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Enquanto Anhangabaú trava, Ibirapuera testa modelo de concessão

Processo para romper contrato no centro de São Paulo expõe limites do modelo, enquanto Ibirapuera avança, apesar das críticas

Festival Turá, no Parque Ibirapuera (Turá/Divulgação)

Festival Turá, no Parque Ibirapuera (Turá/Divulgação)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 20 de abril de 2026 às 05h00.

Última atualização em 24 de abril de 2026 às 14h31.

A decisão da Prefeitura de São Paulo de iniciar o processo para encerrar a concessão do Vale do Anhangabaú recolocou no centro do debate um modelo que vem se expandindo nas grandes cidades: a gestão privada de espaços públicos.

Reformado com mais de R$ 100 milhões e concedido em 2021 ao consórcio Viva o Vale, liderado pela WTorre, o espaço se tornou um caso de tensão entre poder público e iniciativa privada. A gestão municipal aponta descumprimentos contratuais ao longo da operação e abriu caminho para a possível caducidade do contrato.

A concessionária contesta. Em nota enviada à EXAME, afirma que a medida é extrema e que o contrato prevê etapas anteriores, como a possibilidade de correção de eventuais falhas e reequilíbrio das condições. “A caducidade constitui medida extrema, que demanda a garantia do contraditório e da ampla defesa”, diz a WTorre.

O impasse expõe um ponto central, que é o fato de que o modelo de concessão ainda está em construção, e seus resultados variam bastante na prática.

A poucos quilômetros dali, outro caso segue trajetória oposta.

Desde 2020, o Parque Ibirapuera é administrado pela Urbia e se consolidou como um dos principais exemplos de concessão considerada bem-sucedida no país, apesar das críticas. O parque recebeu cerca de R$ 350 milhões em investimentos em infraestrutura, restauro, segurança e novos serviços, transformando-se em uma plataforma que combina uso público com geração de receita.

O Ibirapuera como ativo

Inaugurado em 1954, o Ibirapuera sempre ocupou um papel central na dinâmica urbana de São Paulo. Com mais de 1,5 milhão de metros quadrados, ajudou a consolidar a ideia de áreas verdes como parte estruturante da cidade. A concessão não mudou essa centralidade, mas alterou sua lógica de funcionamento.

Hoje, o parque opera também como um ativo econômico. O retorno financeiro vem de eventos, ativações de marca, patrocínios e exploração de serviços, reduzindo a dependência de recursos públicos e criando uma fonte de receita recorrente.

Na prática, o modelo combina fluxo intenso de pessoas com potencial de monetização. Uma equação que, no caso do Ibirapuera, tem se mostrado viável no médio e longo prazo. Esse formato transformou o parque em uma espécie de vitrine para a concessão de espaços públicos no Brasil.

Por trás dessa operação está uma empresa relativamente nova e uma história pessoal que se confunde com a do próprio parque.

A Urbia nasceu como braço da Construcap, grupo tradicional de engenharia fundado em 1944, a partir da leitura de que o mercado de concessões exigiria não apenas construção, mas capacidade de operar ativos no longo prazo. A empresa passou a disputar projetos de parques urbanos e naturais em todo o país.

O ponto de virada veio em 2019, quando o consórcio venceu o leilão para administrar o Ibirapuera e outros parques da capital paulista por 35 anos. O contrato previa investimentos robustos em troca do direito de exploração comercial — base do modelo que hoje sustenta a operação.

Desde então, a empresa expandiu atuação para ativos como o Parque Nacional do Iguaçu e os parques de Aparados da Serra e Serra Geral, consolidando-se como uma das principais gestoras privadas de parques no país.

À frente da operação está Roberto Capobianco — e, no caso do Ibirapuera, a relação é também pessoal. “O Parque Ibirapuera faz parte da história da minha família. Meu pai já frequentava a região antes mesmo da inauguração, e eu cresci dentro do parque”, afirma.

Ele nasceu em 1955, um ano após a abertura do espaço, e diz que o Ibirapuera sempre esteve presente na sua rotina. “Ao longo da juventude, foi onde eu corria, andava de bicicleta, participava de eventos. Era um espaço central na vida da cidade e na minha também.”

A decisão de entrar na concessão, segundo ele, veio dessa conexão. “Quando surgiu o edital, aquilo despertou imediatamente meu interesse. Era uma oportunidade de contribuir para preservar e desenvolver um patrimônio que sempre fez parte da nossa história.”

A criação da Urbia, nesse sentido, não foi apenas uma aposta de negócio, mas também uma tentativa de transformar vínculo em modelo de gestão.

Onde o modelo tensiona

O avanço desse tipo de gestão, no entanto, não ocorre sem atritos, e o Anhangabaú é o exemplo mais recente disso.

Diferentemente de um parque fechado e estruturado, o Vale é um espaço público aberto, inserido no centro da cidade e com dinâmicas mais complexas de uso, segurança e programação.

A própria WTorre destaca esse ponto ao mencionar os “desafios inerentes ao modelo pioneiro da concessão, especialmente por se tratar de espaço público aberto”.

O tema dos eventos também aparece como ponto de fricção. A concessionária afirma que, desde dezembro, não há programações noturnas por bloqueio imposto pela própria prefeitura, e não por restrição contratual.

A divergência revela um desalinhamento típico desse tipo de contrato: quem define, na prática, o limite entre uso público e exploração econômica do espaço.[/grifar]

Mesmo nos casos considerados bem-sucedidos, como o Ibirapuera, o modelo levanta questionamentos. A ampliação de eventos, a presença de marcas e a oferta crescente de serviços pagos fazem parte da lógica de viabilização econômica do parque. Ao mesmo tempo, alimentam discussões sobre como preservar o caráter público do espaço.

Para os gestores, o desafio é encontrar equilíbrio. A equação passa por garantir investimento e qualidade sem restringir o acesso — um ponto sensível em qualquer concessão desse tipo.

"O modelo de concessão busca justamente qualificar a experiência no Ibirapuera, garantindo que ele permaneça um espaço público, gratuito e diverso. A oferta de serviços e as parcerias com marcas são, hoje, o que viabiliza a manutenção e os investimentos de longo prazo, sem uso de recursos públicos. Atualmente, a operação do parque custa cerca de R$ 100 milhões por ano, valor que cobre desde a segurança patrimonial, limpeza, manejo da flora e paisagismo, insumo dos banheiros", explica Samuel Lloyd,  diretor da Urbia.

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