A guerra na Ucrânia vai afetar o seu próximo voo

Restrições do espaço aéreo e a disparada do petróleo podem fazer os voos ficarem mais longos e mais caros
Avião da Aeroflot: companhia aérea russa sofre com sanções ao país (Getty Images/Anton Balakchiev/Stocktrek Images)
Avião da Aeroflot: companhia aérea russa sofre com sanções ao país (Getty Images/Anton Balakchiev/Stocktrek Images)
Por Luciana LimaPublicado em 02/03/2022 17:09 | Última atualização em 02/03/2022 17:48Tempo de Leitura: 5 min de leitura

As coisas não andam fáceis para as companhias de aviação na Rússia. Por um lado, a lista de países que fecharam seu espaço aéreo para aeronaves russas não para de crescer. Depois de toda a União Europeia e do Canadá, nesta terça-feira, 1º, foi a vez de os Estados Unidos banirem os russos de seu espaço aéreo.

Só que, conforme as tropas de Vladimir Putin avançam em território ucraniano, cresce também o número de sanções econômicas contra o Kremlin, impedindo não apenas as empresas de voarem.

Nesta quarta-feira, a Airbus se juntou à Boeing e anunciou que está paralisando seus serviços de suporte técnico e manutenção para as empresas de aviação russas.

A Rússia respondeu por 6% da capacidade aérea em 2021, segundo a consultoria IBA. Suas empresas de aviação têm um total de 332 jatos Boeing e 304 jatos Airbus, o que representa dois terços da frota da Rússia. Só na estatal Aeroflot, 59 das 187 aeronaves são da Boeing.

Mas ficar sem peças ou manutenção não é o único problema das companhias russas — elas também podem perder aeronaves. As locadoras de aviões da União Europeia têm até o dia 28 de março para rescindir os contratos com as operadoras russas e retomarem seus aviões.

A medida, que é parte do pacote de sanções imposto pela UE à Rússia, pode fazer as companhias perderem centenas de aviões até o final deste mês. A Aeroflot, principal companhia aérea russa, declarou que está avaliando o impacto das sanções, mas que 41% de seus aviões em operação são fabricados na UE.

E as consequências para o bolso das companhias aéreas russas já começam a aparecer. Embora a bolsa de Moscou continue fechada pelo terceiro dia seguido, nos últimos cinco dias em que permaneceu aberta, as ações da Aeroflot derreteram 35%.

“Embora essas companhias ainda tenham o mercado nacional, o impacto vai ser grande. E será um golpe ainda mais duro porque elas estavam em um processo de retomada pós-pandemia”, diz Renan Melo, advogado do escritório ASBZ Advogados e membro da Comissão Especial de Direito Aeronáutico da OAB.

Reflexos globais

Só que os prejuízos não ficarão restritos apenas às companhias aéreas russas. Sem acesso ao espaço aéreo da Rússia, muitas empresas terão que fazer desvios de rotas, tornando os voos mais longos e mais caros.

“As restrições não ficam circunscritas ao espaço aéreo da Ucrânia e da Rússia. A European Union Aviation Safety Agency já ampliou a zona de alerta para um raio de 400 quilômetros, o que vai obrigar que voos com destinos para o leste europeu e partes da Ásia tenham de ser desviados”, continua Melo.

A finlandesa Finnair é uma que já anunciou o cancelamento dos voos para o Japão, Coreia e China. Junto com o anúncio, a companhia também retirou as previsões de lucros para os investidores no próximo trimestre, destacando que os “impactos financeiros negativos serão significativos, especialmente se a situação continuar”. Na segunda-feira, 1º, as ações da empresa caíram 21%.

Caminho semelhante deve acontecer com as companhias americanas. Ao todo, a Rússia proibiu 36 países de operar em seu espaço aéreo, mas ainda não estendeu a proibição para as aeronaves dos EUA. Só que companhias como United Airlines e Delta já anunciaram que estão evitando o espaço aéreo russo.

“Pela sua localização, os Estados Unidos utilizam bastante o espaço aéreo russo. Um voo de Nova York para Pequim, por exemplo, passa pela Rússia. Os desvios, escalas e outras medidas devem encarecer em cerca de 20% o custo para as empresas americanas operarem nessas rotas”, diz Thiago Nykiel, CEO da Infraway Engenharia, especializada em projetos de infraestrutura.

O fator petróleo

O aumento no custo para operar soma-se a outro fator que deve pressionar o caixa das companhias aéreas: o aumento no preço do petróleo. Com a invasão pela Rússia, uma das maiores produtoras do combustível do mundo, o preço do barril da commodity atingiu o maior patamar desde 2014.

“O combustível é responsável por 20% a 30% da despesa total de uma companhia aérea, qualquer subida afeta a operação. Como consequência, além do reajuste de tarifas podemos ver também empresas cancelando rotas menos rentáveis”, diz Melo, do ASBZ Advogados.

Os especialistas são unânimes em dizer que o conflito na Ucrânia pode atrapalhar ainda mais a retomada das companhias aéreas, que vinham lutando para se reerguer pós-pandemia.

“Segundo dados da International Air Transport Association [IATA], o mercado de aviação em 2022 ainda ficaria 12% abaixo dos níveis pré-pandemia, registrados em 2019. Esse dado foi divulgado antes desse cenário bélico, então, a tendência é ainda mais desanimadora”, afirma Melo.

Nykiel, da Infraway, concorda. “O mercado de aviação é um setor com margens baixas, índice de endividamento alto, vamos ver um impacto gigantesco para as companhias aéreas russas e para as demais”, afirma.

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