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Dois anos de IPO e 42 aquisições: Ambipar revela estratégia por trás das compras

CFO Thiago Silva conta em entrevista exclusiva sobre “arrojado” plano de crescimento e listagem na NYSE; faturamento cresceu 440% desde estreia na bolsa

Thiago Silva, CFO da Ambipar (Ambipar/Divulgação)

Thiago Silva, CFO da Ambipar (Ambipar/Divulgação)

Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

24 de agosto de 2022, 06h41

Única empresa de serviço para o aprimoramento de práticas ambientais da bolsa brasileira, a Ambipar chegou durante a safra de IPOs de 2020 como uma clara alternativa para a agenda ascendente de investimentos sustentáveis. Mas para além de toda a “pegada ESG”, nesses dois anos, a Ambipar se provou uma tese de crescimento.

Nenhuma empresa listada na B3 realizou mais aquisições do que a Ambipar desde então. Foram 42 negócios de M&A desde o IPO, sendo, em média, mais de um a cada três semanas

A atuação no mercado de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) teve efeito expressivo sobre a receita líquida da Ambipar, que saltou para R$ 853,4 milhões no último trimestre contra R$ 157 milhões do mesmo período de 2020, ainda antes de sua estreia na bolsa. 

A Environment, uma das duas principais linhas de negócio da companhia, com foco no gerenciamento e valorização de resíduos, aumentou sua receita em 590% nesses dois anos. Já o faturamento da Response, de serviços para emergências ambientais, como rompimento de barragens e incêndios, cresceu 300%. 

“Até brinco que dentro do grupo Ambipar temos três áreas: a Response, a Environment e a de M&A”, disse Thiago Silva, CFO da Ambipar, em entrevista à EXAME. “É uma diretoria destacada que olha dia e noite para oportunidades de aquisição e está ligada ao C-level da companhia.”

Ter um comitê de investimento formado pelos principais executivos da empresa e pelo presidente do conselho, Tércio Borlenghi Junior, é o que puxa a agenda de aquisições, segundo Silva. 

“Quando há um deal breaker, já colocamos na mesa de discussão. O tempo entre a seleção e a tomada de decisão é curto. A partir do início da auditoria, se a companhia for relativamente organizada, o processo é muito rápido”, afirmou o CFO. “Depende da aquisição. Teve caso que, entre o primeiro contato e o fechamento, demorou 3 meses e caso que demorou 2 anos.

Para além da expansão geográfica, as aquisições da Ambipar visam a complementaridade da oferta de serviços de forma a se apresentar como uma “solução completa” para curar as dores ambientais de seus clientes. Do início da produção até o descarte e reintegração de resíduos aos processos produtivos. 

A seleção das melhores oportunidades, disse Thiago Silva, passa principalmente pela análise das potenciais vendas cruzadas. “É um ecossistema que se retroalimenta. Uma vez dentro, a companhia adquirida passa a ganhar e a gerar contratos de serviços para a Ambipar." 

Mesmo incorporadas, as empresas costumam manter certa independência, com a manutenção dos antigos sócios em cargos de liderança ou mesmo com uma fatia remanescente na participação. 

A estratégia, segundo analistas do mercado, se justifica dada a pulverização dos setores da Ambipar e as relações já estabelecidas entre os clientes e os executivos que já tocavam o negócio.

“Quando a Ambipar compra a empresa, ela, basicamente, está comprando a carteira de clientes”, avaliou Richard Camargo, analista da Empiricus responsável pela cobertura da Ambipar.

Thiago Silva explicou que as compras costumam ser feitas 50% em dinheiro no fechamento da operação e o restante dividido em duas parcelas anuais, podendo parte do valor ser acrescido por bônus atrelado a metas. A Ambipar, no entanto, prefere manter sigilo sobre os valores envolvidos nas operações.

“Tentamos ao máximo não comprometer a estratégia de M&A. Quando anuncio a compra de uma empresa de pós-consumo, por exemplo, já estou negociando com outras cinco do setor. Se eu revelar qualquer tipo de informação, criarei referência de valor para as demais.”, afirmou. 

