EXCLUSIVO: Casas Bahia negociou R$ 2,5 bilhões em aportes antes de recuperação judicial
Varejista negociava aporte de fundo estrangeiro e preparava follow-on para captar até R$ 2,5 bilhões; virada do mercado a partir de abril frustrou os planos


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 10:37.
Última atualização em 17 de agosto de 2026 às 14:52.
A Casas Bahia, que protocolou o pedido de recuperação judicial neste domingo, 16, com mais de R$ 17,3 bilhões em dívidas, esteve perto de levantar cerca de R$ 2,5 bilhões no início deste ano. Eram dois caminhos possíveis.
O primeiro, via B3. A companhia estava desenhando nova operação de follow-on para vender mais ações em mercado. A expectativa era levantar algo próximo a R$ 1 bilhão com a nova rodada.
Também estava em negociação a entrada de um fundo estrangeiro, apurou o EXAME Insight, por algo em torno de R$ 1,5 bilhão. As conversas engrenaram e trouxeram otimismo à diretoria da Casas Bahia. O momento ajudava: o Brasil atravessava uma onda de entrada de capital estrangeiro. Só no primeiro trimestre, investidores internacionais colocaram cerca de R$ 54 bilhões líquidos na Bolsa brasileira, mais que o dobro do registrado em todo o ano passado.
O dinheiro de fora havia voltado para o Brasil, e a expectativa era de que uma parte dele pudesse chegar à companhia. No total, a Casas Bahia esperava levantar algo em torno de R$ 2,5 bilhões. A verdade é que não era para tanto. A necessidade para fluxo de caixa era de R$ 1,5 bilhão. A entrega sairia melhor do que a encomenda.
Mas as coisas mudaram a partir de abril.
Maré virou
A guerra no Irã começou a virar o humor dos mercados. A escalada do conflito e as incertezas sobre o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz aumentaram o temor de uma nova pressão inflacionária global — e, com ela, de juros altos por mais tempo.
O movimento atingiu os mercados emergentes. O investidor estrangeiro, que havia sido um dos motores da disparada da Bolsa brasileira no começo do ano, começou a tirar o pé.
A virada aparece nos números. Em 15 de abril, o saldo de capital estrangeiro na B3 no mês estava positivo em R$ 15,7 bilhões. Duas semanas depois, abril terminou com apenas R$ 3,2 bilhões.
Em maio, o fluxo virou de vez. Os estrangeiros retiraram R$ 14,9 bilhões da Bolsa, a maior saída mensal desde janeiro de 2022. Parte do dinheiro migrou novamente para mercados desenvolvidos, especialmente para as ações de tecnologia americanas.
Era uma mudança particularmente ruim para a Casas Bahia.
A companhia tentava vender ao mercado uma nova rodada de ações justamente quando os investidores começavam a reduzir a exposição a ativos de maior risco. A janela que parecia aberta no primeiro trimestre ficou muito mais estreita.
Varejo em crise
Não seria a primeira vez que a Casas Bahia recorreria à Bolsa para reforçar o caixa. Em setembro de 2023, quando ainda se chamava Via, a varejista levantou R$ 623 milhões em um follow-on — abaixo da expectativa inicial, de pelo menos R$ 1 bilhão.
A oferta foi precificada a R$ 0,80 por ação, um desconto de cerca de 28% em relação ao fechamento do dia anterior, e veio acompanhada de bônus de subscrição que poderiam ampliar a captação posteriormente.
Na época, a leitura era de que os cerca de R$ 600 milhões compravam tempo para a execução do turnaround, mas estavam longe de resolver o problema de capital da companhia.
Crise que se arrasta
Em 2024, a Casas Bahia tentou resolver parte do problema fora dos tribunais. A companhia renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas com bancos por meio de uma recuperação extrajudicial. A expectativa era que o alongamento dos vencimentos e a redução das despesas financeiras, combinados a uma recuperação do consumo, dessem fôlego ao caixa. Não foi o que aconteceu.
Com a recuperação judicial, a Casas Bahia pretende fazer uma reestruturação mais ampla do passivo sem interromper as operações. A companhia emprega mais de 20 mil pessoas e diz atender mais de 105 milhões de consumidores. Apesar da promessa, a companhia demitiu cerca de 3 000 funcionários e fechou quase 300 lojas neste mês.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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