Gabriel Boric é o símbolo da geração que foi às ruas para mudar o Chile

Uma geração de jovens chilenos liderou protestos considerados históricos nos últimos 15 anos e questionou o status quo no Chile. A candidatura de Gabriel Boric foi seu símbolo
Boric ao votar ontem em sua região natal: presidente eleito do Chile nasceu no extremo sul do país, longe da capital Santiago (Paul Plaza Amar/Getty Images)
Boric ao votar ontem em sua região natal: presidente eleito do Chile nasceu no extremo sul do país, longe da capital Santiago (Paul Plaza Amar/Getty Images)
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Carolina Riveira

Publicado em 20/12/2021 às 08:10.

Última atualização em 20/12/2021 às 18:52.

Quase uma década antes que protestos varressem as ruas do Chile no fim de 2019, grupos de estudantes universitários e secundaristas chilenos fizeram em 2011 uma das maiores mobilizações da história do país. À frente das marchas estavam jovens que viriam a ser importantes figuras políticas chilenas, e entre eles Gabriel Boric, eleito presidente no Chile neste domingo, 19, ao vencer o ultradireitista José Antonio Kast com 55,9% dos votos.

As marchas de 2011 são consideradas as maiores desde que acabara a ditadura de Augusto Pinochet, em 1990. Os manifestantes pediam - e conseguiram, em partes - gratuidade na educação superior chilena, que era majoritariamente privada e com preços altos para as famílias, mesmo nas universidades públicas.

Anos antes, também havia estourado no país a chamada Revolución dos Pingüinos, em 2006, liderada por estudantes secundaristas e considerada um marco. Assim, com os atos de 2011, a educação foi colocada de vez em pauta, e levaria depois a um questionamento mais amplo sobre todo o modelo de Estado chileno.

É essa a geração que fez de Gabriel Boric um nome conhecido em todo o Chile há anos, e que deu ao candidato do Apruebo Dignidad força política suficiente para chegar ao segundo turno.

Os protestos de 2011, inclusive, aconteceram no que era o primeiro governo do presidente de direita Sebastián Piñera, hoje novamente mandatário e cujo caminho com a geração de Boric se cruza mais uma vez nesta transição de poder.

A presidente de centro-esquerda que alternou o poder com Piñera nos últimos anos, Michelle Bachelet, também promoveria algumas reformas na educação pressionada pelos estudantes, com gratuidade para as fatias mais pobres.

Mas apesar dessas pequenas vitórias para os manifestantes, a grande insatisfação dos jovens estudantes junto a Boric (e da população chilena como um todo, ficaria claro depois) explodiu mesmo em 2019. As manifestações de outubro a março começaram pelo aumento de 30 pesos no metrô em Santiago, e depois se espalharam para todo o país, conhecidas como Estallido Social ou Primavera Chilena.

Após os protestos, os manifestantes - Boric incluso, desta vez já como deputado eleito desde 2014 - conseguiram apoio popular para mudar a Constituição do Chile, herança da era Pinochet. E, de quebra, levaram a popularidade do presidente Piñera à lona, em meio à dura repressão dos atos pelas forças policiais, deixando 34 mortos.

"Foi-se criando uma insatisfação generalizada por anos com a forma como o Estado chileno se desenhou, e que de certa forma explodiria em 2019", disse à EXAME antes das eleições o cientista político André Kaysel, especialista em estudos latino-americanos no Departamento de Ciência Política da Universidade de Campinas. "A candidatura de Boric é a expressão desse movimento que vinha se construindo."

Apoiadoras de Boric comemoram vitória: mulheres foram fatia essencial do eleitorado para o candidato do Apruebo Dignidad (Marcelo Hernandez/Getty Images)

Do outro lado, após dois anos de certa instabilidade política no Chile desde os atos de 2019, há em grande parte da população o desejo de normalidade a partir de agora.

Opositor de Boric à Presidência, Kast usou esse fato como grande mote de campanha, afirmando que queria trazer de volta a "paz" e a "segurança" no Chile. Com essa bandeira, o ultradireitista chegou a fazer elogios à ditadura de Pinochet, e recebeu muitos votos de eleitores mais velhos e conservadores, incluindo em áreas de conflitos, ao norte (que enfrentam onda de imigração vinda de Haiti e Venezuela) e ao sul (onde há confrontos por terras).

Nessa eleição conturbada, a cartada decisiva para a vitória de Boric foi, exatamente, ter conseguido levar às urnas jovens herdeiros da Primavera Chilena, muitos que nunca haviam participado tão ativamente.

O segundo turno entre Boric e Kast no domingo teve a participação de 8,3 milhões de eleitores, o equivalente a 55% de comparecimento. É a menor abstenção desde a adoção do voto facultativo no Chile, e presença muito maior do que no primeiro turno em novembro, quando só 47% votaram. Isso faz de Boric o presidente eleito com a maior quantidade de votos desde a redemocratização chilena.

