Como a Petrobras entrou em cena para conter avanço de Carlos Slim na Braskem Idesa
Missão ao México ocorreu quando bilionário mexicano, um dos homens mais ricos do mundo, ganhava poder como acionista e credor da operação; acordo preserva controle da Braskem, mas deixa uma conta de US$ 350 milhões


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 07:00.
Última atualização em 19 de agosto de 2026 às 11:01.
A Petrobras entrou em campo nos últimos meses para tentar evitar que a Braskem perdesse o controle da Braskem Idesa, sua operação no México, para o grupo do bilionário Carlos Slim. A movimentação começou quando a possibilidade de mudança de controle se tornou iminente, apurou o EXAME Insight com uma pessoa que acompanhou de perto a trajetória da companhia mexicana. Foi uma mudança de postura da estatal brasileira, que havia se mantido distante das negociações no país mesmo nos anos mais críticos da Braskem Idesa, quando os problemas no fornecimento de matéria-prima pela estatal mexicana Pemex começaram a comprometer a operação do complexo petroquímico.
Em junho, representantes da Petrobras foram ao México e houve conversas com o grupo de Slim em busca de uma solução que mantivesse a Braskem no controle da companhia, segundo apurou o Insight. A missão ocorreu justamente em um momento de aproximação entre Petrobras e Pemex: no dia 23 daquele mês, as duas estatais assinaram um memorando para estudar projetos conjuntos no México, inclusive em exploração e produção no Golfo do México, refino, processamento de gás, fertilizantes e petroquímica.
A aproximação colocava a Petrobras em uma teia de relações que ajuda a explicar a disputa pela Braskem Idesa. E a Pemex está na origem de boa parte do problema. Acontece que o complexo petroquímico construído em 2016 estava baseado em um contrato de 20 anos para fornecimento de etano pela estatal mexicana, que nunca conseguiu entregar os volumes previstos. Slim, por sua vez, vinha aumentando sua presença no setor de petróleo e gás mexicano, inclusive por meio de negócios com a própria Pemex, ao mesmo tempo em que ganhava poder na estrutura financeira da Braskem Idesa.
Slim ganhou poder na Braskem Idesa por duas frentes. O Grupo Financiero Inbursa, controlado pela família do bilionário, tornou-se controlador do Grupo Idesa, dono de 25% da petroquímica mexicana. Ao mesmo tempo, empresas ligadas a Slim aumentaram sua exposição como credoras da Braskem Idesa.
A Petrobras se aproximava da Pemex justamente quando Slim, que já vinha ampliando seus negócios com a estatal mexicana, ganhava poder como credor da Braskem Idesa. E foi nesse momento, quando a possibilidade de a Braskem perder o controle do ativo se tornou concreta, que a Petrobras decidiu se envolver nas negociações.
Nesta terça-feira, 18, uma solução para o impasse começou a tomar forma. A Braskem Idesa entrou com pedido de Chapter 11, mecanismo de recuperação judicial dos Estados Unidos, com um plano que prevê reduzir sua dívida em mais de US$ 920 milhões, de aproximadamente US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão. A reestruturação mantém a Braskem como acionista majoritária e o Grupo Idesa como maior minoritário.
Mas o acordo tem um preço. A Braskem se comprometeu a contribuir com US$ 476 milhões, dos quais US$ 126 milhões já foram aportados. Restam, portanto, US$ 350 milhões, que é o valor que a companhia ainda precisaria encontrar para preservar o controle do ativo — valor que nem a Petrobras, nem o IG4, controlador da Braskem, estão dispostos a aportar.
Duas reestruturações, mesma matemática
Encontrar US$ 350 milhões não seria uma tarefa trivial para a Braskem em circunstâncias normais. No momento atual, é ainda mais difícil: a própria companhia tenta fechar uma ampla reestruturação de sua dívida no Brasil e está sob proteção temporária contra credores financeiros. No fim de junho, a Justiça de São Paulo concedeu à petroquímica uma tutela cautelar de 60 dias, suspendendo execuções e cobranças enquanto ela negocia uma solução para sua estrutura de capital. A proteção termina em 24 de agosto.
