Aves brasileiras: araponga-de-garganta-nua e seriema-de-pernas-vermelhas superaram 120 decibéis e estão entre as mais barulhentas do mundo (João Menezes)
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Publicado em 4 de outubro de 2026 às 14h30.
Última atualização em 8 de outubro de 2026 às 15h53.
Uma ave encontrada no Brasil consegue produzir um canto de quase 131 decibéis, intensidade comparável à de uma britadeira. O registro foi feito com uma araponga-de-garganta-nua e coloca a espécie entre as aves mais barulhentas já estudadas.
A descoberta faz parte de uma pesquisa publicada na revista científica Evolution. Cientistas mediram as vocalizações de 123 espécies de aves no Brasil e nos Estados Unidos entre dezembro de 2018 e janeiro de 2025.
Além da araponga-de-garganta-nua, a seriema-de-pernas-vermelhas apresentou níveis extremos de intensidade sonora. As duas espécies ultrapassaram 120 decibéis em algumas das medições.
Segundo João C. T. Menezes, biólogo evolucionista e coautor do estudo, a comparação mais próxima entre os sons cotidianos seria o ruído produzido por uma britadeira.
A resposta depende da forma usada para medir a intensidade do canto. Uma araponga-de-garganta-nua apresentou o maior pico individual registrado pelos pesquisadores, chegando a quase 131 decibéis quando o som foi padronizado para uma distância de um metro.
Em outra análise, que considerou a média dos cantos mais intensos durante intervalos de 20 milissegundos, a seriema-de-pernas-vermelhas alcançou quase 121 decibéis.
Já quando os cientistas consideraram a média dos picos máximos registrados entre diferentes indivíduos, a araponga-branca permaneceu na frente, com 127 decibéis entre seis aves analisadas. Por isso, o estudo não estabelece uma única espécie como definitivamente a mais barulhenta do planeta.
Das 123 espécies analisadas, 113 nunca haviam tido a intensidade de suas vocalizações medida anteriormente.
Um dos desafios desse tipo de pesquisa é determinar a distância entre a ave e o equipamento, já que esse fator interfere diretamente na intensidade registrada.
Para resolver o problema, os pesquisadores utilizaram telêmetros a laser para medir a distância até os animais enquanto registravam seus cantos. Depois, corrigiram os dados considerando a distância e o ruído de fundo. Isso permitiu comparar as vocalizações entre diferentes espécies.
Os pesquisadores compararam a intensidade das vocalizações com características como tamanho corporal e largura da abertura do bico. A análise mostrou que espécies maiores e aquelas capazes de abrir mais o bico tendem a produzir sons mais intensos.
Segundo os pesquisadores, aves maiores possuem músculos mais volumosos, capazes de gerar maior pressão interna. Bicos com aberturas maiores também permitem que mais energia sonora seja liberada no ambiente.
O tamanho, porém, não explica tudo. Algumas aves conseguem produzir sons mais intensos que animais muito maiores, como elefantes, leões e bisontes.
Os pesquisadores também avaliaram possíveis fatores ambientais e reprodutivos relacionados aos cantos mais intensos.
As arapongas vivem em florestas, onde vocalizações fortes poderiam favorecer a comunicação em meio à vegetação. Seu comportamento reprodutivo também poderia contribuir para cantos mais intensos.
As seriemas-de-pernas-vermelhas, porém, são monogâmicas e normalmente vivem em ambientes abertos, mas também produzem vocalizações extremamente altas.
Os pesquisadores ainda não conseguiram determinar quais fatores ambientais e evolutivos explicam essas diferenças. Novas medições poderão revelar outros candidatos ao título de ave mais barulhenta do mundo.