No primeiro turno, houve alta abstenção entre jovens, o que impactou Boric, que terminou dois pontos atrás de Kast. No segundo, a história se inverteu, mostrando um claro conflito geracional na preferência do eleitorado chileno.

As mulheres, grupo no qual Boric tem maior aprovação, também foram decisivas. O movimento feminista chileno foi um dos grupos a liderar os atos de 2019, e está amplamente contemplado no programa de Boric, em pontos como equidade salarial, programas sociais, defesa do direito ao aborto e medidas contra a violência. Kast, por sua vez, também comprou briga com esta fatia do eleitorado ao propor que somente mulheres casadas recebessem benefícios sociais ou a extinção do Ministério da Mulher.

"Os temas dos direitos das mulheres têm tido um protagonismo nesta campanha que não tinham antes. Sempre houve apelações para as mulheres eleitoras, que são mais de 50% do eleitorado e tem abstenção menor historicamente. Mas hoje a agenda feminista está muito mais forte no debate, e jogou contra Kast no primeiro turno", disse em entrevista anterior à EXAME a cientista política Isabel Castillo, da Escola de Governo da Pontificia Universidad Católica (PUC-Chile) e do Centro de Estudos de Conflito e Coesão Social.

Do sul do Chile à liderança estudantil

Boric nasceu na cidade de Punta Arenas, no sul do país e a 3.000 quilômetros de Santiago, de uma família de ascendência croata (daí vem o sobrenome).

Sua origem longe da capital é considerada também um dos pontos fortes da candidatura, à medida em que os políticos progressistas de Santiago têm dificuldades históricas para chegar aos "rincões" do Chile. Boric exerce o cargo de deputado desde 2014 eleito por sua região, Magallanes y de la Antártica Chilena, e para onde se deslocou para votar no fim de semana.

A chegada do ex-líder estudantil à Presidência, a ser concretizada no ano que vem, é um grande marco para esta juventude chilena, com o eleito tendo apenas 35 anos, um dos mais jovens estadistas do mundo.

Além de Boric, uma série de outros nomes da histórica geração de protestos estudantis têm galgado espaço na política institucional. Com 25 anos naquele 2011, por exemplo, Boric venceria meses depois a então estrela do movimento estudantil chileno, Camila Vallejo, e se tornaria presidente da tradicional Federación de Estudiantes de la Universidad de Chile (FECh).

Hoje com 32 anos, Vallejo, como outros líderes daquelas manifestações, também é deputada. Se tornou membro do Partido Comunista chileno e fez parte da coalizão Apruebo Dignidad com Boric, sendo uma das principais pontes de negociação entre o ex-colega de faculdade e a ala mais radical da coalizão.

Também estão na base de apoio de Boric vários outros nomes daquele movimento, como Karol Cariola, do Partido Comunista, e o deputado e também porta-voz da campanha de Boric, Giorgio Jackson.

Os jovens chilenos que chegam ao poder têm ainda algumas peculiaridades em relação à antiga geração da esquerda latino-americana. Tanto Vallejo como Boric já se posicionaram contra violações de direitos humanos do regime de Nicolás Maduro na Venezuela; Boric também criticou Daniel Ortega na Nicarágua após acusações de que o presidente barrou opositores de concorrer, embora parte de sua coalizão tenha sido mais amena e gerado um racha entre a base de apoio.

É provável que essas várias visões entrem em choque agora no governo, e a ver como Boric, que é visto como moderado dentro da nova esquerda chilena, irá contorná-las. As forças políticas na região também estarão atentas para como o novo governo chileno irá se portar na relação com governos autoritários de esquerda na América Latina.

Boric ao final da campanha: candidato prometeu Estado de bem-estar social no Chile, mas terá desafios para cumprir o programa no Congresso (Marcelo Hernandez/Getty Images)

Dentro de casa, o novo governo Boric também enfrenta o desafio de um Congresso dividido entre esquerda e direita, o que pode dificultar reformas mais amplas que o presidente prometeu na campanha, como maiores investimentos sociais.

Além disso, termina, no ano que vem, a Convenção Constituinte eleita para escrever a nova Constituição, e o texto será referendado pela população na sequência. A Convenção foi eleita com maioria progressista, e deverá trazer mudanças profundas, dos costumes, como apoio ao aborto, ao papel do Estado, como em saúde, educação e Previdência.

Kast era contra a própria ideia da nova Constituição, e havia dúvidas sobre como seria a relação entre a Constituinte e o mandatário, caso o direitista fosse eleito. Com Boric, devem haver menos choques. O fato de Boric ter vencido não com margem pequena, mas com mais de 10 pontos de vantagem, dá força ao governo eleito para fazer essa transição. Mas fazer o caminho até a promulgação da nova Constituição, com mudanças amplas e que alteram um modelo de Estado de 40 anos no Chile, também deve ser um desafio ao novo presidente.

A geração de jovens chilenos foi às ruas e questionou o status quo no Chile como quase nenhuma outra. Agora, chegou a hora de, em vez de ser oposição, lidar com os desafios do poder de fato.

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