Comitê da Câmara nos EUA decide que dólar digital é 'necessidade unânime' para competir com a China

Governo norte-americano teria postura unânime sobre desenvolvimento de dólar digital; objetivo é manter a soberania da moeda oficial do país
Estados Unidos avança em projeto de dólar digital (blackdovfx/Getty Images)
Estados Unidos avança em projeto de dólar digital (blackdovfx/Getty Images)
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Mariana Maria Silva

Publicado em 21/09/2022 às 12:41.

Última atualização em 21/09/2022 às 15:05.

O Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Estados Unidos votou a favor do desenvolvimento de uma moeda digital norte-americana na última terça-feira, 20. De acordo com os cinco presentes, um dólar digital seria “necessidade unânime” para que o país possa manter sua soberania na concorrência com a China, que já está em fase avançada de testes de seu iuane digital.

Conhecidas como moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), este tipo de moeda digital normalmente é desenvolvido utilizando a tecnologia blockchain, mas diferentemente das criptomoedas, são centralizados e regulamentados pelo país emissor.

(Mynt/Divulgação)

Na prática, um dólar digital seria uma versão digital do dólar que já conhecemos. Promovendo benefícios de praticidade e velocidade, ele desempenharia um papel importante na digitalização das finanças, processo cada vez mais acelerado entre países de todo o mundo.

Durante a audiência da última terça-feira, 20, intitulada “Sob o radar: sistemas de pagamento alternativos e os impactos de seu crescimento na segurança nacional”, todos os cinco participantes votaram a favor do desenvolvimento de uma moeda digital norte-americana, de acordo com a gravação do evento disponível no YouTube.

O evento foi sediado pelo Subcomitê da Câmara dos EUA sobre Segurança Nacional, Desenvolvimento Internacional e Política Monetária.

A votação entre os presentes foi realizada para registrar e avaliar o nível de necessidade do desenvolvimento de uma moeda digital para o país, e teve resultado unânime.

O membro do Wilson Center Scott Dueweke, o centro para uma nova assistente de pesquisa de segurança americana Emily Jin, e a pesquisadora sênior não residente do Atlantic Counsel, Dra. Carla Norrlof, foram três testemunhas da votação no painel focado em tecnologia e segurança econômica.

Além disso, o chefe de assuntos jurídicos e governamentais da TRM Labs, Ari Redbord, e o cofundador e diretor de estratégia da Chainalysis, Jonathan Levin, também estiveram no painel de testemunhas.

Por que o governo americano deveria lançar um dólar digital?

Entre as razões mencionadas pelo comitê, o desejo de proteger o valor do dólar norte-americano, ameaças à segurança nacional e a concorrência com a China foram as mais recorrentes.

O congressista republicano French Hill, do Arkansas, disse que os EUA devem tomar medidas para garantir que o dólar americano “permaneça a moeda de reserva de valor mundial”.

Já o democrata Jake Auchincloss, de Massachusetts, disse que a audiência foi “encorajadora”. Isso porque o grupo fez progressos na legislação bipartidária de stablecoins, moedas digitais com valor estável. Para ele, este seria um sinal de que as CBDCs podem ser a única coisa que os dois lados do corredor podem concordar com as eleições de meio de mandato se aproximando.

A preocupação com a concorrência chinesa foi mencionada pelo democrata Jim Himes, de Connecticut. Ele perguntou aos presentes como os Estados Unidos poderiam combater a China sem trazer um “apocalipse econômico” ao mundo.

Em resposta, Jonathan Levin, da Chainalysis, disse que os EUA devem continuar a defender os direitos de propriedade e privacidade ao desenvolver uma solução financeira.

Ari Redbord, da TRM Labs, apoiou Levin e disse que os EUA precisam de “um ativo digital que mantenha seus valores” para que os potenciais investidores optem por comprar uma CBDC norte-americana ao invés de uma chinesa.

Já a Dra. Carla Norrlof afirmou acreditar que a China está desenvolvendo sua própria moeda digital justamente como um esforço para concorrer com o dólar. Durante testes nas Olimpíadas de Inverno no início do ano, as transações com iuane digital superaram as da Visa na China.

“A China está tentando alcançar [os Estados Unidos], e eles estão usando vários métodos para tentar alcançar”, disse Norrlof, acrescentando que para a China é “crucial” criar um CBDC para chegar “em qualquer lugar perto” do que o dólar americano está hoje.

Scott Dueweke acrescentou que o iuane digital faz parte dos esforços do país para “coletar informações sobre as pessoas”.

Apesar do foco na concorrência com a China, o comitê sinalizou estar ciente de que as moedas digitais de bancos centrais são uma tendência crescente em governos de todo o mundo.

“Não é apenas uma questão da China, é uma questão geral.” disse Norrlof. “Existem cerca de 104 países atualmente explorando CBDCs.”

Haverá um dólar digital em breve?

Ainda votação unânime da reunião de terça-feira, 21, não garanta que um dólar digital esteja nos planos, outros anúncios do governo norte-americano indicam que as possibilidades de seu lançamento no futuro sejam grandes.

Aparentemente sentindo a pressão para desenvolver a sua própria moeda digital, o governo dos Estados Unidos avança no debate. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, disse que tal invenção seria “uma inovação financeira muito importante” e é “algo que realmente precisamos explorar como país”.

O governo de Joe Biden declarou na última semana que vê muitas vantagens e oportunidades no projeto de dólar digital lançado em março, mas que a iniciativa deve garantir o "desenvolvimento responsável" dessa moeda para reduzir seus riscos.

"O desenvolvimento responsável de ativos digitais é vital para os interesses americanos", disse o principal conselheiro econômico da Casa Branca, Brian Deese, em entrevista coletiva por telefone.

Na data, a Casa Branca divulgou a “Primeira Estrutura Abrangente para o Desenvolvimento Responsável de Ativos Digitais”, documento que descreve as conclusões e recomendações de várias agências federais do país após seis meses de pesquisa.

A pesquisa teve seu início a partir da ordem executiva assinada pelo presidente Joe Biden em março deste ano. Apesar disso, tanto a ordem executiva quanto a estrutura abrangente não definem novas legislações, mas são responsáveis por promover uma visão mais clara sobre o assunto nos Estados Unidos

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