ritmo é intenso. A empresa voltou a dobrar de tamanho em 2022, passando de R$ 67 milhões para R$ 150 milhões de faturamento. A receita vem da enorme leva de clientes interessados em pagar para consumir seus documentários, sua curadoria de conteúdo e seus cursos. A empresa segue fiel a seus princípios de não receber recursos públicos ou incentivos governamentais. Mas sabe que para manter o ritmo precisará ampliar o foco, tanto de temáticas quanto de estratégia. Publicidade é uma possibilidade no futuro, por exemplo.

Quando a EXAME visitou a sede da empresa, no início de fevereiro, seus designers e editores trabalhavam na finalização de uma série de documentários sobre o Carnaval. A pegada visa reforçar a linha editorial conservadora. Em linhas gerais, liberdades que antes ficavam restritas aos dias de folia agora teriam invadido o dia a dia. O tom de crítica está lá; o apuro técnico e o cuidado no lançamento, também.

"O público da empresa sempre fomos nós, que não éramos de esquerda. Somos liberais na economia e conservadores nos costumes. Mas não somos a direita pró-ditadura. O mundo tem mais matizes", diz Henrique Viana, fundador e CEO da Brasil Paralelo. A empresa foi bastante criticada nos últimos anos por conteúdos como o documentário 1964: o Brasil entre armas e livros, que relativizam o golpe militar de 1964 e a ditadura.

A Brasil Paralelo, Viana faz questão de pontuar, nasceu antes do fenômeno do bolsonarismo, em 2016, no caldeirão do impeachment de Dilma Rousseff. A ideia era oferecer cursos e conteúdo de cultura e política para uma franja da população que, mais tarde, abraçaria Bolsonaro com fervor. "Não somos intelectuais. Somos tradutores de um conteúdo que estava disperso", diz Viana.

"Queríamos mostrar que o impeachment não ia resolver."Henrique Viana

O primeiro produto de sucesso foi uma série de documentários chamada Congresso Brasil Paralelo, que visava "fazer o maior diagnóstico já feito sobre a situação econômica, política e cultural do Brasil". O documentário era gratuito, mas o material complementar custava R$ 300, o suficiente para faturar R$ 1,3 milhão em 15 dias.

O modelo de negócios de documentários gratuitos e conteúdo complementar pago se manteve até 2020. As ofertas incluíam cursos para públicos nichados, como aulas sobre a formação do estado. Com Bolsonaro já no poder, a companhia teve um ano difícil em 2019. "Quase quebramos", diz Viana. Para voltar a crescer, a estratégia foi ampliar a sua oferta de valor mostrando que era "relevante" para seu público. O "Plano Patriota", sucesso instantâneo de vendas, custava R$ 10 por mês.

Em 2021, a Brasil Paralelo entrou no streaming, e passou a oferecer assinaturas que incluem filmes, séries e desenhos animados em parceria com grandes estúdios. A Sony foi o primeiro cliente. A proposta é oferecer conteúdo selecionado para o público conservador nos costumes e alinhado a uma direita liberal. "Resgatar os bons valores, ideias e sentimentos nos brasileiros", como diz o material de divulgação da companhia. Valores e sentimentos, claro, dentro do viés que a companhia julga os melhores para seu público. Todos os filmes, que incluem até a série Rocky, têm um vídeo de introdução dizendo por que o conteúdo é relevante, e uma análise posterior. "Ficção é a ferramenta mais poderosa de engajamento", diz Viana.

A companhia está produzindo seus próprios filmes de ficção. A estreia está prevista para até junho, com Oficina do Diabo, uma adaptação de Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, de C.S. Lewis. O diretor é Filipe Valerim, sócio-fundador da Brasil Paralelo. Na seleção do elenco e de fornecedores a empresa encarou desafios por sua postura política. Alguns atores e produtores não toparam participar. É uma situação com a qual os sócios estão acostumados, e não veem como um problema que coloque a empresa em risco.

O plano não é mudar a linha editorial para seguir crescendo. Mas evitar polêmicas, reconhece Viana, é essencial daqui para a frente "Polêmica cria problema para a empresa e o cliente", diz. "Temos compromisso de educar o público, com análises atemporais". De outubro para cá, desde que Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito, a Brasil Paralelo foi criticada por parte de seu público por conteúdos sobre temas menos quentes, digamos assim, como futebol e Varig.

A estratégia de sair dos holofotes foi proposital. Em outubro, às vésperas da eleição presidencial, o Tribunal Superior Eleitoral determinou a suspensão da exibição do documentário Quem mandou matar Jair Bolsonaro?, e suspendeu também a monetização dos canais da empresa. A Brasil Paralelo também tirou do ar um documentário sobre os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal. Os projetos, hoje, são vistos como "imprudência", pela companhia.

Como seguir engajando o público com pautas menos polêmicas é um desafio em aberto. O próprio conceito de o que é uma pauta polêmica é amplo. Em fevereiro, a empresa lançou um documentário sobre a Nicarágua, país que vem sendo tema de intenso debate entre direita e esquerda por prender e perseguir religiosos e intelectuais. O documentário Nicarágua — Liberdade Exilada, é uma grande aposta para este primeiro trimestre. Estão no forno ainda projetos sobre a história do comunismo, a história do Exército e sobre a "nova direita brasileira".

A Brasil Paralelo fechou janeiro com 555 mil assinantes, e projeta faturar R$ 250 milhões. A meta de longo prazo é das mais ambiciosas: ser a Disney brasileira. "Eles contaram a história de Hamlet com o Rei Leão. É isso que queremos fazer", diz Viana. Roberto Marinho, criador da Rede Globo, é uma de suas inspirações.

No curto prazo, os desafios estão batendo à porta. A empresa reduziu nas últimas semanas o quadro de funcionários de 292 para 240 no que chama de "adaptação à realidade atual". Anualmente, 20% do caixa é distribuído em bônus, e 20 dos funcionários já se tornaram sócios. O objetivo é abrir o capital e ir além do Brasil nos próximos anos.

Ser vista como uma empresa normal, que educa e engaja seu público, que tem ambições enormes para o negócio, mas que não insufla as massas. E mostrar que os ajustes de curto prazo não comprometem os objetivos para os próximos meses e anos. Eis os desafios da Brasil Paralelo de 2023 para frente. Não são poucos.

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