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Construindo ecossistemas sustentáveis, do ponto de vista social, ambiental e econômico

No PolvoLab, cada cooperado é um “nano empresário”, e não um empregado, promovendo a liberdade de escolha, autonomia e dignidade
 (Holloway/Getty Images)
(Holloway/Getty Images)
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Esfera BrasilPublicado em 21/07/2022 às 09:00.

Por Ana Maria Diniz*

Sempre me incomodei muito com as diferenças sociais de nosso país, principalmente com o fato de que muitos brasileiros não têm oportunidades iguais. Por isso, além de minhas atividades empresariais, tenho dedicado uma boa parte de meu tempo a projetos de educação que tem o objetivo de melhorar a qualidade da educação pública brasileira. Por conta desses mais de 20 anos me dedicando a entender como funciona a educação no Brasil, fui acumulando um bom conhecimento sobre o assunto e, então, em 2018 tive a chance de elaborar, junto com muitos especialistas, o plano de educação para um então candidato à presidência.

Naquele momento enxerguei de perto as enormes disparidades educacionais de nosso país. Enxerguei ainda uma grande população de brasileiros que estavam “fora do jogo”. Adultos com quase nenhuma instrução, vivendo nas mais diversas cidades brasileiras, com IDH baixíssimos. São pessoas que não tiveram oportunidade e que passariam o resto de suas vidas vivendo de bolsa família, auxilio emergencial ou qualquer outro programa social do governo.

A parte mais triste é que esse número de pessoas só cresce: na época falávamos de 20 milhões de brasileiros, e hoje, com a situação agravada pela pandemia já somam quase 30 milhões nessa situação lastimável, ganhando menos de R$ 250,00 por mês.

 Isso me incomodou profundamente e motivou a agir e pensar em uma forma de trabalhar com essa população, a incluindo em alguma atividade produtiva para dar autonomia a essas pessoas.

Ao mesmo tempo por continuar exercendo ativamente as minhas atividades empresariais em diversos ramos, que vão de energia a arte, passando pelo agro negócio e educação, eu sei que o Brasil tem muitas vocações de produtos riquíssimos, dada à sua enorme biodiversidade. Também acredito que esses produtos poderiam ser melhores trabalhados para chegar ao mercado de forma muito mais valorizada. Por que não esse ser o vetor para o desenvolvimento dessas pessoas que hoje estão “fora do jogo"?

Foi assim que nasceu o Polvo Lab, um laboratório de economia criativa de impacto que tem como missão dois objetivos: encontrar produtos bem brasileiros com muita qualidade, que sejam relevantes e recorrentes para o consumidor e que estejam geograficamente muito próximos daquelas populações à margem da sociedade.

Ainda antes da pandemia, comecei uma série de incursões no sertão brasileiro, árido e às vezes pouco desenvolvido, mas descobrindo pessoas sorridentes, ávidas por oportunidades e sim, uma terra cheia de possibilidades se melhor abastecida de água.

Em meio à pandemia tive a felicidade de encontrar a minha parceira e sócia nesta jornada a Gabriella Marques que certamente não chegou na minha vida por acaso. Com ela, quando a pandemia arrefeceu, fomos viajar o Brasil descobrindo essas duas riquezas comuns em todos os nossos biomas: as pessoas e os produtos. Desbravamos juntas o Brasil, guiadas pelo Sebrae e pela Embrapa em busca de produtos e com possibilidade de escala e relevância.

Descobrimos que nossos melhores parceiros são as cooperativas, porque além de já conhecerem bem o território possuem produtos e têm na sua essência o benefício compartilhado entre os cooperados. No nosso modelo, cada cooperado é um “nano empresário”, e não um empregado. Isso apoia nossa missão: queremos promover a liberdade de escolha para aqueles mesmos brasileiros que até então tinham como única alternativa algum programa assistencialista. Isso traz autonomia, dignidade, poder de escolha!

Nosso primeiro produto é o mel, de Simplício Mendes, no Piauí. O produto já é produzido pela COMAPI, uma cooperativa com a qual trabalhamos para desenvolver uma marca mais ousada:  o Mel Mesmo.

A nova marca quer conscientizar o consumidor que existe muito mel adulterado no mercado. O Mel Mesmo é orgânico e sem nenhum tipo de aditivo. Nosso ingrediente especial é exatamente o forte impacto ambiental e social que ele consegue causar: com sua venda já estamos ajudando 250 famílias a trabalhar melhor sua produção, desenvolver novas capacidades e, principalmente, a ter o fruto do seu trabalho mais valorizado. Esse número de famílias impactadas pode aumentar muito, chegando à pelo menos 1.000 famílias em uma mesma região, já que a capacidade produtiva pode chegar a 400 toneladas/ano.

Acreditamos que é possível criar ecossistemas sustentáveis, do ponto de vista social, ambiental e econômico, trazendo para o mercado produtos mais valorizados para satisfazer consumidores conscientes. Este é apenas o primeiro produto da nossa jornada, com o desenvolvimento de um portifólio de produtos bem brasileiros, estaremos gerando riqueza em todos os elos dessa cadeia de produção e assim transformando milhares de vidas no Brasil.

*Ana Maria Diniz é empresária graduada em Administração de Empresas, com especialização pela Harvard Business School. É fundadora do Instituto Península, organização social que atua nas áreas de Educação e Esporte. É também uma das fundadoras dos movimentos Todos Pela Educação, além de ser conselheira da Parceiros da Educação. Ana é empreendedora, sócia-fundadora da Sykué Agro e Polvo Lab, start-up de negócios de impacto.