Descentralizadas só no nome: menos de 1% dos participantes de DAOs concentram 90% do poder de voto

Pesquisa da Chainalysis mostra que concentração de propriedade nas DAOs ainda é altíssima; outros dados também sugerem que setor tem muito a evoluir antes de se tornar dominante
Descentralização, representada pela letra "D" na sigla DAO, ainda não é uma realidade no novo modelo de gestão em blockchain (imaginima/Getty Images)
Descentralização, representada pela letra "D" na sigla DAO, ainda não é uma realidade no novo modelo de gestão em blockchain (imaginima/Getty Images)
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Gabriel RubinsteinnPublicado em 27/06/2022 às 16:07.

A empresa de pesquisa e análise de dados em blockchain Chainalysis divulgou nesta segunda-feira, 27, o novo capítulo de seu relatório "Report Web3", desta vez com foco nas organizações autônomas descentralizadas, ou DAOs, na sigla em inglês. O documento mostra que, apesar do nome, o setor de DAOs atualmente apresenta concentração elevada de propriedade, distanciando-o do conceito de descentralização.

DAO é uma sigla utilizada para designar instituições baseadas em blockchain que buscam uma nova estrutura de gestão, alegadamente mais democrática, que pode ser aplicada para negócios, projetos ou comunidades, em que qualquer membro participante pode votar nas decisões organizacionais. As DAOs funcionam da seguinte forma:

  • 1. Os fundadores da DAO criam uma criptomoeda, chamada de token de governança;
  • 2. Esses ativos digitais são distribuídos entre os usuários, apoiadores ou stakeholders da organização;
  • 3. Cada token corresponde a uma quantidade definida de poder de voto dentro da DAO. Eles também correspondem a um preço no mercado, podendo ser comprados ou vendidos conforme a vontade de seu proprietário.

Embora esse processo seja frequentemente descrito como uma maneira de descentralizar o poder, dados analisados pela Chainalysis sobre tokens de governança à disposição no mercado cripto sugerem que a propriedade nas DAOs é altamente concentrada.

Um dos dados mais importantes da análise mostra que, considerando a distribuição dos dez principais tokens de governança de DAOs em circulação, menos de 1% de todos os seus detentores têm 90% dos poderes de voto. Em três das 10 maiores DAOs analisadas, menos de 0,1% dos detentores dos tokens de governança têm 90% dos poderes de voto.

"Isso tem implicações significativas para a governança das DAOs. Por exemplo, se apenas uma pequena parte do 1% dos maiores detentores trabalhasse em conjunto, teoricamente eles poderiam votar mais do que os 99% restantes em qualquer decisão. Isso tem implicações práticas óbvias e, em termos de sentimento dos investidores, provavelmente o impacto é significativo", diz o documento.

A pesquisa também mostra que o número de carteiras capazes de aprovar uma proposta sozinho nas DAOs analisadas é bastante alta. O total de votos necessários para aprovar uma proposta varia entre 1% e 4% nas DAOs analisadas, o que significa que entre 1 a cada 10.000 e 1 a cada 10.000 detentores de tokens de governança têm a capacidade de fazer isso sozinhos.

O poder de voto excessivamente concentrado nas DAOs pode resultar em uma situação que contradiz os princípios de descentralização sobre os quais a Web3 tem sido construída. A Chainalysis cita exemplos reais relacionados a isso, como problema que afetou a DAO que rege o protocolo de empréstimos Solend, na rede Solana.

Com o preço do token SOL despencando, o maior investidor do protocolo enfrentaria uma chamada de margem que poderia tornar o Solend insolvente e enviar aproximadamente US$ 20 milhões em SOL no mercado, potencialmente derrubando o preço do ativo e derrubando todo o ecossistema Solana.

A DAO convocou uma votação para assumir o controle da conta da baleia e liquidar sua posição no mercado de balcão, em vez do mercado aberto. A proposta foi aprovada com folga, com mais de 1,1 milhão de votos “sim” e apenas 30.000 votos “não”. No entanto, mais de 1 milhão desses votos vieram de um único usuário, com enorme participação em tokens de governança. Sem o voto dele, a moção não teria atingido a taxa de participação de 1% necessária para a aprovação.

A Chainalysis também analisou a gestão patrimonial das maiores DAOs - ou seja, como elas cuidam do valor captado com a venda dos tokens de governança. Segundo a pesquisa, 85% das centenas de DAOs analisadas aloca o seu tesouro em um único ativo, e esse ativo só é uma stablecoin em 23% dos casos, o que expõe as organizações aos riscos intrínsecos do mercado cripto - volatilidade e risco de colapsos, por exemplo.

Apesar dos questionamentos levantados pela pesquisa, os tokens relacionados a DAOs têm conseguido performance melhor do que a maioria dos ativos digitais recentemente. Por exemplo, o relatório mostra que, entre as DAOs com mais de US$ 1 milhão em ativos, a queda máxima de preço foi de 51% no último ano - o bitcoin, por exemplo, caiu 72%.

"À medida que as DAOs ganham força, uma indústria de serviços, ferramentas e entusiastas surge para ajudá-las a crescer e governar. À medida que continuam a se expandir, será interessante ver o que podem realizar, o que se tornarão e até que ponto atingirão seu objetivo de descentralizar a propriedade na Internet. Com a proliferação de DAOs hoje, teremos muitas chances de ver", completa o documento.

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