A estratégia de não revelar os valores da aquisição no momento do anúncio tem a proteção da Lei das S.A., que resguarda o direito de sigilo a investimentos considerados não relevantes. Para ser relevante, nos termos da lei, precisaria o conjunto da sociedade adquirida ter valor contábil de pelo menos 15% do valor patrimonial líquido da empresa compradora – ou o valor contábil de uma das controladas ser superior a 10% do patrimônio líquido da Ambipar, que encerrou o segundo trimestre em R$ 1,2 bilhão. 

A maior aquisição da Ambipar no ano foi a da FOX, fechada em fevereiro por R$ 90 milhões, segundo demonstração financeira do segundo trimestre. Já a soma de sete aquisições realizadas no primeiro semestre e divulgadas no balanço ficou em R$ 270 milhões, considerando o câmbio atual de R$ 4 para cada dólar canadense. A moeda foi utilizada na compra da First Response por $CAD 16,625 milhões pela subsidiária Holding Canadá. 

Amor e ódio no mercado

Delineada desde antes da abertura de capital, a estratégia da Ambipar alinhava dois temas em voga no momento do IPO de 2020, crescimento e ESG, e foi recebida de braços abertos pelo mercado, com uma busca explosiva pelas ações. 

A oferta foi precificada no topo da faixa indicativa, a R$ 24,75 por ação, e os papéis subiram 27% nos dois primeiros dias de negociação. Na máxima de agosto de 2021 as ações chegaram a valer cerca de R$ 70. O brilho da Ambipar era tanto que um pedido de IPO da divisão Environment chegou a ser protocolado na CVM. Mas nunca saiu do papel. A rotação do fluxo de investidores para empresas consolidadas, diante de juros cada vez mais altos no Brasil e sinalizações do início do ciclo de aperto nos Estados Unidos, teve papel determinante nos planos da empresa.

Sem conseguir levar sua principal divisão em termos de faturamento à bolsa, a escolha foi dar continuidade à agenda de crescimento por meio de dívida. A emissão de R$ 750 milhões em debêntures realizada no início do ano deu fôlego extra e a Ambipar comprou mais dez empresas. “É uma máquina de aquisições”, comentou Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, com recomendação de compra para os papéis. 

Apesar da contínua expansão da companhia, hoje, as ações da Ambipar (AMBP3) estão mais próximas do preço de entrada do que dos níveis de um ano atrás. Cotados a cerca de R$ 26, os papéis acumulam desvalorização superior a 60% em relação à máxima histórica. Para Thiago Silva, CFO da companhia, o mercado “não está entendendo” o real crescimento da companhia.

“O cenário macro explica boa parte da queda. A Ambipar ainda é uma small cap na bolsa e as companhias menores sofreram mais em valuation. Mas seguimos com o plano de expansão e estamos cientes do que tem que ser feito. Logo o mercado vai reconhecer isso”, afirmou. 

Mas o resultado do segundo trimestre provocou uma nova onda de venda dos papéis, com as ações fechando em queda de 10,96% em reação ao balanço. Preocupações sobre as despesas financeiras e maior nível de investimento alimentaram a cautela do mercado. 

O preço da dívida

O Ebitda (lucro antes de juros impostos depreciação e amortização) saltou para R$ 220,8 milhões no segundo trimestre, 127,2% acima do apresentado mesmo período do ano passado. Por outro lado, o lucro líquido desabou 90% para R$ 4 milhões, corroído pelo resultado financeiro negativo em R$ 111,2 milhões frente ao resultado negativo em R$ 8,8 milhões do segundo trimestre de 2021. Os juros sobre debêntures custaram no trimestre R$ 89,46 milhões e os sobre empréstimos, R$ 35,3 milhões, representando 84% do total das despesas financeiras. 

Thiago Silva disse que o resultado financeiro foi um efeito momentâneo da alta da taxa de juro e que a empresa não abrirá mão do lucro para crescer. “O lucro líquido está dentro do planejamento. O Banco Central já sinalizou que esse a Selic atingiu o pico. Agora, a curva [de juros] deve entrar em decréscimo."

O resultado líquido, porém, não deverá se normalizar já nos próximos balanços, segundo Frederico Nobre, líder de análise da Warren Investimentos. “O lucro deve permanecer baixo neste ano por conta do alto patamar da dívida para financiar a agenda de aquisições. Devemos ver uma melhora no ano que vem, a partir do segundo ou terceiro trimestre”, disse.

