Consulta médica: pesquisadores constataram que para muitos pacientes, ouvir que um sintoma é 'normal' pode transmitir a ideia de que ele não precisa de tratamento (Freepik)
Redatora
Publicado em 14 de outubro de 2026 às 14h02.
A Suki, startup americana que usa inteligência artificial para tirar dos médicos o trabalho de documentação clínica, anunciou em 13 de outubro uma rodada Série E de US$ 90 milhões. Os números divulgados pela empresa são de quem cresce rápido: a receita dobrou em 2025 e deve repetir o ritmo em 2026, e a plataforma já atende mais de 450 organizações de saúde, segundo o comunicado oficial.
Um número, porém, ficou de fora. A empresa não informou o valuation após a rodada. Na captação anterior, uma Série D de US$ 70 milhões em outubro de 2024, a Suki foi avaliada em cerca de US$ 500 milhões, segundo uma fonte ouvida pela Reuters na época.
O silêncio sobre o preço não é exceção no mercado de startups, mas ganha peso no momento atual. Nunca tanto dinheiro foi para empresas de IA, e poucas vezes foi tão difícil dizer quanto elas realmente valem. As informações foram retiradas de Inc.
O produto nasceu de uma dor conhecida do setor. “Quando comecei a olhar para isso de fora, o que notei é que 88% dos médicos não queriam recomendar a profissão aos filhos”, diz Punit Soni, fundador e CEO da Suki, que passou por Google e Flipkart antes de criar a empresa, em 2017. Segundo ele, a carga de documentação tomava várias horas por dia dos profissionais.
A plataforma registra as consultas, gera as anotações clínicas e cuida de parte da gestão do ciclo de receita dos hospitais. “Pense nela como uma Siri, mas para a saúde”, afirma Soni. Além dos clientes diretos, a Suki licencia sua tecnologia para mais de 30 empresas de tecnologia em saúde, que constroem produtos próprios sobre ela.
Os recursos novos vão para a IA agêntica, sistemas capazes de executar tarefas como agendar consultas e encaminhar pacientes. A rodada foi liderada pelo fundo Healthier Capital, com participação de Crosslink Capital, Hercules Capital, Venrock, Flare Capital Partners, Hedosophia e dos braços de investimento da Zoom e da Philips.
A captação acontece no ano mais concentrado da história do venture capital. Nos Estados Unidos, startups receberam US$ 515,8 bilhões de janeiro a setembro, cerca de 44% acima do recorde de todo o ano de 2021, segundo o PitchBook-NVCA Venture Monitor do terceiro trimestre. Empresas de inteligência artificial ficaram com 82,7% desse valor, a maior fatia já registrada.
A disputa elevou os preços. O valuation mediano antes do aporte nas rodadas de estágio avançado, da Série D em diante, mais que dobrou: passou de US$ 831,9 milhões em 2025 para US$ 1,72 bilhão em 2026, segundo o mesmo relatório.
Nesse cenário, a decisão de não divulgar o valuation pode ter várias razões, e a Suki não explicou a sua. Na prática, o mercado fica com os indicadores que a empresa escolheu mostrar: receita dobrando, crescimento de mais de 190% no número de consultas atendidas em 2026 e receita com parceiros multiplicada por mais de dez em dois anos.
O mesmo relatório do PitchBook mostra o que pode acontecer quando o preço privado se descola do valor real. A Airtable, plataforma de gestão de dados que já foi avaliada em US$ 11,7 bilhões, foi comprada pela Bending Spoons por US$ 1,3 bilhão. A Miro, de quadros colaborativos, chegou a valer US$ 17,5 bilhões e tem venda acertada para a mesma compradora por US$ 1,4 bilhão.
São descontos de quase 90% sobre as últimas avaliações das duas empresas. Os dois casos não têm relação com a Suki, mas mostram o risco de qualquer valuation sustentado por premissas de crescimento que não se confirmam.
A presença de investidores corporativos, como Zoom e Philips, adiciona outra camada à conta. Para essas empresas, o aporte pode ter valor estratégico, como acesso à tecnologia e a parcerias, que não aparece em uma planilha de fluxo de caixa. É uma decisão comum em diretorias financeiras de grandes companhias, que precisam justificar ao conselho por que vale pagar o preço de uma rodada.
Avaliar uma empresa sem histórico de lucro é, sobretudo, um exercício de premissas. O analista precisa projetar quanto a receita vai crescer, por quanto tempo, com que margem e a que custo de capital, além de estimar o valor da empresa depois do período de projeção, o chamado valor terminal.
O professor Aswath Damodaran, da NYU Stern, referência mundial no tema, defende que todo valuation combina uma narrativa e números. A história contada pelos fundadores precisa se traduzir em crescimento, margem e risco mensuráveis. Quando a narrativa avança mais rápido que os números, o preço fica vulnerável, como mostram Airtable e Miro.