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Remy Sharp
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Recentemente, o IBGE divulgou o PIB do 2º trimestre de 2023. Assim como já ocorrera no 1º trimestre, o valor anunciado ficou bem acima das estimativas do mercado. Entre abril e junho, o somatório dos bens e serviços produzidos no país registrou alta de 0,9%, enquanto a mediana, calculada com as projeções dos economistas, apontava para modestos 0,3%.

O que está acontecendo com os profissionais de economia? Estão perdendo sua capacidade de fazer estimativas acuradas? O PIB veio substituir a taxa de câmbio?

Nas últimas quatro décadas vimos uma saudável mudança do perfil do profissional que trabalha com Economia e Finanças. A evolução da ciência veio concomitante aos avanços tecnológicos, da informática e, recentemente, até da inteligência artificial (IA), trazendo novos especialistas, com formações mais abrangentes, como engenheiros, administradores, internacionalistas, atuários, matemáticos e profissionais de TI.

O que quero dizer é que, atualmente, encontramos vários “economistas” de instituições de mercado que não possuem formação universitária em Economia. Muitos são formados em outros cursos e decidiram se especializar na área via MBAs, mestrados e doutorados.

Outro aspecto bastante relevante é que os modelos econométricos, que são adotados para fazer as projeções de variáveis, como o PIB, ganharam sofisticação, sendo usados não somente por experts no assunto, mas também por profissionais que possuem habilidades de usar pacotes estatísticos. As linguagens de programação, além das tradicionais planilhas, viraram febre, caso do Power BI e Python, skills fundamentais para jovens iniciantes.

Tão importante quanto as evoluções descritas está a entrada de novos atores no mercado, grupos distintos do tradicional homem branco hétero, num mercado que, lá atrás, era uma espécie de “clube do Bolinha”. Tal movimento foi extremamente positivo. Basta olhar as salas de aulas de hoje em dia nessas faculdades.

O ponto é que atualmente não são apenas os economistas que trabalham com modelos de estimação. Não dá para criticá-los (unicamente) pelos equívocos, como tenho ouvido nos últimos dias. Ademais, existem diversas possibilidades de “erros” que podem levar a casos como o do PIB.

Admitamos um exemplo hipotético para ilustrar:

Podemos dividir a economia de um país em duas vertentes principais: a produção (oferta) e o consumo (demanda), duas óticas contábeis. O primeiro tem a ver com os setores produtivos, a saber, agronegócio, indústria e serviços. O segundo corresponde ao consumo das famílias, das empresas e do governo, além do setor externo, com exportações e importações.

Suponha que depois da pandemia de Covid-19 a economia tenha migrado para maior ênfase na oferta, no lugar do consumo. O que quero dizer é que as microrreformas ocorridas no país no passado recente podem estar afetando as expectativas, melhorando a produtividade e a capacidade de fazer negócios no país, como comentou, recentemente, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Assim, os modelos podem ter dificuldade de retratar essa nova realidade, pelo menos temporariamente.

Outro ponto interessante diz respeito ao agronegócio brasileiro, que mudou de características nos anos recentes. Nossa agricultura, hoje em dia, é muito mais moderna, pujante e produtiva, ao se utilizar das benesses tecnológicas. O país é um tremendo fornecedor de alimentos global, um dínamo na produção de grãos e proteína animal.

Esse tipo de situação que descrevo acima é conhecida nos livros como “quebra estrutural”.

Tecnicamente falando, alguns parâmetros do modelo mudaram, mas estatisticamente não se consegue captar o fenômeno com os dados atuais, pois os do passado (antes da quebra) ainda têm um peso grande nas estimativas.

Tudo Isso já havia sido alertado pelo economista Robert Lucas naquilo que se chama de “Crítica de Lucas”. Reproduzo uma frase do prêmio Nobel:

"Dado que a estrutura de um modelo econométrico consiste em regras de decisão ótimas dos agentes econômicos, e que as regras de decisão ótimas variam sistematicamente com as mudanças na estrutura das séries relevantes para o decisor, conclui-se que qualquer mudança na política sistematicamente irá alterar a estrutura dos modelos econométricos."

Se analisarmos os componentes do PIB no 2º trimestre, veremos que a agricultura caiu 0,9%, a indústria cresceu 0,9% e os serviços ganharam 0,6%. E aqui tem um ponto importantíssimo, que mencionei acima: o agronegócio. No 1º trimestre, esse setor havia ajudado a empurrar o PIB em 1,9%, ao crescer mais de 21% no período. Praticamente ninguém no mercado esperava figura tão forte, nem queda tão modesta no 2º.

Por fim, como gosto de ensinar aos alunos, “modelos não são deuses”. Acredito que estejamos num momento de transição, concordando que as reformas promovidas já estão impactando os negócios para melhor. O ideal é trabalharmos para que outras prosperem, como a Administrativa, e tenhamos um ambiente econômico mais alvissareiro.

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