Puxada pelo plano de crescimento, a dívida líquida da Ambipar atingiu 2,8 vezes o Ebitda anualizado no segundo trimestre. O capex da Ambipar, que envolve investimentos desde aquisições a manutenções, cresceu 60% no segundo trimestre para R$ 161,3 milhões. Embora tenha ensejado maior cautela no mercado, a importância do aumento dos aportes foi ressaltada em teleconferência com investidores.

“Olhamos o capex como uma oportunidade de crescimento. Fazemos o capex agora, mas a efetivação dos resultados, em alguns casos, acontece neste ano e, em outros, no seguinte”, disse aos investidores Andriotti, CEO da Ambipar Environment.

Para a Ambipar, o momento para fazer as aquisições é agora. “Não podemos deixar as oportunidades de M&A escaparem. Ao mesmo tempo que o cenário macro é difícil, há grandes oportunidades. Não só o public equity como private equity está barato”, complementou o CFO à Exame. 

As últimas aquisições têm se concentrado no mercado internacional, para onde a companhia cada vez mais tem se voltado. A Ambipar acumula histórico 7 aquisições nos Estados Unidos e 6 no Canadá. São 48 bases da Ambipar na América do Norte, sendo a maior parte da unidade Response, de atendimento a emergências ambientais. A divisão encerrou o segundo trimestre com 66% de sua receita vinda do exterior.

A atuação internacional da Response, especialmente na América do Norte, é vista como a principal via de expansão – o que já se reflete nos números. A receita da Response na região dobrou em relação ao segundo trimestre de 2021 para R$ 131 milhões, superando o até mesmo o faturamento da Response no Brasil, que ficou em R$ 122 milhões.

Listagem na NYSE e nova rodada de aquisições

Para sustentar o crescimento da Response na América do Norte, a Ambipar está prestes a realizar uma operação que deve levar a divisão à Bolsa de Valores de Nova York (NYSE, na sigla em inglês). O ticker escolhido para os papéis corresponde aos planos ambiciosos da companhia: AMBI

“Será uma operação de extrema importância, porque irá destravar valor da Response e dar acesso a financiamento. A listagem na NYSE deve acontecer em meados de outubro. A Response tem um planejamento arrojado na América do Norte. Então, faz todo sentido ser nos Estados Unidos”, disse Thiago Silva. 

A operação, divulgada ao mercado em julho, envolve uma combinação de negócios com a HPX, sociedade de propósito específico (SPAC, na sigla em inglês) que levantou US$ 220 milhões na NYSE em 2021. Entre os nomes por trás da SPAC estão algumas das figuras renomadas do mercado brasileiro, como Carlos Piani, ex-CEO da Equatorial, e Rodrigo Xavier, ex-CEO do Bank of America no Brasil.

A Ambipar permanecerá no controle da Response, com 96,2% do capital votante e 71,8% do capital social. Uma capitalização de US$ 168 milhões já está garantida e pode chegar a US$ 415 milhões, caso não haja resgate de ações pelos atuais acionistas da HPX. A listagem ainda prevê a utilização do golden share na proporção de 10 para 1, abrindo margem para novas emissões no mercado americano, sem que a Ambipar perca o controle da Response.

“Isso gera uma oportunidade muito forte de diluição para acesso a financiamento. Os 50% [de participação] passarão a não ser uma barreira para nosso perfil de controlador”, afirmou o CFO. 

Todos os resultados da unidade Respose, disse Thiago Silva, continuarão sendo consolidados pela Ambipar. A expectativa é de que, com mais dinheiro em caixa, o nível de alavancagem caia pela metade – dando uma nova gordura até o limite “saudável” de 3 vezes Ebitda.

Com o objetivo de crescer – e se consolidar – na região mais rica do mundo, pisar no freio está longe dos planos da Ambipar. “[A listagem]  vai nos ajudar a colocar dinheiro para dentro do caixa e seguir comprando companhias que geram valor.  Queremos continuar com crescimento acelerado e acreditamos que o M&A é a melhor ferramenta para atingir nosso plano mais rapidamente.”