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Como a Volkswagen está tentando contornar a crise na China

A gigante automotiva alemã está tentando superar uma progressiva perda de participação em seu maior mercado de vendas

Volkswagen (Damir Sagol/Reuters)

Volkswagen (Damir Sagol/Reuters)

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Carlo Cauti

Publicado em 29 de novembro de 2022, 06h15.

O mercado automotivo chinês está se tornando cada vez menos âmbito de conquista para as montadoras ocidentais e cada vez mais um ecossistema altamente competitivo. As dificuldades dos grandes nomes do setor automotivo europeu são um sintoma claro dessa mudança.

A gigante alemã Volkswagen é um claro exemplo disso. A China é o primeiro mercado da montadora, com as vendas que deverão chegar em volta de 3,3 milhões de unidades em 2022. Um número semelhante ao de 2021, mas muito menor das previsões da casa de Wolfsburg, cujas análises estimavam vendas em 3,85 milhões de unidades. A queda de 14% foi provocada pela política zero-Covid imposta pelo governo chinês.

Os números da linha ID de carros elétricos também não brilharam, apesar de dobrar em 2021. Nesse segmento, a Volkswagen está longe do concorrente número um: a BYD. A montadora chinesa, que tem entre seus acionistas Warren Buffett há quase três décadas, possui um terço do mercado de carros elétricos da China. Um segmento que está literalmente decolando, com 25% das novas vendas, graças aos fabricantes locais.

Em setembro, a BYD vendeu quase cem mil carros elétricos, contra os 10 mil da Volkswagen. As vendas de veículos elétricos da VW na China totalizaram 112 mil unidades nos primeiros nove meses do ano, mais do que o dobro dos 49 mil de um ano antes, mas ainda bem abaixo dos 579.168 da BYD no mesmo período.

Segundo o The Wall Street Journal , a Volkswagem espera que sua participação de mercado na China em 2022 seja de cerca de 16%. Isso significaria 4% a menos que em 2019, segundo dados da Jato Dynamics.

Volkswagen ainda detém participação grande no mercado chinês

A Volkswagen ainda detém a maior participação de mercado entre as montadoras ocidentais na China. O gigante asiático tem sido, e ainda é, um pilar para os resultados trimestrais da casa alemã, sendo responsável por 37% das vendas de carros novos da empresa no ano passado e por 15% do lucro da divisão de carros. A empresa alemã tem 40 fábricas na China, inclusive algumas em joint ventures com empresas locais.

O ex-CEO da Volkswagen, Herbert Diess, substituído no começo de setembro pelo CEO da Porsche, Oliver Blume, já chegou a declarar que a China é crucial para a Volkswagen e que toda a economia alemã precisa da China.

Na verdade, segundo um estudo do Rhodium Group, a Volkswagen foi o maior investidor estrangeiro na China no ano passado. E há pouco mais de um mês, a empresa alemã lançou uma joint venture de 2,4 bilhões de euros com a chinesa Horizon Robotics. O objetivo é impulsionar o desenvolvimento da automação e recuperar o atraso no desenvolvimento de software proprietário.

A questão é justamente essa, o atraso no desenvolvimento de softwares. Enquanto as joint ventures com Faw e Saic continuam no pódio em 2022, apenas atrás da BYD para motores de combustão interna, os modelos movidos a bateria, onde o software faz a diferença, ainda não conseguiram conquistar os jovens consumidores chineses, que consideram mais atrativa a oferta hi-tech dos modelos locais, desde Nio a Xpeng a Geely.

A série ID da Volkswagen, que dominou o ranking europeu em outubro com o SUV ID.4, está lutando para se posicionar entre as dez maiores vendas de veículos na China.

Problemas geopolíticos pioram o cenário

Como se não bastasse, há a questão geopolítica. A recente viagem do chanceler alemão Olaf Scholz à China com uma grande delegação de líderes da indústria alemã, destacou o quanto a Alemanha ainda se concentra nas relações com Pequim. No entanto, começou há um tempo na Alemanha um debate sobre a validade da estratégia de seguir investindo na China. Isso pois a estratégia de seguir comprando gás da Rússia criou uma dependência que agora, após o começo da guerra na Ucrânia, a Alemanha está sofrendo para superar.

Para o Instituto Mercator para Estudos da China (Merics), com sede em Berlim, "as montadoras alemãs estão em um equilíbrio entre limitar novos investimentos na China e a perda potencial de competitividade global". O estoque de investimentos automotivos da Alemanha na China aumentou 65% entre 2015 e 2020, para um total de 33,6 bilhões de euros. Mas a maré mudou e, segundo Merics, um fortalecimento da posição na China para se manter competitiva pode até acabar não atendendo aos interesses da Alemanha. Um grande dilema para um país que já está enfrentando uma crise econômica e energética sem precedentes.