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A malharia gaúcha que está produzindo 1.000 cobertores por semana — todos para doar

Empresa conta com ajuda de guias turísticos para levar doações aos abrigos que necessitam

Suélen Biazoli, da Biamar Malhas: "estamos abertos a outros fornecedores de fios que quiserem doar matéria-prima" (Biamar/Divulgação)

Suélen Biazoli, da Biamar Malhas: "estamos abertos a outros fornecedores de fios que quiserem doar matéria-prima" (Biamar/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 18 de maio de 2024 às 14h28.

Última atualização em 18 de maio de 2024 às 14h29.

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Na serra gaúcha, uma malharia mudou parte de suas linhas de produção desde o início do mês. No lugar de moletons, calças e blusas, saem cobertores de cinco tecelagens da fábrica de 27.000 metros quadrados da Biamar, empresa de Farroupilha com 38 anos de história. 

Os cobertores produzidos, cerca de 200 por dia, são todos doados, destinados às vítimas das enchentes e da tragédia climática que assola o Rio Grande do Sul. 

“Na enchente de setembro, já tínhamos feito a doação de cobertores feitos com retalhos, subprodutos de nossa produção”, diz Suélen Biazoli, coordenadora de criatividade e estilo da Biamar Malhas e membro da segunda geração da família fundadora da malharia.

“Agora, fomos além, destinamos uma célula inteira de nossa fábrica para produzir os cobertores com tecido”, afirma.

Cada cobertor leva cerca de 25 minutos para ficar pronto e pesa cerca de um quilo. Na estampa, o mapa do Rio Grande do Sul. Além dos cobertores, a marca também estruturou a produção de luvas, meias e toucas exclusivamente para doação.

Qual é a história da Biamar

Criada há 38 anos em Farroupilha, na serra gaúcha, a Biamar tem na origem duas famílias, a Biazoli e a Marmentini. É daí que vem o nome da empresa, com as três primeiras letras de cada sobrenome. 

Atualmente, a empresa produz malhas que vende, principalmente, para o sul do país: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A produção é no modelo de malharia retilínea, quando, por meio de máquinas, peças tradicionalmente feitas de modo artesanal são produzidas com tecnologia. 

Hoje em dia, a empresa tem cerca de 500 funcionários. O faturamento não é divulgado, mas a empresa afirma que tem cerca de 10.000 clientes lojistas ativos. A venda para lojistas é a principal entrada de dinheiro no negócio. Anualmente, lançam cerca de 12 coleções, sendo duas principais e as outras em formato de cápsula, menores. 

Qual foi o impacto com as enchentes 

As enchentes em si não chegaram a Farroupilha, cidade que fica na região serrana do Rio Grande do Sul. Por lá, o grande problema foram as chuvas, mas principalmente em outras cidades, como Bento Gonçalves e Veranópolis. Na Biamar, não houve impactos de produção. 

O problema mesmo será com as vendas. Isso porque a maior parte dos lojistas que compram da empresa são do Rio Grande do Sul. E por conta de toda tragédia, as vendas, claro, não estão acontecendo.

“Maio costuma ser o melhor mês de vendas para malharias, porque é o mês em que o inverno começa a aparecer, sem contar o Dia das Mães”, diz Suélen. 

Como numa empresa de confecção, as coleções precisam ser produzidas bem antes, o estoque já existe. Em outras palavras, o negócio já teve os custos de produção. O desafio será girar essas vendas, agora. 

Apesar desses impactos, a malharia está investindo tempo e matéria-prima para doar os cobertores. “A solidariedade está no cerne das nossas famílias e da empresa”, afirma a diretora. 

Como estão sendo feitas as doações

Os cerca de 200 cobertores fabricados diariamente são frutos de uma ideia pensada a várias cabeças. Suelen viu a realidade na Região Metropolitana mais de perto porque seu marido é de lá. A equipe fabril veio com a solução de usar as cinco tecelagens, e o time de desenvolvimento pensou na ideia de colocar o mapa do Rio Grande do Sul na estampa.

Atualmente, a distribuição dos cobertores está sendo feita por meio de guias de turismo. Existe, nesse polo de confecção gaúcho, guias de turismo que levam lojistas de outros Estados a visitarem as malharias para fazerem compras. São esses guias agora que pegam os cobertores e levam a regiões mais afetadas, como Porto Alegre.

Para o tecido que está sendo usado nos cobertores, a malharia está usando a própria matéria-prima. Mas a cadeia de solidariedade é grande: produtores de fios começaram a doar, também, cargas específicas para a confecção dos cobertores. 

“Já recebemos uma carga nesta semana e outra deve chegar até quarta-feira”, diz Suélen. “E estamos abertos a outros fornecedores de fios. Quem quiser doar, colocaremos à disposição nosso espaço, nosso maquinário”. 

A Biamar garante que, enquanto houver demanda, o esforço não vai parar. 

“Vamos abraçar nossa população que tanto perdeu nessa tragédia, oferecendo o calor para ajudar a resgatar também a esperança nessa reconstrução do nosso estado". 

Negócios em Luta

A série de reportagens Negócios em Luta é uma iniciativa da EXAME para dar visibilidade ao empreendedorismo do Rio Grande do Sul num dos momentos mais desafiadores na história do estado. Cerca de 700 mil micro e pequenas empresas gaúchas foram impactadas pelas enchentes que assolam o estado desde o fim de abril.

São negócios de todos os setores que, de um dia para o outro, viram a água das chuvas inundar projetos de uma vida inteira. As cheias atingiram 80% da atividade econômica do estado, de acordo com estimativa da Fiergs, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul.

Os textos do Negócios em Luta mostram como os negócios gaúchos foram impactados pela enchente histórica e, mais do que isso, de que forma eles serão uma força vital na reconstrução do Rio Grande do Sul daqui para frente. Tem uma história? Mande para negociosemluta@exame.com.

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