A Braskem chegou à mesa de negociação pressionada por uma dívida bruta corporativa de US$ 9,4 bilhões ao fim do primeiro trimestre, além de margens deprimidas na indústria petroquímica, juros elevados e desembolsos relacionados ao desastre geológico de Maceió. Uma primeira proposta apresentada aos credores previa, entre outros pontos, US$ 1,5 bilhão em dinheiro novo e alongamento das dívidas, mas não houve acordo. Desde então, as conversas continuam, com alternativas que incluem novos financiamentos, extensão de vencimentos e conversão de parte da dívida em ações.
No mercado, a avaliação é que a capacidade de a Braskem preservar o controle da Idesa passa agora pelo sucesso da própria reestruturação financeira no Brasil. Se conseguir fechar um acordo com os credores e reforçar a liquidez, a companhia ganha espaço para completar o aporte no México. Sem uma solução por aqui, desembolsar mais US$ 350 milhões na subsidiária se torna muito mais difícil.
Slim ganha espaço
A situação que levou a Braskem Idesa ao Chapter 11 começou muito antes do atual aperto financeiro. A companhia nasceu de uma sociedade entre Braskem e Grupo Idesa para construir o Etileno XXI, complexo petroquímico de cerca de US$ 5 bilhões no México cuja equação dependia de uma premissa fundamental: ter matéria-prima local e em quantidade suficiente para abastecer a fábrica. Um contrato de longo prazo previa que a estatal Pemex forneceria etano ao complexo, mas, depois que o projeto entrou em operação, a companhia mexicana passou a não conseguir entregar os volumes previstos.
A falta de matéria-prima começou a desmontar a equação original do investimento. Depois de anos de disputas, a Braskem Idesa renegociou o contrato com a Pemex em condições menos favoráveis que as acertadas originalmente, segundo uma pessoa que acompanhou o processo. Ao mesmo tempo, precisou buscar fora do México o etano que não conseguia obter em quantidade suficiente dentro do país, adicionando à operação uma necessidade de investimento que não fazia parte da concepção original do projeto.
A saída foi construir o Terminal Química Puerto México, infraestrutura que permite importar etano, principalmente dos Estados Unidos, para abastecer o Etileno XXI. Na prática, uma fábrica de cerca de US$ 5 bilhões concebida para consumir matéria-prima fornecida pela Pemex precisou de um novo investimento para trazer parte desse insumo do exterior. O processo pressionou a estrutura financeira da Braskem Idesa e, à medida que a companhia se fragilizava, Slim aumentava sua relevância na equação, tanto como acionista quanto como credor.
Nascimento de uma gigante
Em 2001, os os grupos Odebrecht e Mariani venceram a disputa pelo controle da Copene, a central de matérias-primas do Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia, o que destravou a consolidação do setor petroquímico. No ano seguinte, a Braskem nasceu da consolidação de seis empresas: Copene, OPP, Trikem, Nitrocarbono, Proppet e Polialden.
A Copene transformava derivados de petróleo em produtos básicos, como eteno e propeno, que serviam de matéria-prima para fabricantes de resinas e outros produtos químicos. Odebrecht e Mariani já tinham negócios na etapa seguinte dessa cadeia. Ao colocar a Copene e essas empresas sob o mesmo guarda-chuva, os grupos passaram a controlar diferentes elos da produção — da matéria-prima petroquímica às resinas utilizadas pela indústria de transformação.
Em 2007, a Petrobras ganhou peso na estrutura acionária da petroquímica. Até então, a estatal tinha uma participação minoritária na companhia, mas, junto à Braskem e ao Grupo Ultra, comprou ativos do Grupo Ipiranga, em uma operação que reorganizou parte relevante da indústria no país
A Braskem ficou com ativos petroquímicos da Ipiranga e ampliou sua presença no Sul, enquanto a Petrobras aprofundou sua relação com a companhia. Como parte da reorganização, participações da estatal em empresas como Copesul, Ipiranga Petroquímica e Ipiranga Química foram incorporadas à estrutura da Braskem.
Em troca desses ativos, a Petrobras aumentou substancialmente sua participação na petroquímica. A estatal passou de acionista minoritária a dona de cerca de 30% das ações com direito a voto e 25% do capital total.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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