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A conta da água não fecha: o blended finance é a gota que faltava?

O fundo representa apenas 5% do volume de transações para o setor de saneamento e menos de 1,5% do capital comercial mobilizado globalmente

O novo Marco Legal do Saneamento traçou uma meta ambiciosa: universalização até 2033 (Colin Anderson Productions PTY LTD/Getty Images)

O novo Marco Legal do Saneamento traçou uma meta ambiciosa: universalização até 2033 (Colin Anderson Productions PTY LTD/Getty Images)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 20 de março de 2026 às 17h00.

*Por Douglas Souza, co-liderança da jornada Go!Blended

Por ocasião do mês em que celebramos a água, o rito corporativo e governamental costuma ser o mesmo: celebramos o recurso mais vital do planeta e, logo em seguida, esbarramos nos mesmos déficits de sempre.

No Brasil, o Novo Marco Legal do Saneamento traçou uma meta ambiciosa: universalização até 2033. A conta, porém, não fecha.

E os números de 2025 são implacáveis. O montante restante necessário para universalizar o saneamento até 2033 é de R$ 454,1 bilhões. Para chegar lá, o Brasil precisará mais do que dobrar o volume de investimentos anuais — e mantê-los nesse patamar por uma década.

Atualmente, 30 milhões de brasileiros não têm acesso a água canalizada e 60 milhões não têm acesso a esgoto tratado. Se o ritmo atual for mantido, segundo a Abcon, a universalização da água potável só ocorreria em 2091.

O diagnóstico é claro: estamos falando de uma falha estrutural no financiamento, não de escassez de vontade política.

O setor público, estrangulado, não pode arcar com esse CAPEX. O capital privado, embora abundante e com mandato ESG, esbarra numa relação risco-retorno que frequentemente inviabiliza o deal.

Projetos de saneamento exigem capital intensivo up front, têm payback alongado, sofrem com entraves regulatórios e, na ponta, precisam servir populações de baixa renda. É o cenário clássico de falha de mercado. A resposta não está na filantropia tradicional nem no orçamento federal sozinho. Ela é conhecida como blended finance.

A anatomia do capital catalítico

Blended finance não é um eufemismo para subsídio disfarçado. Como define a Go!Blended — iniciativa brasileira de referência no fomento às finanças híbridas —, a lógica é usar capital concessional (que aceita mais risco ou menor retorno) para atrair e destravar capital privado em áreas onde, sozinho, o mercado não entraria. O mecanismo se organiza em três camadas:

Capital de primeira perda: provido por governos, bancos de fomento ou capital filantrópico, funciona como um colchão que absorve perdas iniciais e protege os demais credores.

Garantias e de-risking: instrumentos que mitigam riscos específicos — cambial, crédito, quebra de contrato — e aumentam a confiança na operação.

Capital privado sênior: com o risco repartido, fundos, bancos e instituições entram nas tranches mais seguras buscando retornos competitivos.

O resultado é a alavancagem a serviço do impacto. Dados internacionais compilados pela Go!Blended indica que o blended finance pode multiplicar em até 4 a 5 vezes o volume de capital mobilizado. Cada real público catalisa quatro ou cinco de origem privada.

Casos práticos: da Ásia ao Paraná

No plano global, o WaterCredit Investment Fund 3, gerido pela WaterEquity, é referência. O fundo de US$ 50 milhões utilizou empréstimos catalíticos e garantias de primeira perda providas por DFIs e fundações para atrair grandes investidores privados em instituições de microfinanças asiáticas.

O capital fluiu para dezenas de milhares de microempréstimos — e famílias na base da pirâmide instalaram conexões de água potável em suas casas. A tese ficou provada: água é um ativo bancável quando o risco é distribuído com inteligência.

No Brasil, o blended finance começa a ganhar musculatura institucional. A Sanepar, do Paraná, captou R$ 375 milhões via Eco Invest Brasil — programa federal de proteção cambial para atrair capital estrangeiro verde — para ampliar a Estação de Tratamento de Esgoto CIC Xisto, beneficiando 700 mil habitantes na Grande Curitiba.

O mecanismo de de-risking foi o diferencial que reduziu os custos de capital da companhia e viabilizou a obra. Um sinal de que o modelo funciona e pode escalar.

O desafio que resta

Ainda há uma tensão honesta a reconhecer: o blended finance para água e saneamento representa apenas 5% do volume de transações e menos de 1,5% do capital comercial mobilizado globalmente.

O potencial é enorme; a execução, ainda incipiente. A Go!Blended e iniciativas similares cumprem papel insubstituível ao provocar trocas, conectar o ecossistema, treinar agentes e dar visibilidade a  pipeline de projetos bancáveis que o setor ainda não tem em escala suficiente.

O Dia da Água, comemorado anualmente em 22 de março, não deve ser uma data no calendário de sustentabilidade corporativa. Deve ser um marco no calendário de project finance.

O abismo entre a escassez hídrica e as metas de 2033 não será suprido por orçamentos apertados nem pelo apetite solitário dos fundos tradicionais.

O blended finance alinha o dever fiduciário e a urgência de impacto — e, ao transformar risco percebido em risco mitigado, deixa de ser tese de nicho para se tornar o principal instrumento de funding do nosso tempo. O dinheiro existe. O blended finance é, literalmente, o encanamento certo para fazê-lo chegar à torneira.

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