Oncologia: Moderna e Merck testam vacina contra diferentes tipos de tumores. (Adam Glanzman/Bloomberg)
Repórter de Invest
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 09h42.
As ações da empresa americana de biotecnologia Moderna dispararam no pré-mercado desta quarta-feira, 19, chegando a subir mais de 100%, após ela e a farmacêutica Merck anunciarem que uma vacina experimental e personalizada contra o câncer atingiu sua principal meta em um estudo de fase 3.
Por volta das 09h20 (horário de Brasília), os papéis da Moderna em Nova York (MRNA) acumulavam alta de 81,26%, enquanto os da Merck subiam 7,22% e valorizavam quase 27% em 2026 e 60% nos últimos 12 meses. Já os ativos da Moderna subiam 104,02% nesse ano e 125,58% nos últimos 12 meses.
A reação mais forte da Moderna reflete o tamanho diferente das duas companhias, na avaliação da imprensa internacional. Antes do pregão, a Merck tinha valor de mercado próximo de US$ 333 bilhões, enquanto o da Moderna girava em torno de US$ 25 bilhões.
Em junho, antes da divulgação dos dados, o analista da Leerink Partners, Mani Foroohar, classificou o desfecho do estudo de fase 3 como um evento capaz de definir a trajetória das ações da companhia.
Outros especialistas também avaliam que a cotação atual da Moderna já incorpora expectativas de que a vacina personalizada possa funcionar não apenas contra o melanoma, mas contra outros tipos de câncer.
O resultado ocorre em meio à pressão de investidores para que a Moderna amplie seu portfólio para além da vacina contra a covid-19, seu principal produto até aqui.
Um resultado positivo em fase 3 abre caminho para que a empresa passe a competir no mercado de oncologia, uma das principais frentes de crescimento da indústria farmacêutica.
O estudo envolveu mais de 1.100 pacientes com melanoma de alto risco ou avançado que já haviam passado por cirurgia para remoção completa do tumor, e testou a combinação da vacina com o Keytruda, imunoterapia da Merck.
O tratamento combinado prolongou de forma significativa o período em que os pacientes permaneceram livres da volta do câncer, em comparação com o uso isolado do Keytruda, considerado o padrão de tratamento para melanoma.
A combinação também reduziu o risco de a doença se espalhar para órgãos distantes, segundo as duas empresas.
Os resultados reforçam dados favoráveis obtidos anteriormente em um estudo de fase 2. O acompanhamento de cinco anos, divulgado em junho, apontou queda de cerca de 50% na taxa de recorrência ou morte entre pacientes tratados com a combinação.
O avanço tem peso para a estratégia financeira da Merck, que busca novos produtos para compensar a receita que perderá nos próximos anos com o vencimento das patentes do Keytruda.
O medicamento é atualmente o mais vendido do mundo e gerou US$ 32 bilhões em vendas para a Merck no ano passado. Agora, a vacina pode ajudar a companhia a estender o ciclo comercial do produto para além do vencimento das patentes.
Batizada de "intismeran autogene", a vacina usa a tecnologia de RNA mensageiro da Moderna para identificar dezenas de mutações específicas de cada paciente, em vez de utilizar uma fórmula padronizada.
De acordo com a chefe de desenvolvimento oncológico inicial da Merck, Jane Healy, a proposta é treinar o sistema imunológico para reconhecer e eliminar marcadores exclusivos do tumor.
Healy classificou como "muito empolgante" o fato de a terapia ter produzido uma "melhora clinicamente significativa" em relação ao Keytruda isolado. E os efeitos colaterais foram semelhantes aos de outras vacinas usadas contra doenças distintas.
Cientistas da Merck e da Moderna disseram a Barron's, no início do mês, que um diferencial do tratamento está no momento em que ele é aplicado, depois da cirurgia, quando o câncer ainda está mais vulnerável às defesas do organismo.
A Moderna já automatizou o processo de fabricação, e analistas acreditam que essa produção pode ser escalada para gerar bilhões de dólares em vendas anuais.
Merck e Moderna já testam a mesma vacina contra outros tipos de câncer, incluindo tumores de pulmão de células não pequenas, bexiga, rim, estômago e pâncreas, o que ajuda a sustentar a expectativa de analistas de que a valorização atual da Moderna reflita perspectivas além do melanoma.
O estudo de fase 3 continua em andamento para avaliar outros desfechos, incluindo o benefício da combinação sobre a sobrevida geral dos pacientes.
As companhias afirmam que pretendem apresentar os dados completos em um congresso médico internacional ainda não realizado, mas não detalharam quando pretendem submeter o pedido de aprovação do tratamento nos Estados Unidos.
As conversas com reguladores americanos sobre o processo de registro já estão em curso.
*Com informações da Barron's e da CNBC