Inteligência Artificial

Com Trump, Davos vira palco de disputas tecnológicas e de novos dilemas da IA

Entre chips, soberania tecnológica e desinformação, líderes debatem como a IA redefine economia, geopolítica e regras do jogo internacional.

Donald Trump em Davos: republicano retorno ao evento após 6 anos (Getty Images)

Donald Trump em Davos: republicano retorno ao evento após 6 anos (Getty Images)

André Lopes
André Lopes

Repórter

Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 14h27.

Última atualização em 19 de janeiro de 2026 às 14h39.

A 56ª edição do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, tem início nesta segunda-feira, 19, marcada pelo retorno de Donald Trump ao encontro após seis anos e pela onipresença da inteligência artificial na agenda global. O lema oficial do evento fala em “espírito de diálogo”, mas o fórum ocorre em um contexto de fragmentação geopolítica crescente, intensificada por disputas tecnológicas e territoriais entre grandes potências.

Trump chega a Davos liderando a maior delegação americana da história do evento. Enfrenta pressões domésticas ligadas à inflação, ao custo da moradia e às eleições de meio de mandato, mas também se apresenta como o rosto de uma inflexão clara na política tecnológica dos Estados Unidos. Em 2025, seu governo firmou compromissos de investimento de cerca de US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA. Além disso, recuou em medidas protecionistas e passou a permitir a exportação dos chips H200 da Nvidia para a China.

A decisão é vista por participantes como um divisor de águas: Washington passou a tratar a difusão do chamado stack americano de IA não como risco à segurança, mas como instrumento de projeção de poder frente a outras potências. A estratégia sinaliza que padrões tecnológicos e cadeias de suprimento se tornaram tão relevantes quanto alianças militares tradicionais.

Essa lógica deve dominar os corredores do fórum. A disputa global por IA deixou de ser apenas sobre inovação e passou a envolver infraestrutura, energia, cadeias produtivas e influência geopolítica. Após dois anos de corrida por data centers, eletricidade e chips avançados, o debate agora se volta aos efeitos da concentração de capital. A Nvidia superou US$ 5 trilhões em valor de mercado, um patamar sem precedentes, enquanto crescem dúvidas sobre a sustentabilidade do boom da IA.

Executivos e investidores defenderão, ao longo da semana, a aposta em IA generativa e agentes autônomos como motores de produtividade, ciência e crescimento econômico. Em paralelo, reguladores e formuladores de políticas discutem como lidar com efeitos colaterais como deslocamento de empregos, concentração de mercado, riscos à segurança e impactos sobre a democracia.

A rivalidade entre Estados Unidos e China atravessa praticamente todas as discussões. Pequim entra em 2026 dobrando a aposta em modelos de código aberto e aplicações práticas de IA, estratégia vista como mais atraente para mercados emergentes do que sistemas fechados e caros. Avanços recentes da Huawei também indicam que a empresa passou a produzir chips antes restritos a companhias ocidentais, e garantindo um caminho alternativo para a China. Washington tenta responder exportando não apenas tecnologia, mas padrões, acordos e alianças, sobretudo com países do Oriente Médio, do Sul Global e da Ásia.

A União Europeia busca um espaço intermediário. O bloco mantém um modelo regulatório baseado em direitos e avaliação de riscos, enquanto investe bilhões de euros em “gigafábricas” de computação e discute a criação do chamado Euro Stack, um hub de infraestrutura digital com menor dependência externa. O desafio segue tentar evitar que a regulação se torne uma desvantagem competitiva frente ao avanço pragmático de EUA e China.

Cada país com uma visão

Outro tema em alta é o da chamada IA soberana, conceito que defende o controle nacional de dados, modelos e infraestrutura. Índia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e o Brasil aparecem com frequência como exemplos desse movimento. Em Davos, porém, há um consenso tácito: poucos países conseguem — ou deveriam — construir sozinhos toda a cadeia tecnológica, o que leva o debate para escolhas estratégicas de parceria e alinhamento.

Também ganham espaço discussões sobre riscos menos visíveis, como o envenenamento de modelos de IA e campanhas de desinformação criadas não para humanos, mas para sistemas automatizados de treinamento. Especialistas alertam que, com a defasagem temporal dos dados usados nos modelos, esses ataques tendem a se tornar mais frequentes a partir deste ano. A IA surge ainda como desafio direto ao julgamento humano. Conteúdos sintéticos cada vez mais realistas dificultam a distinção entre sátira, propaganda e manipulação, ampliando o ruído informacional em um cenário geopolítico já polarizado.

No pano de fundo está a percepção de que a governança global da IA ainda é frágil. Iniciativas ligadas à ONU avançaram em princípios e normas voluntárias, mas temas como armas autônomas, vigilância em massa e operações de influência seguem sem consenso vinculante. A governança tornou-se global na forma e profundamente geopolítica no conteúdo. O “espírito de diálogo” pode até constar no tema oficial, mas o que está em jogo na Suíça nesta semana é poder.

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